Assim na Terra, como em Matheus – Luiz Renato de Souza Pinto – 26.9.2017

*por Luiz Renato de Souza Pinto
(Fonte: http://www.cidadaocultura.com.br/assim-na-terra-como-em-matheus/ )

26 de setembro de 2017

Começo a escrever esta crônica no dia 20 de setembro de 2017 (D.C). O Rio Grande do Sul está em festa. Mais um aniversário da revolução farroupilha. Folheio as páginas de Assim na Terra, romance do (falecido) autor gaúcho Luiz Sérgio Metz. Li o livro e conheci o autor no ano de 1993 ou 1994. Morei em Porto Alegre em 1996, quando já era falecido (em 20 de junho daquele ano). Estava à entrada do Bar do Beto, já no endereço novo na Avenida Venâncio Aires (meio do quarteirão), próximo ao Parque da Redenção, na capital gaúcha quando pude entabular uma conversa com ele. Isso voltou a acontecer mais uma ou duas vezes, não me recordo bem ao certo.

Não me recordo bem ao certo, mas na capital gaúcha, naquele ano li muito sobre o Rio Grande, a cultura gauchesca, na verdade fiz um mergulho na literatura rio-grandense para compreender esse espírito aventureiro e conquistador que vem dos pampas engolindo o Brasil, espaçando-se pelo território nacional, sobretudo a partir da era Vargas. E o livro de Metz sobra em meio à maioria dos escritos que pude percorrer. Agora me surpreendo quando, dentre outras citações, deparo-me com uma de seu romance no livro de poemas de Matheus Guménin Barreto, lançado recentemente a máquina de carregar nadas.

Carregar nadas; volta à minha cabeça o momento em que troquei duas ou três palavras com o escritor. À época eu viajava o país a vender poesias nos bares vestido de garçom, personagem que retiro do armário para empreender novas buscas por leitores, às vésperas de lançar novo livro de poemas, vinte e quatro anos depois de Cardápio Poético.

Cardápio poético: em busca da data exata de falecimento do Jacaré, alcunha pela qual era conhecido, deparo-me com um artigo escrito por Matheus sobre Assim na Terra, o que me fez compreender melhor as razões de seu encantamento com o romancista de um livro só (ele publicou outros dois, mas romances, foi o único). Como estamos no mês de setembro prefiro uma citação que introduza o leitor ao livro pelo começo, cujo primeiro tópico é PRIMAVERA…

Setembro respinga asas em nossos olhos, tudo está dentro de alguma coisa que não sabemos onde, os travesseiros se iluminam. Cheiro de voo no ar. Setembro põe polens na barba dos avós. Enluara os pentelhos das nossas mães. Muda de casa nossas irmãs. Os irmãos, sem paradeiro, olham fixo nossos pais, que fumam olorosos cachimbos às oito da noite lendo enciclopédias sobre vedas e obscuros fenícios que devolviam seus remos a Cartago (METZ, 2013, p. 9).

Primavera: estive em São Leopoldo em abril deste ano em um congresso sobre decolonialidade, na UNISSINOS, e passeando pelas livrarias da cidade (encontrei duas) adquiri uma segunda edição do livro de Metz. Vi-o, flertei com o livro e voltei no dia seguinte para buscá-lo; trazer para casa, para o meu convívio. Um primor, como todas as obras da recém-falecida editora Cosac Naify. Agora, inspirado pela leitura de Matheus, volto às páginas do Jacaré para saborear sua erudição mesclada com o linguajar pampeano, trinacional por excelência.

Por excelência, a vertigem provocada pelas construções do jovem poeta cuiabano traz certa simetria ao olhar despretensioso com o qual me dirijo paulatinamente às suas construções. Em meio aos andaimes cabralinos de sua poética, da qual ressurgem fantasmas e espectros variados da cultura ocidental, vou pescando intertextualidades febris que se enamoram discretamente de meus pontos de vista. Li o livro no próprio local do lançamento e metade cheio de primeiras impressões, esvaziei-me do contágio ao dialogar rapidamente com o poeta em face do imprevisível arrebatamento pela referência ao Metz.

Referência ao Metz: para fugir ao clichê de tecer comentários acerca da erudição do uspiano, recolho-me a uma referência que me pareceu implícita e que me lembrou os corredores da faculdade de letras da UFRJ, quando, no final dos anos 1980 pude comercializar livros usados em um mini sebo que funcionou por dois anos naquele local. Convivi com pessoas bastante interessantes, dentre as quais um jovem irrequieto de nome Carlito Azevedo, hoje poeta premiado e dono de erudição invejável para os padrões pequeno-burgueses da cultura nacional.

Cultura nacional: A poesia de Matheus me traz à luz essa referência. E talvez por aí compreenda a importância da referência de Assim na Terra em sua literatura.  Depois da GEOMETRIA QUANDO AINDA HÁ CHÃO, em que os silêncios copiados a lápis de sua poesia rastejam no terreno pantanoso das palavras; da CARTOGRAFIA PROVISÓRIA, em que os mapas da construção poética se misturam dos pés à cabeça com a gênese vocabular de uma escrita palimpsestica, há uma POESIA OUTRA VEZ EM PÂNICO & RETOMADA, de onde surge também a sua primavera, poema em prosa no melhor estilo baudelairiano, que se costura ao ramalhete de infusões com as quais o Jacaré tempera seu caldeirão mítico de referendos: Fellini, Eliot, Mallarmé, Bashô, Kafka, Goethe e Haroldo de Campos, como observa Jerônimo Teixeira, em fragmento decalcado à contracapa da edição da Cosac Naify. Decantam-se os versos de Guménin Barreto, à página 59 de seu belo livro:

pode um homem morrer na primavera? e o grito todo e toda a lágrima e o fio branco e a vida engasgada na garganta de quem fica? o fruto o fruto o fruto da vida engasgado na goela da mãe quando o fruto do seu ventre – cai? (é primavera é primavera é primavera caem os frutos? caem os frutos na primavera? caem caem os frutos?) (BARRETO, 2017, p.59).

Belo livro: vida longa para o autor de a máquina de carregar nadas. Que nos brinde com muitas primaveras e que a gente também viva o suficiente para abrigar em nosso peito o aroma indócil de uma poesia agressiva pela erudição premente e suave pela doçura incompreensível de palavras incontestes. Que há futuro nesse veio, não tenho dúvidas. Que venham outros livros deste faiscamento e que nós, pobres mortais, vivamos o suficiente para abrigar em nossos agadês externos e internos mais arabescos dessa pseudo pós-modernidade tardia que se liquefaz diariamente aos nossos olhos marejados de tanta luz e sombra. É primavera; e os que viverem mais verão!

Os alquimistas estão chegando – Eduardo Mahon – 17.9.2017

*por Eduardo Mahon

17 de setembro de 2017

O poeta Matheus Barreto lançou o segundo livro de poemas. Para mim, uma promessa que se realiza. Sentado à minha frente, 1 ano atrás, ele me explicava as três fases que iria se propor a experimentar no livro. Me confidenciou: haverá páginas em branco, sem ter o que dizer e, depois, uma retomada forte. Fiquei esperando a massa fermentar e, na fila do pão, fui precedido apenas por uma poeta mais ligeira, Lucinda Persona. Vim para casa, li o livro à noite para relê-lo, na manhã seguinte. É que a poesia, como os lobisomens, têm duas formas: uma diurna, racional, cognoscível, organizada, apolínia e outra, noturna, risonha, trôpega, dionisíaca a agradar leitores bêbados de novidades.

Matheus escreve sobre a dissolução e a perenidade, assunto para alquimista. Na primeira parte de “A Máquina de Carregar Nadas”, pela editora 7 Letras, trata de separar os elementos mais preciosas das coisas que ficam entranhadas e com elas se misturam. Talvez por essa razão alquímica, o poema inaugural seja mesmo o “canto de dissolução”, onde o tempo atual no cadinho mágico: “sepultados, enfim,/ no tempo, todos nós.//Onde não há nem feito,/ nem pessoa, /nem voz”. O autor prossegue no ofício da separação: o nome da voz, a voz do homem, o lápis da ideia, o sentimento do peito, o sal do mar, o ser da carne e, por fim, a própria consciência: “Já sabe ele ser? Não sabe/ Se soube, desaprendeu./ Será que um dia o homem/ é só seu?”. A fim de evitar tanto sofrimento nesse processo de decantação, o poeta decreta o esquecimento “e, com o tempo, esquecer-se do tempo”.

A poesia é existencial em Matheus Barreto. Não tem aquela simplicidade do pão amanhecido, do chinelo virado, da salada com nozes. A narrativa, a temática, a estrutura do livro quer pensar o ser por ele mesmo, ir a fundo, mergulhar na essência. Dentro de um “tempo sem tempo” como o escritor faz menção à segunda parte “cartografia provisória”, investiga onde encontrará a própria poesia: na boca, debaixo da pedra, no copo d’água. Para mim, trata-se das etapas da conjunção e da fermentação. É ali que os objetos emanam o que têm de inato. O Matheus sartreano dá espaço ao Matheus platônico, debatendo-se entre a forma e a essência. No poema “Missa de 7º Dia”, por exemplo, ainda há visível o trabalho de depuração. A cama que carregava o morto precisa de limpeza, ar, sol, para que a sombra da morte – e do morto – desgrude-se do objeto.

Nesse paradoxo existencialista e platônico, naturalmente viria a pergunta: e se as coisas não completarem a missão para a qual são feitas? É claro que o poeta vai falar de si: “E o que fazer quando o homem/ de nome emprego identidade/ não sabe se o que olha no espelho/ existe – e, se existe, em que parte?” No ceticismo, Matheus Barreto encerra a segunda parte e começa a terceira, uma literal “retomada”, sem a tradicional estrutura poética, abundando espaços vazios, com perguntas sem respostas, inversões de sentido – “você está com a boca cheia de silêncios”. Páginas e páginas em branco, pautas musicais sem notas, um vazio melancólico de quem foi ao fundo do poço. É a destilação poética. Finalmente, o nosso alquimista volta ao poema e se torna maduro. Aprende que o mar é a gota, a cor é o olho, a poesia é instante. Toma uma resolução “quem tem/ coragem/ de/ falar// quando a fala/ sabe/ que sua única voz/ verdadeira/ é quando cala”.

No fim, Matheus Barreto percebe que eloquência demais violenta a palavra. É preciso dizer pouco e, ainda assim, correr o risco de tudo ser inútil. Aí está a coagulação da palavra! Esse é um livro de um poeta culto (que também quer parecer culto com tantas referências intra e intertextuais), fortemente influenciado pela contemporaneidade de Bertold Brecht, para o qual o desenlace é menos importante do que a ação e o ciclo contínuo é o ator principal da vida. Para onde ir não interessa, o importante é caminhar. Do meu ponto de vista, este segundo livro, muito mais curto, objetivo, refletido do que o primeiro, marca uma maturidade antecipada de um rapaz que ainda não tem a barba cerrada, mas que já se iniciou com os alquimistas das palavras.

 

Entrevista no Diário de Cuiabá – 16.9.2017

*por Enock Cavalcanti
(Fonte: http://www.diariodecuiaba.com.br/detalhe.php?cod=507804 )

16 de setembro de 2017

 

Fruto de um trabalho de cinco anos, o escritor e poeta cuiabano Matheus Guménin Barreto lança em sua cidade natal o livro de poemas “A máquina de carregar nadas”. O lançamento acontece neste sábado, às 19h30, no café-bar Metade Cheio, na rua Comandante Costa, 381, bem no coração de nossa capital.

Matheus atualmente mora em São Paulo, onde faz pós-graduação em tradução de poesia alemã e onde também cursou Letras Português-Alemão, na Universidade de São Paulo (USP). Seus poemas já foram publicados em revistas especializadas no Brasil e em Portugal. Estudou por um ano na Universidade de Heidelberg (Alemanha) e em 2017 foram publicadas traduções suas de Bertolt Brecht e Ingeborg Bachmann. No mesmo ano apresentou em Cuiabá palestra intitulada “5 décadas, 5 poetas” sobre os poetas brasileiros João Cabral de Melo Neto, Ferreira Gullar, Conceição Evaristo, Lucinda Nogueira Persona e Ana Martins Marques.

Via e-mail, o DC ilustrado conversou com o poeta, que explicou como e por que dedica sua vida à poesia.

Diário de Cuiabá: Você tem dedicado sua vida à poesia, seja nos estudos, seja na produção literária. Por que essa opção?

Matheus Guménin Barreto: Não sei bem se essa foi uma opção consciente minha, ou se as coisas simplesmente se encaminharam de um jeito que ‘acabei poeta’. Acredito mais na segunda opção.

Desde cedo tive um interesse enorme por literatura: comecei a ler por prazer já aos 9 anos de idade (livros infantojuvenis, claro), e acho que desde os meus 14 ou 15 anos não termino um livro sem já ter o seguinte à mão. Nos primeiros anos eu lia apenas prosa, e só aos 15 ou 16 comecei a ler poesia. O engraçado é que comecei a escrever poesia quase que na mesma época em que comecei a ler poesia. Lembro-me que tive na escola uma aula sobre Gonçalves Dias: nesse mesmo dia voltei para casa com o ritmo de um dos poemas martelando tão forte na minha cabeça que escrevi meu primeiro poema naquela mesma estrutura rítmica. É claro que esse meu primeiro poema não era lá muito bom, mas assim comecei a escrever poesia.

Além desse fator ‘gosto pela leitura’ há um outro, tão importante quanto o primeiro no meu desenvolvimento como poeta: o fator ‘privilégios sociais’. Foi por causa deles que tive acesso a centenas de livros, tempo livre para treinar a escrita, tempo livre para pensar na escrita. Acho que é importante reconhecermos nossos privilégios para não cairmos naquela velha história da ‘meritocracia’ – que não existe, é claro. Ter privilégios sociais não me fez poeta, mas certamente facilitou o caminho – e não tê-los dificultou o de outras pessoas igualmente capazes.

Nos anos seguintes escrevi demais: algumas publicações; centenas e centenas de poemas por mês, quase todos medianos ou ruins – mas acho que esse processo todo foi muito importante para o desenvolvimento da minha escrita. Hoje estou muito contente com o que escrevo. Costumo dizer que sou meu pior inimigo na escrita: não tenho pena de jogar páginas e páginas no lixo. Acho que é importante ter um olhar crítico em relação à própria obra, saber se desvincular emocionalmente de um texto seu quando se está revisando esse texto.

Venho trabalhando há 5 anos em “A máquina de carregar nadas”, e depois de cortes, cortes e mais cortes cheguei a um resultado que me deixou muito feliz. O lado bom de avaliar duramente seus próprios textos é ter a liberdade e a leveza de se alegrar depois, quando se chega a uma versão final.

D.C.: O título do livro “A máquina de carregar nadas” tem algo de melancólico. É triste a sua poesia ou ela guarda algumas alegres surpresas para seus leitores?

M.G.B.: Não vejo minha poesia como uma poesia triste – assim como não a vejo como alegre. Acho que a poesia (e a arte de modo geral) está num outro lugar, num espaço além do ‘triste’ e do ‘alegre’. Acho que a poesia (pelo menos a que me interessa) tem a função de puxar o tapete, de nos tirar do modo automático, de nos fazer observar o que somos e o que as outras pessoas e coisas são. Então não, eu particularmente não acho que minha poesia seja triste.


D.C.: Poeta com espaço que se amplia pelo Brasil e pelo mundo, qual a importância de lançar seu livro também em Cuiabá?

M.G.B.: Nasci e cresci em Cuiabá, então acabei criando uma relação afetiva com a cidade ou com a imagem que tenho da cidade. E acho que isso cresce com o tempo, esse sentimento em relação ao lugar onde se nasceu. Talvez com o tempo a cidade ‘bote a gente comovido como o diabo’. Seja como for, Cuiabá sempre vai ter um espaço privilegiado na minha cabeça. Aliás, estou há alguns meses escrevendo um poema-livro em torno de Cuiabá.

D.C.: Como é que Cuiabá e Mato Grosso influenciam sua produção literária?

M.G.B.: A presença de Cuiabá na minha escrita cresce com o tempo: nos primeiros anos se percebia pouco ou nada de Cuiabá nos meus poemas; nos últimos dois anos vem ganhando um espaço cada vez maior no que escrevo. Alguns meses atrás publiquei no próprio Diário de Cuiabá um poema chamado “Cuiabá/Chapada dos Guimarães”, que para a minha alegria foi comentado pela grande Lucinda Nogueira Persona. E, como comentei na resposta anterior, venho trabalhando há alguns meses em um poema-livro em torno de Cuiabá.

Acho que morar em outro lugar acaba criando uma relação estranha e interessante entre qualquer pessoa e sua cidade natal. Sempre há alguma coisa a se desenterrar.

D.C.: Depois dos estudos na USP, que caminhos você pretende seguir?

M.G.B.: Acabei de passar pela qualificação de minha dissertação de mestrado, que é sobre tradução de poesia alemã. Quero terminar o mestrado, já fazer o doutorado e depois começar a dar aulas em alguma universidade. Não me vejo trabalhando com outra coisa. Mas nunca se sabe, não é mesmo? Já no campo da poesia, pretendo simplesmente continuar a escrever. O bom da arte é que nunca se alcança aquilo que se quer: a busca é contínua, não há ponto final. Arte é movimento. E isso me enche de alegria.

“O nulo poeta/ema”, de Matheus Guménin Barreto – Caio César Esteves de Souza – 8.9.2017

*por Caio César Esteves de Souza
(Fonte: https://exerciciosdecriticaliteraria.wordpress.com/2017/09/08/o-nulo-poetaema-de-matheus-gumenin-barreto/ )

8 de setembro de 2017

Como disse lá na página Sobre, fiz este blog para escrever alguns exercícios de crítica literária despretensiosos sobre textos que eu tenha lido e achado interessantes por algum motivo. Para dar um pontapé inicial, nada melhor do que discutir um texto recente, ainda fresco e, até onde sei, não visitado por outros críticos literários. Escolhi para isso o poema “O nulo poeta/ema”, de Matheus Guménin Barreto.

O poema foi publicado no livro de reestreia do Matheus, chamado A Máquina de Carregar Nadas, lançado pela 7Letras há mais ou menos um mês. Esse poema abre a terceira parte do livro, intitulada “Poesia outra vez em pânico & retomada”, e não poderia estar em seção mais apropriada. Já na abertura dessa terceira parte, encontramos três epígrafes bastante interessantes, das quais nos interessa principalmente a tirada de Onde Vais, Drama-Poesia, de Maria Gabriela Llansol: “onde as palavras não chegam, ou chegam apenas para violar.”

Como o texto é curto, vou copiá-lo aqui embaixo, antes que eu estrague a experiência de um primeiro contato com ele:

 

O NULO POETA/EMA

quando hutus exterminaram tutsis
quando hutus exterminaram tutsis
quando hutus exterminaram tutsis
quando tutsis exterminaram tutsis
.
e quando o poeta escreve
………………………….[quando tutsis exterminaram tutsis
pecado
pecado
pelo pecado pelo pec-
ado
peca/do
pecado de não saber o que são tutsis
tutsis o que são
o que são tutsis
quem são
hutus
o que
exterminaram
tutsis
e procura onde fica Ruanda
Ruanda¿
e chora de não saber onde fica
onde fica
exterminaram tutsis
Ruanda

– a maioria a golpes de facão.

 

Tenho a impressão de que toda a força desse poema vem do uso da repetição em diversos níveis de leitura. Quando o li pela primeira vez, tive que admitir a minha ignorância já no primeiro – e segundo, e terceiro e, com outra cara, quarto – verso, e parei a leitura para, com alguma vergonha, ir ao Google descobrir quem eram hutus e tutsis. Quando descobri que estavam ligados ao genocídio que ocorreu em Ruanda em 1994, voltei ao texto seguro de que, agora, entenderia as suas referências. O que eu não sabia é que, ao buscar essas referências, tinha me tornado refém do poema.

Do sexto até o penúltimo verso, o poema discute o nosso desconhecimento dessas etnias, que implica o esquecimento de um genocídio que matou cerca de 800 mil pessoas em apenas 100 dias (quase seis pessoas mortas por minuto), e levou cerca de 2 milhões de pessoas a se refugiarem no país vizinho, Zaire – hoje, República Democrática do Congo.

Em uma breve pesquisa, encontrei imagens assustadoras da barbárie que tomou as ruas de Ruanda após o atentado que matou o presidente Juvenal Habyarimana (da etnia hutu, majoritária no país). Sem que uma investigação adequada fosse feita, um grupo político tutsi foi acusado de ter planejado o ataque que derrubou o avião presidencial, e milícias hutus saíram às ruas exterminando qualquer pessoa que pertencesse à etnia tutsi, inclusive idosos e crianças. Muitas vezes, as armas utilizadas eram facões domésticos, que ainda hoje marcam a fisionomia dos sobreviventes […].

A história é horrível, e quanto mais lemos sobre, mais impactante ela se mostra. Diante dessa barbárie, o poeta (criado pelo poema) se abisma com o “pecado” de não saber o que são tutsis, nem quem são hutus, ou onde fica Ruanda. Boa parte do poema se constrói a partir de uma série de versos truncados que repetem expressões bastante típicas de pesquisas online: “tutsis o que são/ o que são tutsis / quem são / hutus”. No entanto, essas perguntas nunca se fecham. É como se antes que a pergunta pudesse ser finalizada – isso é, antes que a interrogação pudesse ser posta – o poeta voltasse atrás, horrorizado com a possibilidade de estar perguntando aquilo, e buscasse se corrigir, emendar o esquecimento. No entanto, esse apagamento não pode ser desfeito e o texto se torna caótico, criando um tipo de fluxo de (in)consciência. A voz que enuncia esse poema tenta se ressignificar constantemente, mas diante do absurdo ético de seu esquecimento, não consegue achar saída que não seja repetir diversas vezes o vazio que busca calar.

Quando o Matheus escolhe utilizar essas perguntas bastante típicas de buscas no Google e em sites afins, ele causa (conscientemente ou não) um efeito muito interessante no seu leitor. É muito provável que, como eu, outros leitores tenham recorrido à internet para descobrir quem são hutus e tutsis. Quando retornamos ao poema, vemos um dedo em riste que nos acusa: “pecado de não saber o que são tutsis”. Essa mão que nos acusa também acusa a si própria e, repetindo as mesmas perguntas que o leitor fez momentos atrás, faz com que a sua fala desesperada e desordenada se transforme em nossas próprias palavras. Já detemos a resposta para as perguntas, mas ainda assim nos vemos condenados a repeti-las junto com o enunciador, sem que possamos fugir desse transe verbal.

A perversidade do poema vem no último verso: ” – a maioria a golpes de facão.”. Pra mim, esse verso tem dois efeitos, em dois planos de leitura. Inicialmente, ele me força a voltar ao poema e relê-lo. Aí, percebo que o facão perpassa todo o texto. Alguns versos são particularmente explícitos, como “pelo pecado pelo pec- / ado”, e “peca/do” (neste último caso, a barra está presente já no verso). No primeiro desses versos, a quebra da sílaba tônica de “pecado” cria um som desagradável que leva o verso a terminar em uma oclusiva surda “pec-“, e que nos força não apenas a ouvir, mas a pronunciar o som de um golpe de facão que põe fim à vida, desmembrando um verso em dois, como se separasse uma cabeça de seu corpo, fazendo-a rolar para o verso seguinte. No segundo, a cisão é menos acentuada, já que não altera a constituição das sílabas, mas nos obriga a fazer uma breve pausa no meio da palavra, e nos força a perceber com desconforto a barbárie que é retratada pelo texto.

Em geral, a repetição nos traz a sensação de acúmulo de sentidos. No caso deste poema, ela nos mostra a falta, o fragmento e a morte. As perguntas, ao se repetirem, não se completam e se encontram sempre em pedaços, esquartejadas. O extermínio, o pecado, Ruanda, hutus e tutsis são produzidos nesse poema em fragmentos. Em outras palavras, o poema reproduz o genocídio sobre o qual fala em sua própria forma. E faz isso de maneira aguda e perversa, que só permite que o leitor perceba o artifício no último verso, quando já foi por ele envolvido.

Em outro plano de leitura, o último verso força o leitor a se identificar ainda mais com o enunciador, ao deixar claro ao fim do verso que o poeta-pecador – que não sabe “o que são tutsis”, e que se mostra em um caos/transe verbal tentando fugir do esquecimento -, na verdade, conhecia de antemão as respostas a todas as perguntas que propôs durante o texto. Da mesma forma, o leitor sabia dessas respostas quando se deixou levar por esse transe verbal que refazia seus passos. O último verso mostra que esse caos é artifício, assim como todo o desespero que ele produz. Nesse verso, a pontuação volta ao normal, a frase se completa, o genocídio é reproduzido com sucesso na forma de todo o poema e o leitor, que se identificou com essa voz durante mais de vinte versos, se olha no espelho e se percebe com sangue nas mãos.

Dá pra falar muitas outras coisas sobre o poema, mas acho que já abusei da paciência dos dois ou três que tiveram ânimo para me ler até aqui. Esse é um dos melhores poemas que li recentemente, e faz parte de um dos melhores (se não o melhor) livros de poesia que li nos últimos anos. Matheus Guménin Barreto é um daqueles poucos que sabem que poesia não é espinha e, portanto, não brota espontaneamente. Ela é construída, com muito trabalho, leituras, releituras e paciência. Por isso ele escreve tão bem. Sem dúvida, é um dos grandes da nossa geração. O seu poema representa de forma muitíssimo eficiente o que estava exposto na epígrafe de Llansol “onde as palavras não chegam, ou chegam apenas para violar.”. Esse poema é um daqueles que apresentam a poesia como agressão e violação do leitor. Nos envolve apenas para, ao fim, nos largar em meio a uma barbárie produzida por nossas próprias mãos. Não há espaço para redenção. Não há perdão para o sangue já derramado. Em suma, é grande poesia.

Quem quiser deixar um feedback (positivou ou não) nos comentários, sinta-se à vontade! Além disso, podem me mandar mensagem na página Contato ou, se preferir, pelo Facebook ou Twitter. Pretendo postar textos deste tipo periodicamente, então esse retorno é importante para saber se este formato de texto funciona em um blog deste tipo. Até mais!

Lições através do vento – Lucinda Nogueira Persona (Diário de Cuiabá) – 8.7.2017

*por Lucinda Nogueira Persona
(Fonte: http://www.diariodecuiaba.com.br/detalhe.php?cod=505392 )

8 de julho de 2017

A paisagem nasce na luz do olhar e representa um desafio à sensibilidade. Algumas vezes (senão todas) causa tamanho fascínio ou inquietação, ao ponto de levar o espírito às mais variadas expressões, principalmente na arte, dentre as quais a poesia responde com absoluta presteza.
É o que se observa no poema “Cuiabá/Chapada dos Guimarães”, de Matheus Guménin Barreto, sendo posto a serviço do leitor. No referido poema, o jovem autor trabalha com comarcas imanentes da existência: a passagem do tempo, os sonhos, as transformações, a morte. Sua visão particular recai sobre um patrimônio natural, um clássico comovente da geomorfologia mato-grossense, aquele que emoldurando o horizonte quando se olha de Cuiabá, traz a ideia de um lugar que não se pode deixar de conhecer.
Trata-se da extensa área de planalto, o relevo da Chapada dos Guimarães, com grandes encostas e escarpas de arenito vermelho, soerguidas a 600 ou 800 metros de altitude. Entretanto, isso ecoa como informação de uma aula um tanto comedida, padronizada. E esta não é a perspectiva do poeta, já nos versos iniciais: “O vento professa à rocha / suas aulas do desfazer-se / de tudo no tempo. O vento / arranca, da rocha, a areia”.
Matheus Guménin nos fala em termos de uma lição mais extensa, prática e fabulosa, na qual o professor é alguém que não para nunca, em milhares de anos de aulas diárias; a aluna é empedernida, conformada em seu torpor mineral e a sala de aula, nada convencional, está a céu aberto, sobre um chão cujo evento geológico mais recente (e que lhe deu a face atual) remonta a 15 milhões de anos. Desse chão emergem rochas varridas pelo vento. E o vento, de onde quer que venha, intenso ou não, dia a dia faz seu trabalho na pedra, que se perde como areia. Assim, a paisagem surge com força impositiva na argamassa do poema, onde as partes de um cenário colossal são evocadas para a tradução de uma experiência vinculada aos efeitos do tempo sobre as coisas e os seres.
Vários elementos podem ser apontados nas considerações de um dado poema, mas aqui, na sólida construção de 15 estrofes de Matheus Guménin, o grato parâmetro é a fração da natureza absorvida pelo olhar. Construindo o poema a partir da desconstrução das rochas pelo vento, o poeta revela um pouco daquilo que pensa, sente e acredita ser o mundo, a vida e a linguagem. Emoção e razão se contrabalançam em suas mãos e a forma adotada faz vislumbrar certa filiação ao universo cabralino. Ao longo do poema, o autor elege e agrega alguns signos (escola, lição, pedra) que nos remetem de algum modo ao “A educação pela pedra” de João Cabral de Melo Neto.
Na elaboração de Matheus Guménin, o sujeito poético se posiciona fora dos eventos que descreve, mas não deixa de estar diante do mundo, diante da vida e de si mesmo, como vítima da experiência. Uma experiência repassada para todos aqueles cujo apetite pelas transcendências seja inesgotável.

Lucinda Nogueira Persona: professora, poeta e membro da Academia Mato-grossense de Letras.

*

Cuiabá/Chapada dos Guimarães
(Matheus Guménin Barreto)

O vento professa à rocha
suas aulas do desfazer-se
de tudo no tempo. O vento
arranca, da rocha, a areia:

de grão em grão faz escola:
a rocha, no ensinamento,
é aluna: na lição dura
de nada durar no tempo.

Os rubros montes de areia
– Chapada dos Guimarães
em torno de Cuiabá –
aprendem suas lições.

Os montes de forma fraca
desfazem-se ante um ditado
do vento: de que o que o homem
ergueu, o que ele escancara,

esconde e derruba o tempo:
que aquilo que o braço monta
o sopro derrubará:
que aquilo que o sonho encontra

e o homem faz realidade
o tempo outra vez o acha
e torna outra vez em sonho
que ninguém mais sonhará.

Paciente labor do vento,
irmão mais novo do tempo,
que esculpe Chapada grão
por grão: apesar de lento,

certeiro é no seu trabalho:
que é muito apesar de pouco,
que é grande mesmo pequeno,
que é muitos trabalhos poucos.

Os montes têm nessa escola
lição de se desfazer:
que o pouco que faz o homem,
que o muito que o homem vê

apaga-se sobre a pedra
do tempo em geometrias
secretas ao despencar:
desfaz qual desfeito é um dia

na barra vermelho-roxa
da tarde, em seu é-não-é.
Aquilo que o homem faz,
aquilo que o homem vê,

aquilo que o homem cala,
aquilo que o homem diz,
aquilo que o homem prende
aquilo que o homem quis

aprende a lição que aprende
o monte, ao se desfazer.
O monte rubro-laranja:
quando ele iria dizer

do tempo o grande segredo,
a resposta que se espera —
despenca em areia branda
pra lá do que já não é.

O vento professa à rocha
suas aulas do desfazer-se
de tudo no tempo. O vento,
de régua em mãos, instrui: tempo.

27/06/2017

 

Uma impressão sobre sete poemas de Matheus Guménin Barreto – Caio César Esteves de Souza – 30.5.2017

*por Caio César Esteves de Souza
[Caio César Esteves de Souza é mestrando na área de Literatura Brasileira da FFLCH-USP, com projeto sobre Alvarenga Peixoto e a poesia árcade luso-brasileira. Também é membro da Modern Language Association (MLA)]

(Fonte: http://www.diariodecuiaba.com.br/detalhe.php?cod=504471 )

30 de maio de 2017

No último dia 29, os entusiastas da poesia tiveram uma ótima surpresa trazida à tona pelo blog lusitano Enfermaria6: a publicação de sete poemas inéditos de Matheus Guménin Barreto, escritor cuiabano já conhecido entre nós por suas traduções de Bachmann e Brecht. Sete poemas que exigem de seu leitor sete, oito ou nove releituras pelo fascínio que o fino trabalho com a linguagem gera naqueles que se dispõem a apreciá-lo.

Os poemas são independentes, como é da natureza de todo poema, ainda que os poetas por vezes desejem que não o sejam; no entanto, estão juntos sob um mesmo título – Sete poemas – que, embora genérico, sugere algumas possibilidades de interpretação do conjunto. Dois me parecem ser os assuntos desses poemas: o tempo e a dissolução. O primeiro texto – “Poema do amado para seu amado” – é um belo exemplo da capacidade que a poesia tem de domar a elasticidade do tempo. Um instante com o amado cria uma nova chave de interpretação do mundo, ressignificando de pedras a astros, em movimento pendular entre noite e dia, silêncio e voz. O poema se encerra com chave-de-ouro, se ainda nos é permitido utilizar essa expressão, com a aguda metáfora do corpo daquele que ama – o próprio enunciador – como eclipse violento, representando em dois versos a mistura de sensações que levou inúmeros poetas lusófonos a derramar rios de tinta desde o fogo que não se vê de Camões.

O segundo e o terceiro poemas – “Canto de Dissolução” e “Se questo è un uomo” – apresentam o tempo como a sepultura última e o arauto do fim inevitável. O “Canto de Dissolução” apresenta uma interessante tensão interna, por ser composto por versos e estrofes regulares e bem martelados ao passo em que veicula uma ideia que se desmancha quando o leitor tenta tocá-la. Essa tensão explode, enfim, na última quadra, dissolvendo-a em dois dísticos que destroem a expectativa de superação da morte anunciada. O terceiro poema, por sua vez, expõe a efemeridade da vida humana e a associa à radical negação de um propósito para a nossa existência: melhor seria ter a Criação sido gasta com pedras rios, prados, bichos, que com homens, que nascem para morrer.

Os sete poemas são então cruzados pelo Rio Lete, que dá nome ao texto que divide o conjunto – “O último poema ou Rio Lete” – de maneira nem um pouco leviana. Esse poema parece expressar o desejo por uma trégua na luta com o tempo; desejo esse que só seria possível se acompanhado pelo mais absoluto esquecimento. O mergulho no Lete é a atitude do afogado que tenta tomar um último fôlego antes de se resignar à sua absoluta incapacidade de se salvar. Não há fuga possível do tempo.

Os dois poemas que se seguem demonstram uma guinada na atitude do poeta. Não sendo possível fugir do tempo, é preciso enfrentá-lo. O quinto poema, sem título, questiona se é lícito ao poeta dedicar-se ao exercício autorreflexivo enquanto a barbárie no país coloca fim à vida – e à possibilidade de vidas – de várias pessoas, concedendo a uma bala o poder de anular o tempo. O sexto, igualmente sem título, demonstra a perplexidade de um “alguém num apartamento de classe média-alta” – segundo nos parece, o próprio enunciador – ao observar a radical divisão (ideológica mas, também, de classe) do país. O poema projeta o tempo presente em uma natureza microscópica de partículas que se agrupam “na dança do ir sendo” e multiplicam tudo o que existiu, existe, existirá ou poderá vir a existir de maneira pródiga. Todos esses elementos, que despencam do colo do tempo, “fulminam” o alguém já mencionado, e dessa fulminação surge o poema.
A circunstância da Pec55 e a perenidade da barbárie no país se apresentam, assim, como dados do tempo com os quais o poeta tenta lidar, mas não consegue. As palavras conseguem dar forma a sentimentos e desejos, mas são incapazes de torná-los efetivos no mundo que circunda o discurso poético. Todas as palavras, os sentimentos e os desejos se mostram inúteis para lidar com o tempo presente. Dessa constatação parece surgir o último poema, que volta a ter um título – “Inútil” –, rompendo com a breve tentativa de enfrentamento dos dois anteriores. Tudo se mostra “inútil soberanamente inútil”.

Assim, Matheus Guménin Barreto deixa seu leitor sem alento, face a face com seu tempo, na inconfortável, mas necessária posição de responder ao que se lhe apresenta. Seus poemas são construídos com artifícios sutis, que trabalham a forma de maneira minuciosa e delicada, para que não sejam notados. Os versos são fluidos, recheados de imagens simples e pontuados por algumas que fogem totalmente da mediania, conduzindo o leitor por um caminho equidistante do tédio da simplicidade exagerada e da afetação inerente a qualquer experimentação vanguardista nos tempos atuais. Os poemas, individuais, têm coerência em conjunto e melhoram a cada releitura, como é natural que aconteça com textos dessa qualidade. Leitura prazerosa e instrutiva, frutos de uma (po)ética consciente de si e de seu tempo, os Sete Poemas de Matheus Guménin Barreto colocam seu autor no mapa dos poetas contemporâneos que merecem nossa atenção.

*

Matheus Guménin Barreto (1992) nasceu em Cuiabá, Brasil. Formou-se em Letras Português-Alemão na Universidade de São Paulo (USP), onde agora é mestrando da área de Língua e Literatura Alemãs na subárea de tradução. Suas traduções de Ingeborg Bachmann foram publicadas em Dito ao anoitecer (2017) e na antologia Lira argenta (2017), e suas traduções de Bertolt Brecht no livro Cântico de Orge (2017). Publica pela Editora 7Letras (RJ) em agosto de 2017 seu livro de poemas A máquina de carregar nadas.

POEMA DO AMADO PARA SEU AMADO

“Penteei-me para o rei
Mas foi ao escravo que dei as tranças do meu cabelo”
– Ana Paula Tavares, Manual para amantes desesperados, 2007.

a)

os dentes
teus amanhecem quando me veem
e compreendo
o inerte ofício das pedras
– plenas completas alegres.

b)

a voz amanhece na tua boca
ilumina: da garganta
ruminando o que não fora dito,
inaudito, e o que se ficou por dizer

pois

a voz amanhece na tua boca
e o contorno do sol posto
fica pregado
fica pregado
nas pálpebras

fechadas de pôr do sol

c)

e tua boca anoitece
quando o silêncio pousa e faz ninho nos teus lábios

até que
então nasce outra vez
o sol
da tua garganta áspera
raia outra vez, já à espera paciente
da hora de se pôr

flor
que anoitece

– e o eclipse do corpo meu
é violento

*

CANTO DE DISSOLUÇÃO

Sepultadas no tempo
deitam-se as coisas todas,
que já nem coisas são,
mas memória de coisas.

Sepultados no tempo
afundam-se os rostos
todos, ou quase todos,
e as datas, risos, gostos.

Sepultadas no tempo
jazem as nossas vidas,
num tempo em que não são
nem gozo nem ferida.

Sepultados, enfim,
no tempo, todos nós.

Onde não há nem feito,
nem pessoa, nem voz.

*

SE QUESTO È UN UOMO

Como é possível
um homem?
Pra quê? Pra que
lhe deram nome?
Que faz o homem?
Se, mal existe,
já some?

Como é possível
haver um homem?
Melhor seria
tivessem gasto
a Criação
em rios, em pedra,
em bicho, em prado,

em homem não.

O homem nasce,
vê, come e morre
já sem perdão.

*

O ÚLTIMO POEMA OU RIO LETE

A cabeça no limbo do tempo.
Descansar já sem rosto e sem nome
e, deitado no córrego insone,
esquecer-se do bicho, do homem
e, com o tempo, esquecer-se do tempo.

*

é lícito um poema onde ecoem passos
de um único homem ou de sua sombra os passos?
é lícito o poema de uns pés descalços, limpos, sobre um
pátio ainda mais? lícito
é que água ainda não convexa de toques nem
de rostos outros espelhados que um só rosto, que essa água
reste?
ecos, passos, sombras, pés descalços, toques?
é lícito que haja? é lícito que haja tão rara palavra:
lícito?

é lícito que haja o que haver em versos
como estes
se os tiroteios furam a pele de uma mãe, de um pai, de um filho e de um que não nasceu e não nascerá num canto escuro qualquer desse país que nem me digno a saber enquanto escrevo um poema sobre escrever um poema sobre um revólver calibre 38 que resolve anular o tempo?

*

as partículas todas
agrupadas ou prestes a
na dança comum do ir sendo
e a
multiplicação
pródiga de tudo o que foi,
é, será ou pode vir a ser
e o cair de tudo isso do colo abarrotado do tempo

fulminam alguém num apartamento de classe média alta no dividido Brasil de PECs 55

*

INÚTIL

Inútil
inútil o gesto o plexo o beijo
inútil o desejo e o não-desejo
[igualmente
Inútil inútil o salto e a pausa
Inútil a mão no ombro alheio
[e próprio

Inútil soberanamente inútil
o gesto o plexo o beijo
nas campinas afiadas de verde
nas geometrias escuras da mente

e essa vontade de amar.

Sete poemas de Matheus Guménin Barreto – Enfermaria 6 / Portugal – 29.5.2017

(Fonte: https://enfermaria6.squarespace.com/blog/2017/5/29/b8aml0efedkr29ew7buu7891sybr03 )

Matheus Guménin Barreto (1992) nasceu em Cuiabá, Brasil. Formou-se em Letras Português-Alemão na Universidade de São Paulo (USP), onde agora é mestrando da área de Língua e Literatura Alemãs na subárea de tradução. Suas traduções de Ingeborg Bachmann foram publicadas em Dito ao anoitecer (2017) e na antologia Lira argenta (2017), e suas traduções de Bertolt Brecht no livro Cântico de Orge (2017). Publica seu livro de poemas no segundo semestre de 2017 pela editora 7Letras.

*

POEMA DO AMADO PARA SEU AMADO

“Penteei-me para o rei
Mas foi ao escravo que dei as tranças do meu cabelo”

– Ana Paula Tavares, Manual para amantes desesperados, 2007.

a)
os dentes
teus amanhecem quando me veem
e compreendo
o inerte ofício das pedras
– plenas completas alegres.

b)
a voz amanhece na tua boca
ilumina: da garganta
ruminando o que não fora dito,
inaudito, e o que se ficou por dizer

pois

a voz amanhece na tua boca
e o contorno do sol posto
fica pregado
fica pregado
nas pálpebras

fechadas de pôr do sol

c)
e tua boca anoitece
quando o silêncio pousa e faz ninho nos teus lábios

até que
então nasce outra vez
o sol
da tua garganta áspera
raia outra vez, já à espera paciente
da hora de se pôr

flor
que anoitece

– e o eclipse do corpo meu
é violento

 


 

CANTO DE DISSOLUÇÃO
Sepultadas no tempo
deitam-se as coisas todas,
que já nem coisas são,
mas memória de coisas.

Sepultados no tempo
afundam-se os rostos
todos, ou quase todos,
e as datas, risos, gostos.

Sepultadas no tempo
jazem as nossas vidas,
num tempo em que não são
nem gozo nem ferida.

Sepultados, enfim,
no tempo, todos nós.

Onde não há nem feito,
nem pessoa, nem voz.

 


 

SE QUESTO È UN UOMO
Como é possível
um homem?
Pra quê? Pra que
lhe deram nome?
Que faz o homem?
Se, mal existe,
já some?

Como é possível
haver um homem?
Melhor seria
tivessem gasto
a Criação
em rios, em pedra,
em bicho, em prado,

em homem não.

O homem nasce,
vê, come e morre
já sem perdão.

 


 

O ÚLTIMO POEMA OU RIO LETE
A cabeça no limbo do tempo.
Descansar já sem rosto e sem nome
e, deitado no córrego insone,
esquecer-se do bicho, do homem
e, com o tempo, esquecer-se do tempo.

 


 

é lícito um poema onde ecoem passos
de um único homem ou de sua sombra os passos?
é lícito o poema de uns pés descalços, limpos, sobre um
pátio ainda mais? lícito
é que água ainda não convexa de toques nem
de rostos outros espelhados que um só rosto, que essa água
reste?
ecos, passos, sombras, pés descalços, toques?
é lícito que haja? é lícito que haja tão rara palavra:
lícito?

é lícito que haja o que haver em versos
como estes
se os tiroteios furam a pele de uma mãe, de um pai, de um filho e de um que não nasceu e não nascerá num canto escuro qualquer desse país que nem me digno a saber enquanto escrevo um poema sobre escrever um poema sobre um revólver calibre 38 que resolve anular o tempo?

 


 

as partículas todas
agrupadas ou prestes a
na dança comum do ir sendo
e a
multiplicação
pródiga de tudo o que foi,
é, será ou pode vir a ser
e o cair de tudo isso do colo abarrotado do tempo

fulminam alguém num apartamento de classe média alta no dividido Brasil de PECs 55

 


 

INÚTIL
Inútil
inútil o gesto o plexo o beijo
inútil o desejo e o não-desejo
[igualmente
Inútil inútil o salto e a pausa
Inútil a mão no ombro alheio
[e próprio
Inútil soberanamente inútil
o gesto o plexo o beijo
nas campinas afiadas de verde
nas geometrias escuras da mente

e essa vontade de amar.

TV de Quinta(L) entrevista Matheus Guménin Barreto – 17.3.2017

*por Carol Marimon/Eduardo Ferreira/João Fincatto/Marcelo Almeida

(Fonte: http://www.cidadaocultura.com.br/tv-de-quintal-entrevista-matheus-gumenin-barreto/)

Vídeo no link acima.

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7 POEMAS DE MATHEUS GUMÉNIN BARRETO

CANTO DE DISSOLUÇÃO

Sepultadas no tempo
deitam-se as coisas todas,
que já nem coisas são,
mas memória de coisas.

Sepultados no tempo
afundam-se os rostos
todos, ou quase todos,
e as datas, risos, gostos.

Sepultadas no tempo
jazem as nossas vidas,
num tempo em que não são
nem gozo nem ferida.

Sepultados, enfim,
no tempo, todos nós.

Onde não há nem feito,
nem pessoa, nem voz.

*

SE QUESTO È UN UOMO

Como é possível
um homem?
Pra quê? Pra que
lhe deram nome?
Que faz o homem?
Se, mal existe,
já some?

Como é possível
haver um homem?
Melhor seria
tivessem gasto
a Criação
em rios, em pedra,
em bicho, em prado,

em homem não.

O homem nasce,
vê, come e morre
já sem perdão.

*

O ÚLTIMO POEMA OU RIO LETE

A cabeça no limbo do tempo.
Descansar já sem rosto e sem nome
e, deitado no córrego insone,
esquecer-se do bicho, do homem
e, com o tempo, esquecer-se do tempo.

*

NESTE TEMPO

Neste tempo de horror
neste tempo
neste tempo sem tempo
de mãos crispadas e inverno nos dentes
de risos que não são
– só o amor que há é o dos bichos
e o das memórias frescas,
recém-cortadas.

*

TUDO ESTÁ POUSADO NOS OBJETOS

Tudo está pousado
já nos objetos.
Batendo pulsando leve
tudo está já nas coisas
à espera do toque
um só
que o abra em flor
e estrume.
A pedra o cão o pássaro
o carro a moto o prédio
[olha olha agora]
tudo
já contém o que resultará
da matemática da poesia
equacionada por um toque.

*

PARA O POEMA DESTA PÁGINA
“Dedicado a Matilde Campilho, que sem saber me ensinou.”

para o poema desta página:
a – abrir a janela mais próxima
b – faltando a janela, criar uma
c – ver: flor. ou muro. ou golfo. ou merda. ou um casal descobrindo o mapa-múndi no corpo um d’outro.
d – repetir os passos anteriores.

*

INÚTIL

Inútil
inútil o gesto o plexo o beijo
inútil o desejo e o não-desejo
[igualmente
Inútil inútil o salto e a pausa
Inútil a mão no ombro alheio
[e próprio

Inútil soberanamente inútil
o gesto o plexo o beijo
nas campinas afiadas de verde
nas geometrias escuras da mente

e essa vontade de amar.

O dia em que conheci o poeta Matheus Guménin Barreto – 26.12.2016

*por Eduardo Ferreira

(Fonte: http://www.cidadaocultura.com.br/o-dia-em-que-conheci-o-poeta-matheus-gumenin-barreto/)

A primeira vez que ouvi falar do Matheus foi através das palavras de uma amiga de minhas filhas que frequentava bastante nossa casa, a Belquise. Ela dizia repetidas vezes: “Tio, você tem que conhecer meu irmão, Matheus, ele é poeta.” Meio desconfiado eu respondia: “Beleza, Belquise, qualquer hora a gente vai se conhecer.”

E o tempo foi passando, volta e meia ela repetia: “Tio, você precisa conhecer meu irmão poeta, o Matheus!”. Certo, Belquise, uma hora a gente vai se conhecer. “Ele publicou um livro!” ,” Ok, Bel, uma hora leio o livro dele, pode me trazer um exemplar?”

O tempo escorre aos nossos olhos como mel derramado, quem não lambeu, não prova mais, já passou. Pensava desconfiado desses poetas jovens que logo querem publicar. Daí, vejo Matheus na mídia. Daí, minha filha, Marianna Marimon, faz uma matéria sobre o trabalho dele. Daí, vejo textos dele nos jornais e a celebração de boas vindas ao jovem poeta. Apresentado como uma explosão de talento, reconhecido e indicado por mestres de literatura, de São Paulo, de Mato Grosso, do Brasil, está aí uma nova poesia que se impõe como das boas novidades na poesia brasileira contemporânea.

“Tio, meu irmão ganhou tal prêmio!” – Cadê o livro que você ficou de trazer, Belquise? Passaram-se alguns anos. Daí, agora, me convidaram para entrevista-lo para a TV de Quinta(L) do site Cidadão Cultura. Ok, vamos lá!

Matheus Guménin Barreto nasceu em Cuiabá, no início dos anos 90. Pai mineiro e mãe de São Paulo. Iniciou seus passos na literatura como leitor voraz, vivia com livros por todos os lados. Leu muito e lê muito, é um estudioso, faz mestrado na USP, tradutor, apaixonado pelas línguas (brinca com o alemão) e pela linguagem poética. De tudo que vi na imprensa acho um clichê o que os sites e jornais repetem à exaustão: “Matheus é o novo Drummond! João Cabral de Mello Neto! Matheus é não sei quem!!??”  Só não vejo ninguém falar do próprio Matheus. Discordo. Matheus é Matheus, é Guménin, é Barreto e ele só pode sê-lo por inteiro. Matheus é um só, com sua sensibilidade e conhecimento delirante. O garoto é bem precoce, falamos sobre a história da arte, da música, da literatura, dos esplendores que pipocam nessa Cuiabá contemporânea, e ele mostrando uma animação que me cativou. Não precisamos esperar as coisas acontecerem , se for esperar, sente-se, espere, ninguém pode saber se vai acontecer. Mas se você se levantar e se mexer, aí sim, você pode fazer as coisas acontecerem, é assim que as coisas acontecem, fazer, fazer mais! Nisso a gente concordou em cheio.

Provoco-o, cito Manoel de Barros e a poesia como um estado de ser da infância da linguagem, ele pega o gancho e vai embora, é preciso dar vazão ao lado infantil, no sentido da instintividade como componente da criação, mas ele é exigente e depois considera e reconsidera, adentra o mundo da racionalidade, trabalha e trabalha e trabalha como um ourives esculpindo joias. É preciso suar, é preciso esforço, cita Ezra Pound. Falamos das múltiplas formas da beleza, não da beleza passiva, que não provoca movimentos, falamos da beleza que provoca, que causa estranheza, e que é preciso educar os sentidos e não descartar aquilo que rompe com os paradigmas, que trazem desconforto intelectual. Cito Stockhousen que foi execrado nas redes sociais ao elaborar frase polêmica e muito mal compreendida em sua dimensão trágica e poética ao exaltar a beleza da explosão de 11 de setembro que derrubou o Templo do capitalismo nos EUA, “a maior obra de arte já realizada”. Falamos da essencialidade da beleza, do caráter inútil da arte, Oscar Wilde, “Toda forma de arte é completamente inútil” e falamos, falamos mais que as bocas.

Fui ficando admirado pela dignidade que mora nesse menino, sua honestidade intelectual, sua segurança ao discorrer sobre a história da arte e da cultura, a consciência lúcida e o jeitão de poeta avoado. Cito Antonio Sodré, falamos de Ricardo Guilherme Dicke, ele fala das potências que estão explodindo por aqui e concordamos, Cuiabá está efervescendo, o caldeirão está em ebulição, isso vai ser visto, isso vai ser falado, tudo aqui está acontecendo de uma forma grandiosa, na música, na literatura, no teatro, no cinema, enfim, somos entusiastas e concordamos que estamos vivenciando um fenômeno cultural vulcânico (penso em um vulcão por debaixo de nossos pés alimentando o fogo do caldeirão cuiabano) com raras precedências.

Falamos da nova literatura brasileira, ele cita Ana Martins Marques, da guerrilha poética que deve ser uma constante para transpor as barreiras culturais, dos novíssimos escritores de Mato Grosso, como Santiago Santos, Odair Moraes, Wuldson Marcelo, das novas publicações, de como tem gente publicando e concordamos que isso é muito bom. Falamos de Wladimir Dias Pino, falamos de Roberto Victório e tantas coisas boas acontecendo por aqui que a gente só vai se dando conta falando, pensando, (se) debatendo, escrevendo sobre isso.

*

CANTO DE DISSOLUÇÃO

Sepultadas no tempo
deitam-se as coisas todas,
que já nem coisas são,
mas memória de coisas.

Sepultados no tempo
afundam-se os rostos
todos, ou quase todos,
e as datas, risos, gostos.

Sepultadas no tempo
jazem as nossas vidas,
num tempo em que não são
nem gozo nem ferida.

Sepultados, enfim,
no tempo, todos nós.

Onde não há nem feito,
nem pessoa, nem voz.

*

SE QUESTO È UN UOMO

Como é possível
um homem?
Pra quê? Pra que
lhe deram nome?
Que faz o homem?
Se, mal existe,
já some?

Como é possível
haver um homem?
Melhor seria
tivessem gasto
a Criação
em rios, em pedra,
em bicho, em prado,

em homem não.

O homem nasce,
vê, come e morre
já sem perdão.

*

O ÚLTIMO POEMA OU RIO LETE

A cabeça no limbo do tempo.
Descansar já sem rosto e sem nome
e, deitado no córrego insone,
esquecer-se do bicho, do homem
e, com o tempo, esquecer-se do tempo.

*

NESTE TEMPO

Neste tempo de horror
neste tempo
neste tempo sem tempo
de mãos crispadas e inverno nos dentes
de risos que não são
– só o amor que há é o dos bichos
e o das memórias frescas,
recém-cortadas.

*

TUDO ESTÁ POUSADO NOS OBJETOS

Tudo está pousado
já nos objetos.
Batendo pulsando leve
tudo está já nas coisas
à espera do toque
um só
que o abra em flor
e estrume.
A pedra o cão o pássaro
o carro a moto o prédio
[olha olha agora]
tudo
já contém o que resultará
da matemática da poesia
equacionada por um toque.

*

PARA O POEMA DESTA PÁGINA
“Dedicado a Matilde Campilho, que sem saber me ensinou.”

para o poema desta página:
a – abrir a janela mais próxima
b – faltando a janela, criar uma
c – ver: flor. ou muro. ou golfo. ou merda. ou um casal descobrindo o mapa-múndi no corpo um d’outro.
d – repetir os passos anteriores.

*

INÚTIL

Inútil
inútil o gesto o plexo o beijo
inútil o desejo e o não-desejo
[igualmente
Inútil inútil o salto e a pausa
Inútil a mão no ombro alheio
[e próprio

Inútil soberanamente inútil
o gesto o plexo o beijo
nas campinas afiadas de verde
nas geometrias escuras da mente

e essa vontade de amar.

Poeta cuiabano é comparado aos grandes e tem espírito universal – 25.11.2016

*por Rodivaldo Ribeiro

(Fonte: http://www.rdnews.com.br/final-de-semana/arte-e-cultura/poeta-cuiabano-e-comparado-aos-grandes-e-tem-espirito-universal/78085)

 

Escavar, perscrutar e investigar o abismo que todo ser humano carrega em si por meio da arte, é isso que artistas devem fazer, disse-me certa vez o poeta Matheus Guménin Barreto.

Disse-me também que talvez, por isso, sua principal matéria de trabalho fosse o homem, mas lembrou haver aí um problema, pois o homem enquanto ser é um tema que não delimita nada, posto que quase tudo pode entrar em tal categoria.

Assim, se apresentava a mim em entrevista um escritor – autor dos volumes de poesia O Cancioneiro dos Ventos (2011), De Volta para o Mundo (2012), É (2013) e de uma nova reunião pronta a ser lançada em 2017, ainda sem título – de voz e estilo bastante particulares, mas de endereço inscrito na montanha eterna formada pelas sílabas, palavras, fraseados, ritmo, conceitos e tudo quanto forma e celebra a língua portuguesa.

Hoje, com 24 anos, aos 19 já cometia coisas como A Borboleta Dourada II// Pra quê ela abriria as asas/ se logo mais não as teria?/ Seria como acostumar-se,/ ver, depois esquecer o dia.// Mas, será que entre a mala pronta/ e a desfeita, nada se apronta/ que valha o trabalho que dá?/ Será que, desfazendo a mala/ ou abrindo as asas pra voar,// não se ganha tudo que ao meio/ borbulha pleno, como um veio?

Mais ou menos três anos depois desse, enquanto se graduava em letras – português-alemão pela Universidade de São Paulo (USP), começava a obter o reconhecimento de gente como Nelson Luís Barbosa, doutor em Letras pelo Departamento de Teoria Literária e Literatura Comparada da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, e Marinaldo Custódio, escritor, professor e mestre em literatura brasileira pela Universidade Federal Fluminense.

Apesar de ser filho de migrantes (mãe paulista e pai mineiro), Matheus nasceu, foi educado e cresceu em Cuiabá. Pelo tipo de não-coincidência do destino, o poeta veio ao mundo no dia da reunificação das Alemanhas, três de outubro de 1992. A primeira vez que se ausentou de seu país foi em 2008, quando passou um mês estudando língua inglesa em Hastings (Inglaterra).

“Fiz graduação na USP, onde hoje desenvolvo minha dissertação de mestrado na área de tradução do alemão. Durante um ano da graduação, morei em Heidelberg (Alemanha) e lá cursei parte do bacharelado em Germanística e Anglística”, conta ao .

De espírito e coração universais como seus textos, tem sede por conhecer os horizontes e sendas de outras línguas.

Foi o que o levou a estudar, nos últimos anos, além de alemão e inglês, francês, chinês, espanhol e italiano. “Ainda quero aprender árabe, russo e ioruba”, diz o poeta, na maior simplicidade, como quem abotoa uma camisa.

Sobre seus primeiros livros, ele parece ter algumas reservas. Em uma pergunta dividida em três, sobre quantos livros havia lançado, desde quando e por que escrevia, ele respondeu:

“Por estranho que pareça, a primeira pergunta é a mais complicada, a segunda nem tanto. Publiquei até 2013 três livros, que resumo da seguinte maneira: um extremamente complicado, um extremamente simples e um terceiro que tentou ser a síntese dos dois, mas que, salvo uma dúzia de poemas, falhou na intenção”, argumenta.

Mas demonstra um rigor consigo mesmo típico de escritores de seu quilate. “Sinceramente, não acho que nenhum deles seja péssimo, mas também sei que nenhum deles é excepcional. Isso significa que não acho que eles valham realmente as horas gastas na leitura, mas também não há nada de desastroso neles”, diz, modesto.

Segue contando que, desde 2013, trabalha num livro já terminado desde setembro de 2015, quando voltou da Alemanha. Detalhe: tudo foi escrito à mão, como é de seu hábito. Esse volume foi estruturado a partir de “11 ou 12 cadernos de anotações, sendo que só digitei por volta de um terço dos poemas manuscritos”.

Ele resolveu então imprimir uma primeira versão, trancada numa gaveta por seis meses. Depois desse período, releu os textos e cortou o número de poemas do livro mais ou menos pela metade.

Trabalhou mais um pouco nessa versão, reescreveu versos ou estrofes, cortou ainda um ou outro poema até que o manuscrito parecesse não ter mais nenhum texto sobrando, nenhum texto que não precisasse estar ali. “Esse é o livro que tenho pronto agora, e depois de levá-lo a meia dúzia de amigos, a uma professora de literatura da USP e a uma grande escritora de Mato Grosso [nota da reportagem: Lucinda Persona], decidi publicá-lo”.

Em meio às opções de editoras disponíveis, ele acaba por revelar muito de si comum a vários escritores –– a renitência com a própria obra. “Esse livro é a única coisa que já criei que me deu a estranha sensação de estar (o livro) à altura dos autores que eu mais admiro (e isso é muito, sabendo que sou meu pior inimigo nessas avaliações). Enfim, é possível que no final do ano que vem ou início do outro o livro esteja nas livrarias”.

Algo só dele, pois para os dois professores especialistas em literatura em língua portuguesa em duas áreas de estudo diferentes mas não tão distintas assim, dada a matéria-prima, Matheus é nada menos que equiparável a Carlos Drummond de Andrade, Vinícius de Moraes, Manuel Bandeira e João Cabral de Melo Neto.

Para Nelson Luís Barbosa, Matheus “já desponta na literatura brasileira como um poeta pronto, um poeta que conhece muito bem seu ofício e que sabe, como poucos hoje, em meio a todos os ruídos contemporâneos, reunir/juntar rumores, sons e palavras, sentimentos e sentidos que interessam à literatura, limpando-os, polindo-os, transmutando-os em verdadeiros poemas, de verdadeira poesia”, escreveu o professor de Teoria Literária e Literatura Comparada da USP.

Nas palavras de Marinaldo Custódio, “já se falou que a obra drummondiana narra preferencialmente a trajetória do homem sobre a Terra. Por outro lado, a ele já se referiram como poeta do indivíduo desajustado, do cotidiano, da existência e do fazer poesia. E que fez poesia tratando de temas tipicamente brasileiros porém com uma pitada de inegável metafísica, portanto universal, remetendo à nossa condição de humanos, à alma humana. É precisamente isto que vejo despontar na poesia do Matheus”, vaticina o escritor.

Um trabalho ao qual Matheus se dedica com esmero sincero desde os 14 anos. O primeiro poema, conta, surgiu depois dele ler O Canto do Guerreiro,  de Gonçalves Dias, e ficar hipnotizado pelo ritmo do texto. E isso apesar de Gonçalves Dias não ser dos seus autores favoritos. “O que faz sentido é o fato de o ritmo do poema ter me chamado atenção: tenho para mim que o ritmo é o aspecto mais importante da poesia, talvez até a coisa que faça a poesia ser poesia”.

“A poesia é para mim
algo como a ferramenta
com a qual posso cavar a
terra, cavar o homem”

Sobre o motivo de escrever o talvez mais negligenciado, na contemporaneidade, dos gêneros literários, ele faz algum charme, mas responde. Ele diz que é uma pergunta tão complicada que acaba ficando simples. “Explico: é tão complicada que já nos faz desistir logo de cara de dar uma resposta completa, tira o peso d’A Resposta Correta dos nossos ombros. Sempre me perguntei: Por que escrevo? E por que escrevo logo poesia? Escrevo para conhecer, para saber, notar. A poesia é para mim algo como a ferramenta com a qual posso cavar a terra, cavar o homem. A poesia por si só não se justifica, pelo menos não para mim (e algumas pessoas podem viver sem se justificarem; eu, não); a poesia é o meio através do qual quero chegar a outro ponto, ao susto da realidade, ao susto daquilo que o homem é”.

E continua dizendo que poesia só se justifica, para ele, como ferramenta. “Acredito quase que com religiosidade (eu, que não tenho religião) que algumas regiões da natureza humana só podem ser acessadas através da arte — tanto pelo criador quanto pelo leitor/ouvinte/espectador/etc. A arte não é descanso, desabafo. A arte é movimento e cansaço constante, enfrentamento. Só acredito na arte que de alguma forma nos puxa o tapete, nos faz notar com surpresa algo em nós, nos outros, nas coisas, nos lugares. Por isso escrevo”.

Não é necessário nenhum grande fecho da reportagem depois do que foi dito, mas ele fez mais, ao presentear os leitores com nada menos que sete poemas inéditos. É só aproveitar.

*

CANTO DE DISSOLUÇÃO

Sepultadas no tempo
deitam-se as coisas todas,
que já nem coisas são,
mas memória de coisas.

Sepultados no tempo
afundam-se os rostos
todos, ou quase todos,
e as datas, risos, gostos.

Sepultadas no tempo
jazem as nossas vidas,
num tempo em que não são
nem gozo nem ferida.

Sepultados, enfim,
no tempo, todos nós.

Onde não há nem feito,
nem pessoa, nem voz.

*

SE QUESTO È UN UOMO

Como é possível
um homem?
Pra quê? Pra que
lhe deram nome?
Que faz o homem?
Se, mal existe,
já some?

Como é possível
haver um homem?
Melhor seria
tivessem gasto
a Criação
em rios, em pedra,
em bicho, em prado,

em homem não.

O homem nasce,
vê, come e morre
já sem perdão.

*

O ÚLTIMO POEMA OU RIO LETE

A cabeça no limbo do tempo.
Descansar já sem rosto e sem nome
e, deitado no córrego insone,
esquecer-se do bicho, do homem
e, com o tempo, esquecer-se do tempo.

*

NESTE TEMPO

Neste tempo de horror
neste tempo
neste tempo sem tempo
de mãos crispadas e inverno nos dentes
de risos que não são
– só o amor que há é o dos bichos
e o das memórias frescas,
recém-cortadas.

*

TUDO ESTÁ POUSADO NOS OBJETOS

Tudo está pousado
já nos objetos.
Batendo pulsando leve
tudo está já nas coisas
à espera do toque
um só
que o abra em flor
e estrume.
A pedra o cão o pássaro
o carro a moto o prédio
[olha olha agora]
tudo
já contém o que resultará
da matemática da poesia
equacionada por um toque.

*

PARA O POEMA DESTA PÁGINA
“Dedicado a Matilde Campilho, que sem saber me ensinou.”

para o poema desta página:
a – abrir a janela mais próxima
b – faltando a janela, criar uma
c – ver: flor. ou muro. ou golfo. ou merda. ou um casal descobrindo o mapa-múndi no corpo um d’outro.
d – repetir os passos anteriores.

*

INÚTIL

Inútil
inútil o gesto o plexo o beijo
inútil o desejo e o não-desejo
[igualmente
Inútil inútil o salto e a pausa
Inútil a mão no ombro alheio
[e próprio

Inútil soberanamente inútil
o gesto o plexo o beijo
nas campinas afiadas de verde
nas geometrias escuras da mente

e essa vontade de amar.

“No legado de Drummond” – Prof. Marinaldo Custódio

*por Prof. Marinaldo Custódio

“Leitura de poemas do jovem Matheus Guménin Barreto faz lembrar o grande poeta mineiro, por sua poética reflexiva abordando as ‘profundezas’”

Sempre achei que fazer crítica literária é coisa demais de demasiado grande para mim. Inclusive na universidade, minhas maiores, excelentes notas nunca foram em Teoria da Literatura tampouco em Linguística. Sempre me dei bem em Literatura propriamente dita, pela fruição do texto literário em si, ou em Língua Portuguesa, pela curtição de poder brincar com o texto em seus multifacetados aspectos: linguístico, semiótico, social, cultural, comunicativo enfim.

Por tudo isso me é tão difícil falar de um jovem poeta, e de sua obra, como me ocorre aqui ao abordar a poesia de Matheus Guménin Barreto. Se me animei a fazê-lo, é óbvio que eu tenho cá minhas razões. E elas se fundam, principalmente, num insight que tive ao ler os primeiros poemas dele, há pouco tempo, quando me ocorreu que ali estava um poeta singularíssimo, “de primeira água” (expressão preferida de outro grande poeta, Ivens Cuiabano Scaff). E que, talvez acima de tudo, porque sua poética (profunda, reflexiva, filosófica) me faz lembrar em muito a de Carlos Drummond de Andrade, aquele a quem chamo, à moda do que fizera Caetano Veloso, simplesmente de “o maior poeta brasileiro de todos os tempos”. (Sei perfeitamente que a academia recomenda muita calma, e fleuma, nessa hora, visto ser demasiado temerário afirmar que um é maior que outro e, ainda mais, que um é o maior de todos – mas o faço, a despeito de tudo).

Não analiso versos; já disse que não sei fazer isto, pois nunca fui bom em Teoria da Literatura. Vejo o conjunto, sinto a totalidade da coisa, o impacto sensorial e emotivo que a coisa causou em mim. Seria, pois, a chamada “análise do conteúdo” isto que a gente costuma fazer, quando na realidade a academia só respeita a “análise da forma”, e até compreendo que tem de ser assim mesmo, a academia está certa neste quesito, do ponto de vista dela, do cânone e coisa e tal.

Mas vamos nós com a nossa prosa. Em matéria especial que publicou na revista ‘Veja’ (“E agora, poesia?”, em 26 de agosto de 1987), logo depois da morte do grande poeta, o jornalista e também escritor Mário Sérgio Conti diz que a poética drummondiana, muito mais que lírica, é de uma profundeza filosófica, existencial por excelência, transitando por entre “o sono rancoroso dos minérios” e aquilo que “pensado foi e logo atinge distância superior ao pensamento”.

E já se falou que a obra drummondiana narra preferencialmente a trajetória do homem sobre a Terra. Por outro lado, a ele já se referiram como “poeta do indivíduo desajustado, do cotidiano, da existência e do fazer poesia”. E que fez poesia tratando de temas tipicamente brasileiros porém com uma pitada de inegável metafísica, portanto universal, remetendo à nossa condição de humanos, à alma humana.

É precisamente isto que vejo despontar na poesia do Matheus. Afirmação temerária, isto eu sei muito bem que é. Mas ouso! O próprio Drummond, sempre tão cioso quanto ao caráter sagrado do fazer poesia, que até pediu num poema “Ah, não me tragam originais para ler, para corrigir, para louvar”, até ele, vejam só, em toda a sua grandeza e olho perspicaz, não louvou também a poesia de um Dante Milano? – “um poeta de extraordinária qualidade”, disse o mineiro certa vez ao ler poemas do colega carioca.

Então, de minha parte, está dito.

É isto.

O canto (MATHEUS GUMÉNIN BARRETO)

[Quisera não nascer homem
ou, melhor, não ter nascido,
se ser é se perder sempre
e nascer é nunca ter sido]

Olhai o galho à janela.
É duro, e de morrer não nasce
e sem nascer e sem morrer deita
[à eternidade
a face.

Olha o gato esquecido de nascer.
Olha o cão olha o peixe olha a ara-
nha.
Esquecidos de nascer
[nascem
e perduram no tempo comprido.

[Quisera não nascer homem
ou, melhor, não ter nascido,
se ser é se perder sempre
e nascer é não ter existido]

Confissão (CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE)

Não amei bastante meu semelhante,
não catei o verme nem curei a sarna.
Só proferi algumas palavras,
melodiosas, tarde, ao voltar da festa.

Dei sem dar e beijei sem beijo.
(Cego é talvez quem esconde os olhos
embaixo do catre.) E na meia-luz
tesouros fanam-se, os mais excelentes.

Do que restou, como compor um homem
e tudo o que ele implica de suave,
de concordâncias vegetais, murmúrios
de riso, entrega, amor e piedade?

Não amei bastante sequer a mim mesmo,
contudo próximo. Não amei ninguém.
Salvo aquele pássaro – vinha azul e doido –
que se esfacelou na asa do avião.

Canção bêbeda (DANTE MILANO)

Estou bêbedo de tristeza,
De doçura, de incerteza,
Estou bêbedo de ilusão,
Estou bêbedo, estou bêbedo,
Bêbedo de cair no chão.

Os que me virem caído
Pensarão que estou ferido.
Alguém dirá: “Foi suicídio!”
“É um bêbedo!” outros dirão.

E ficarei estirado,
Bêbedo, desfigurado.

Talvez eu seja arrastado
Pelas ruas, empurrado,
Jogado numa prisão.

Ninguém perdoa o meu sonho,

Riem da minha tristeza,

Bêbedo, bêbedo, bêbedo,

Em mim, humilhada a glória,
Escarnecida a poesia,

Rasgado o sonho, a ilusão
Sumindo, a emoção doendo.

E ficarei atirado,
Bêbedo, desfigurado.