Um poema rompe o branco – Caio Augusto Leite – 1.10.2017

*por Caio Augusto Leite

(Fonte: http://www.mallarmargens.com/2018/02/caio-augusto-leite-resenha-um-poema-de.html)

1 de outubro de 2017, São Paulo

Em dado momento de seu Água viva, Clarice Lispector escreve “Mas já que se há de escrever, que ao menos não se esmaguem com palavras as entrelinhas”.  A temática, obviamente, não é nova, Mallarmé já radicalizara ao usar a página em branco, esgotando – momentaneamente – a expressão. E falar de Mallarmé aqui é plenamente justificável ao lembrarmos que o poema em questão surge, no livro, depois de uma sequência de páginas também em branco.

Que poema, agora se perguntam os leitores flagrando uma falha nessa tentativa de crítica. É que o próprio texto permite que o crítico jogue com a expressão, usando das mesmas armas para tentar dar conta do que o poema anuncia como eterna insuficiência. É que nunca é possível falar da coisa sem ser abrupto, pois é também assim – abruptamente – que começa o poema “: “e surpreender-se/de/falar”. O uso da conjunção aditiva “e” em letra minúscula promove uma sensação de estranhamento, como se o discurso já estivesse em andamento. Ao olharmos para o livro, veremos que este “e” se conecta com o branco da página ao lado, como se a fala antes em potência (adiada pelas páginas vazias) quebrasse de repente o silêncio insuportável no qual o poeta se instalara.

E o poeta fala, mesmo sabendo que “a gar-/ganta/já se/ intui/ inútil”. E essa fala é ao mesmo tempo voz e silêncio contido, pois através do corpo da palavra que diz é que o poeta também a sufoca ao cortar, simbolicamente, a própria garganta ao meio “gar-/ganta”.

Só agora entra a tópica clariciana apontada no início: “quem quem quem/ Deus/ quem tem coragem de/ de abrir/ a boca/ para ouvir outra coisa que o silêncio/ para ouvir coisa que/ o silêncio diz/ melhor”.  Aqui – e nas seguintes estrofes que contêm a palavra “quem” – instaura-se uma ambiguidade, uma vez que se usa a estrutura interrogativa sem no entanto empregar o ponto de interrogação, tornando essas frases ao mesmo tempo perguntas (intuitivamente) e afirmações (textualmente). A frase pergunta “quem tem coragem[?]” e a frase a si mesma se responde “quem tem coragem” retomando outra passagem de Lispector (de A paixão segundo G.H.): “a explicação de um enigma é a repetição do enigma. O que És? e a resposta é: És”. Ou ainda biblicamente: “quem, Deus?” em “Quem? Deus” – “Eu sou o que sou” responde o Criador a Moisés, não constituindo um pleonasmo e sim uma transformação do verbo “ser” em ação, sendo Deus aquele que continuamente é. O poema é aquele que continuamente permanece sendo o que é: ao mesmo tempo enigma e solução.

E quem tem coragem é este mesmo que pergunta, o próprio poema que rompeu o branco e que  – mesmo sabendo de sua deficiência – insiste em dizer. Não dizendo como uma pessoa fala com outra, pois o poema sabe que o discurso “não há onde se assente/ no ouvido do outro” e por saber disso é que a poesia – enquanto função da linguagem – não almeja dizer algo, mas ser algo. Mas até este “ser” é utópico: “a fala morre/ antes de/ passar/ do porto/ da língua”. Logo, até o poema, que é uma construção artificial, naufraga na busca de ser objeto puro, pois mesmo essa leitura que faço é uma variação daquele sentido íntimo que perpassou a ideia do poeta antes de ele escrevê-la. Palavra escrita, palavra perdida.

Pois é sina da palavra exaurir-se. Esta que é, talvez, a mais humana das invenções, é apenas um traço curto na linha do tempo da existência do Universo. Há muito “antes” sem palavras e muito “depois” que será sem elas. Por isso cada discurso – e mais ainda o artístico, que tem consciência de si – é a encenação de uma quase-tragédia; nesse sentido um poema faria o papel de protagonista e coro, pois avisa acerca do fim de si mesmo. Quase-tragédia, pois ainda há palavras, como esse poema, como esta análise, como o bom-dia que daremos amanhã (daremos?) ao vizinho, que têm força para perfurar o silêncio. Mas o poema não se esquece de que “sua única voz/ verdadeira/ é quando cala”. O poema termina e uma página em branco se derrama até que a viremos e, aliviados, encontramos outras palavras para nos salvar do nada.

Importante lembrar, também, que é o homem, como diz o título desse livro de Matheus Guménin Barreto, uma “máquina de carregar nadas” – e que por mais que usemos palavras para enfeitá-los, escondê-los, eles (os nadas) permanecem em nós mesmo quando já perdemos tudo, inclusive as palavras.

*

O poema de Matheus Guménin Barreto (BARRETO, 2017, p. 83-85):

 

Dedicado a Wlademir Dias-Pinto

e surpreender-se
de
falar

se a gar-
ganta
já se
intui
inútil

quem quem quem
Deus
quem tem coragem de
de abrir
a boca
para ouvir outra coisa que o silêncio
para ouvir coisa que
o silêncio diz
[melhor

quem tem coragem
de
falar
sabendo sabendo
que a fala morre
antes de
passar
do porto
da língua

quem pode quem se lança a
quem tem coragem
de
falar

sabendo que a fala
resvala
e cai na quina do quarto
sem som

quem quem quem
quem
tem coragem de falar
e de ouvir o que
diz

quem então tem coragem
de
falar
quando vê, sabe, escuta
pressente
que o que se sente
não há onde se assente
no ouvido do outro

quem tem
coragem
de
falar

quando a fala
sabe
que sua única voz
verdadeira
é quando cala

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