Cinco poemas do livro “Poemas em torno do chão & Primeiros poemas” e um inédito de Matheus Guménin Barreto – Revista Oficina Irritada – 22.12.2018

(Fonte: https://oficinairritadarevista.blogspot.com/2018/12/poemas-em-torno-do-chao-um-poema.html )

O primeiro poema abaixo é inédito em livro, os demais estão no volume recém-lançado Poemas em torno do chão & Primeiros poemas (Carlini & Caniato, 2018).

***

 

[SEM TÍTULO]
arder a vida em palavras

medidas sombra por
sombra
duma mão noutra arder a vida
na geografia incerta da boca

que arde um instante e desce à terra.

arder a vida nos ecos

e nos corpos ora nacarados ora suados do
discurso que o lábio promete
nem sempre cumpre
e quando cumpre é sempre quase.

equidistante do fim e do início arder a vida

enquanto o corpo se desfaz devagar
com carinho quase
mas resoluto.

arder do verbo absoluto à procura

o verbo na sarça que se queima magnífico
e não existe.

arder a vida pruma bosta qualquer

que mal nasce já não existe ::

– arder a vida à procura dum sol pousado na mesa
dum dia de justiça entre irmãos
e descer à terra ciente – mas contente, resoluto –
de nada ter nas mãos.

*

5. PALMONES, 18XX
a)
cansados talvez os seus olhos
destas palmeiras
cansados
destas paredes brancas nuas gastas
de igreja cansados talvez os seus olhos
de ruminarem sobre os
lampejos de mar e
do labor seu de olhar a Ceuta no horizonte
próxima e distante
cansados talvez tenham se cansado os olhos seus
dos adeuses do mar sobre a areia
– que volta sempre, arrependido.

27-3-2017

*

6. OLEAJE
muro branco
onde os adeuses do mar se recolhem junto à sombra,
salgados e frescos.

27-3-2017

*

CUIABÁ/CHAPADA DOS GUIMARÃES
O vento professa à rocha
suas aulas do desfazer-se
de tudo no tempo. O vento
arranca, da rocha, a areia:

de grão em grão faz escola:
a rocha, no ensinamento,
é aluna: na lição dura
de nada durar no tempo.

Os rubros montes de areia
– Chapada dos Guimarães
em torno de Cuiabá –
aprendem suas lições.

Os montes de forma fraca
desfazem-se ante um ditado
do vento: de que o que o homem
ergueu, o que ele escancara,

esconde e derruba o tempo:
que aquilo que o braço monta
o sopro derrubará:
que aquilo que o sonho encontra

e o homem faz realidade
o tempo outra vez o acha
e torna outra vez em sonho
que ninguém mais sonhará.

Paciente labor do vento,
irmão mais novo do tempo,
que esculpe Chapada grão
por grão: apesar de lento,

certeiro é no seu trabalho:
que é muito apesar de pouco,
que é grande mesmo pequeno,
que é muitos trabalhos poucos.

Os montes têm nessa escola
lição de se desfazer:
que o pouco que faz o homem,
que o muito que o homem vê

apaga-se sobre a pedra
do tempo em geometrias
secretas ao despencar:
desfaz qual desfeito é um dia

na barra vermelho-roxa
da tarde, em seu é-não-é.
Aquilo que o homem faz,
aquilo que o homem vê,

aquilo que o homem cala,
aquilo que o homem diz,
aquilo que o homem prende
aquilo que o homem quis

aprende a lição que aprende
o monte, ao se desfazer.
O monte rubro-laranja:
quando ele iria dizer

do tempo o grande segredo,
a resposta que se espera —
despenca em areia branda
pra lá do que já não é.

O vento professa à rocha
suas aulas do desfazer-se
de tudo no tempo. O vento,
de régua em mãos, instrui: tempo.

27/06/2017

*

B – O SEXO DOS DOIS HOMENS
Na fresco-gruta
(refúgio)
concha do não mar fechada à luz despudorada
dois homens maquinam o presente
no corpo um do
outro
agudo o tempo presente
agudo e branco e musgoso e

então calma e nada –

ah — ir e vir da onda do mar
onda dum mar inexistente
por isso mais mar.

dois homens maquinaram o presente
(na baía um d’outro o maquinaram)
e não sabem agora onde pô-lo,
ariscos.

lá fora no céu rumina o boi um presente outro
comum e outro
alheio à maquinação do amor.

*

[SEM TÍTULO]
Aquilo que me sou não me é nunca.
Pensando o que serei no escasso espaço
de mim, não sei se penso e sou aquilo
ou se, pensando, passa o tempo e passo

– se passo e já não sou o que pensara,
nem o que penso agora e que já passa.
Não sei se algum momento embosco aquele
que vejo ou se descubro-me sua caça.

***

Matheus Guménin Barreto (1992, Cuiabá) é poeta e tradutor mato-grossense. Doutorando da Universidade de São Paulo (USP) na área de Língua e Literatura Alemãs, estudou também na Universidade de Heidelberg. Publicou traduções de Bertolt Brecht e Ingeborg Bachmann. Encontram-se poemas seus no Brasil e em Portugal, e integrou o Printemps Littéraire Brésilien 2018 na França e na Bélgica a convite da Universidade Sorbonne. É autor dos livros de poemas A máquina de carregar nadas (7Letras, 2017) e Poemas em torno do chão & Primeiros poemas (Carlini & Caniato, 2018).

“Um corpo incendiado: este” – Libertinagem: Revista de Literatura e Arte eróticas – 20.12.2018

(Fonte: http://revistalibertinagem.com.br/?fbclid=IwAR2uk81vJfgWpYM3Ak1Pwi6683uj8f7Jivy_gFOUdHuComKPtT-W1pZi0qs )

Excerto f – Um corpo incendiado: este
o amado que toca os pulsos mornos
de seu amado
e o braço e as mãos
tremulargênteas
e o rosto toca e o sexo
quente e afiado
o amado que toca os pulsos mornos
de seu amado
e sabe de repente o que é um ensolarado riso e
a noite antiquíssima que o olha
de volta.

*

o sexo
devir perpétuo: tempo enclausurado
o amado e seu amado inventam tempo,
corpo, febre
e o que medi-los

*

o mapa do corpo sob as mãos
desenhando itinerários bruscos
mornos
contornando bocas que não existem, mas que existirão
pés que não andaram, mas andarão
sexos que não se apontaram
mas que se apontam, agudos, sob o toque
devagar
como o encontro
de um trópico último com um último meridiano

os olhos nublados de algo que não se adivinha

o homem tem o homem nas mãos
e as mãos seguem seu cego itinerário provisório
apagado sempre pelo toque próximo e sombra e esquecimento –
apagado como a praia e o vento que a inaugura.

*

pulsos frescos de amor
alegres do arrear o amor e serem
por ele arreados.

*

a cegueira do homem que de seu corpo morno
soletra o corpo morno d’outro homem
os sinais as vírgulas
discursa entre duas bocas
e recita, extático e nu, a abrasada
violenta
poesia
que o corpo maquina na carne.

*

no beijo
o que há de elástico o que há de contrito
de adivinhado
o que há de inaudito talvez ou
quase ou sempre
entre o dizer de bocas mudas?
talvez tremeluza nos céus seus
mornos
a estrela da manhã
branda e inconstante
e nela se solucione um homem
como uma noite se soluciona em dia.

*

descobrir as palavras eu te amo

pesar na mão cada uma, medir
sua massa numa mão
n’outra
articular a língua os lábios dentes como
pela primeira vez
um homem o fez
um homem o fez a outro homem
testar o que abarca cada letra, o que deixa, o que fala
testar cada som e sombra que acaso fique
nas arestas do a, do e

descobrir as palavras eu te amo
e a violência que é usá-las.

***

Matheus Guménin Barreto (1992, Cuiabá) é poeta, tradutor e doutorando em teoria da tradução (FFLCH-USP). Publicou traduções de Bertolt Brecht e Ingeborg Bachmann. Em 2018 integrou o Printemps Littéraire Brésilien na França e na Bélgica a convite da Universidade Sorbonne. Publicou os livros A máquina de carregar nadas (7Letras, 2017) e Poemas em torno do chão & Primeiros poemas (Carlini & Caniato, 2018).

 

Cinco poemas do livro “Poemas em torno do chão & Primeiros poemas” de Matheus Guménin Barreto – Ruído Manifesto – 7.12.2018

(Fonte: http://ruidomanifesto.org/cinco-poemas-de-matheus-gumenin-barreto/ )

Os cinco poemas abaixo fazem parte do livro Poemas em torno do chão & Primeiros poemas (Carlini & Caniato, 2018), que será lançado em box da editora com outros 9 livros do modernismo e do período contemporâneo mato-grossenses. O lançamento acontece no dia 10/12/2018 na Casa Barão de Melgaço (Cuiabá) às 19h30.

A carta ao final da postagem foi escrita pelo poeta catarinense Marcelo Labes em 26 de abril de 2018 e o artigo sobre o poema “Cuiabá/Chapada dos Guimarães” foi escrito pela poeta Lucinda Nogueira Persona (e originalmente publicado no Diário de Cuiabá no dia 8 de julho de 2017).

***

3. El rumorear
(e entre os muros entre os ramos entre as fontes
por detrás do espelho
-d’água
rumoreja baixinho aquele sangue
derramado
além-mar)

26-3-2017

[da seção “Poemas espanhóis”]

*

6. Oleaje
muro branco
onde os adeuses do mar se recolhem junto à sombra,
salgados e frescos.

27-3-2017

[da seção “Poemas espanhóis”]

*

Cuiabá/Chapada dos Guimarães
O vento professa à rocha
suas aulas do desfazer-se
de tudo no tempo. O vento
arranca, da rocha, a areia:

de grão em grão faz escola:
a rocha, no ensinamento,
é aluna: na lição dura
de nada durar no tempo.

Os rubros montes de areia
– Chapada dos Guimarães
em torno de Cuiabá –
aprendem suas lições.

Os montes de forma fraca
desfazem-se ante um ditado
do vento: de que o que o homem
ergueu, o que ele escancara,

esconde e derruba o tempo:
que aquilo que o braço monta
o sopro derrubará:
que aquilo que o sonho encontra

e o homem faz realidade
o tempo outra vez o acha
e torna outra vez em sonho
que ninguém mais sonhará.

Paciente labor do vento,
irmão mais novo do tempo,
que esculpe Chapada grão
por grão: apesar de lento,

certeiro é no seu trabalho:
que é muito apesar de pouco,
que é grande mesmo pequeno,
que é muitos trabalhos poucos.

Os montes têm nessa escola
lição de se desfazer:
que o pouco que faz o homem,
que o muito que o homem vê

apaga-se sobre a pedra
do tempo em geometrias
secretas ao despencar:
desfaz qual desfeito é um dia

na barra vermelho-roxa
da tarde, em seu é-não-é.
Aquilo que o homem faz,
aquilo que o homem vê,

aquilo que o homem cala,
aquilo que o homem diz,
aquilo que o homem prende
aquilo que o homem quis

aprende a lição que aprende
o monte, ao se desfazer.
O monte rubro-laranja:
quando ele iria dizer

do tempo o grande segredo,
a resposta que se espera —
despenca em areia branda
pra lá do que já não é.

O vento professa à rocha
suas aulas do desfazer-se
de tudo no tempo. O vento,
de régua em mãos, instrui: tempo.

27/06/2017

[da seção de mesmo nome]

*

d – Fora da casa: as ruas de Cuiabá  
Os cacos da luz mastigados
pelo sol
as arestas e as linhas retas e os ângulos
claros
claros como a clara do ovo claros
como a espuma dos mares claros
como a quina do último quarto onde o amor se fará, no último dia do tempo:

cuia-
bá suas forjas visíveis
onde o ferreiro o ferreiro faz suas lâminas de
luz
e as refaz, todos os dias

onde cada aresta é a não-aresta,
a pino,
e o sol come folhas das nossas mãos.

[do poema narrativo homoerótico “Cuiabá”]

*

Desassossego
b)
Dedos que aquecem-se à chama
morna da sarça dos dias,
confusos de si e da chama.
Confusos do que os chama
– que deus ‘inda os chamaria?
Nenhum. E arde o tempo em frente
e ardendo forma-se sempre
da parte de si que ardia.

[da seção “O não chão”]

*

Uma carta

Texto escrito e enviado de Florianópolis pelo poeta Marcelo Labes no dia 26 de abril de 2018.

Neno querido,

tu me colocas numa situação confortável e estranha quando me envias teus poemas. Pedi para que me contextualizasses a fim de eu saber quando e como. E a minha surpresa ao saber que esses poemas do “O não chão” são de agora. Então me explico para te falar de conforto e estranheza.

O conforto surge ao ler um poeta maior. Digo isso porque nós, poetas menores, não só não nos acostumamos à forma como nos limitamos aos conteúdos menores, de poetas menores. Por quê? Ora, certamente porque há um cuidado – e já falei disso antes – no que escrever. Um cuidado cirúrgico, quase. Um olhar minucioso sobre o poema. Uma lapidação que não nos mostra a pedra como veríamos numa vitrine, não. É um formato novo, ainda que antigo: é um formato todo teu, Matheus.

Sobre a estranheza, acho que me alongo.

Vejo isso em “O não chão” como vejo em teus primeiros. Há um conflito latente ali. Não sei se identifico o que me aparece, mas talvez seja um duelo entre uma forma antiga – ou uma recordação de formato – , e uma linguagem que comunica e não esconde nada. Se no chiaroscuro temos as sombras, onde nem tudo é visível e, o que é, muitas vezes é disforme, teus poemas não deixam um lado vazio: eles mostram, pelo contrário, luz e sombra do humano, do sujeito este, de carne e osso, com a alma confusa, como geralmente somos.

A propósito, retorno ao tema do poeta maior. Porque para além da lapidação, há outro olhar (com lupa?, com telescópio?, microscópio?, com o quê?) que nos desnuda a todos pela tua palavra. Ora, que isso se deve ao ofício de poeta. Mas assim, Matheus, assim o ofício se cumpre tão inteiramente que não chega a haver um outro lado do poema. Se nessa intenção barroca, se naquela intenção juvenil de “Primeiros poemas”, tanto faz: há ali um todo espantoso, uma completude alcançada com as palavras e, nelas, com a tua humanidade – que não é a nossa humanidade, é outra coisa, é além – que me faz parar e me diminuir diante de teus poemas.

Sinto-me contemplado. Sinto-me enxergado. Sinto-me desafiado a tratar a língua com mais respeito e destreza.

Se não dissesse ali serem essa a tua juvenília, pensaria ser os poemas de antes de ontem. E são, de certa forma, porque imagino que aí, como aqui, o tempo é um brinquedo com o qual nos divertimos.

Teus poemas são bálsamo. E se já disse isso, repito agora com mais força: teus poemas são bálsamo.

E eu, e nós, humanos sem cura, nós te precisamos.

Beijo grande.

Saudade.

Marcelo

Marcelo Labes: poeta catarinense, autor de Enclave (Editora Patuá, 2018), Trapaça (Oito e Meio, 2016), O filho da empregada (Antítese, Hemisfério Sul, 2016), Porque sim não é resposta (Antítese, Hemisfério Sul, 2015) e Falações (EdiFurb, 2008).

 

 *

 

Lições através do vento

Texto de Lucinda Nogueira Persona publicado no Diário de Cuiabá no dia 8 de julho de 2017 junto ao poema “Cuiabá/Chapada dos Guimarães”.

A paisagem nasce na luz do olhar e representa um desafio à sensibilidade. Algumas vezes (senão todas) causa tamanho fascínio ou inquietação, ao ponto de levar o espírito às mais variadas expressões, principalmente na arte, dentre as quais a poesia responde com absoluta presteza.

É o que se observa no poema “Cuiabá/Chapada dos Guimarães”, de Matheus Guménin Barreto, sendo posto a serviço do leitor. No referido poema, o jovem autor trabalha com comarcas imanentes da existência: a passagem do tempo, os sonhos, as transformações, a morte. Sua visão particular recai sobre um patrimônio natural, um clássico comovente da geomorfologia mato-grossense, aquele que emoldurando o horizonte quando se olha de Cuiabá, traz a ideia de um lugar que não se pode deixar de conhecer.

Trata-se da extensa área de planalto, o relevo da Chapada dos Guimarães, com grandes encostas e escarpas de arenito vermelho, soerguidas a 600 ou 800 metros de altitude. Entretanto, isso ecoa como informação de uma aula um tanto comedida, padronizada. E esta não é a perspectiva do poeta, já nos versos iniciais: “O vento professa à rocha / suas aulas do desfazer-se / de tudo no tempo. O vento / arranca, da rocha, a areia”.

Matheus Guménin nos fala em termos de uma lição mais extensa, prática e fabulosa, na qual o professor é alguém que não para nunca, em milhares de anos de aulas diárias; a aluna é empedernida, conformada em seu torpor mineral e a sala de aula, nada convencional, está a céu aberto, sobre um chão cujo evento geológico mais recente (e que lhe deu a face atual) remonta a 15 milhões de anos. Desse chão emergem rochas varridas pelo vento. E o vento, de onde quer que venha, intenso ou não, dia a dia faz seu trabalho na pedra, que se perde como areia. Assim, a paisagem surge com força impositiva na argamassa do poema, onde as partes de um cenário colossal são evocadas para a tradução de uma experiência vinculada aos efeitos do tempo sobre as coisas e os seres.

Vários elementos podem ser apontados nas considerações de um dado poema, mas aqui, na sólida construção de 15 estrofes de Matheus Guménin, o grato parâmetro é a fração da natureza absorvida pelo olhar. Construindo o poema a partir da desconstrução das rochas pelo vento, o poeta revela um pouco daquilo que pensa, sente e acredita ser o mundo, a vida e a linguagem. Emoção e razão se contrabalançam em suas mãos e a forma adotada faz vislumbrar certa filiação ao universo cabralino. Ao longo do poema, o autor elege e agrega alguns signos (escola, lição, pedra) que nos remetem de algum modo ao “A educação pela pedra” de João Cabral de Melo Neto.

Na elaboração de Matheus Guménin, o sujeito poético se posiciona fora dos eventos que descreve, mas não deixa de estar diante do mundo, diante da vida e de si mesmo, como vítima da experiência. Uma experiência repassada para todos aqueles cujo apetite pelas transcendências seja inesgotável.

Lucinda Nogueira Persona: poeta, ficcionista, cronista, ocupa a cadeira nº 4 da Academia Mato-grossense de Letras. Graduada em Biologia (UFMT), Mestre em Histologia e Embriologia (UFRJ), com estágios profissionais na Universidade do Chile. Professora aposentada (UFMT / UNIC). Livros publicados (Poesia): Por imenso gosto (Massao Ohno, 1995), Ser cotidiano (7Letras, 1998), Sopa Escaldante (7Letras, 2001), Leito de Acaso (7Letras, 2004), Tempo comum (7Letras, 2009), Entre uma noite e outra (Entrelinhas, 2014).

Quatro poemas do livro “A máquina de carregar nadas” de Matheus Guménin Barreto – Revista Primata – 22.11.2018

(Fonte: http://www.poesiaprimata.com/matheus-gumenin-barreto/matheus-gumenin-barreto-a-maquina-de-carregar-nadas-2017/ )

 

Matheus Guménin Barreto (1992, Cuiabá) é poeta, tradutor e doutorando em teoria da tradução (FFLCH-USP). Publicou traduções de Bertolt Brecht e Ingeborg Bachmann. Em 2018 integrou o Printemps Littéraire Brésilien na França e na Bélgica a convite da Universidade Sorbonne. Publicou os livros A máquina de carregar nadas (7Letras, 2017) e Poemas em torno do chão & Primeiros poemas (Carlini & Caniato, 2018).

Os poemas a seguir foram selecionados do livro A máquina de carregar nadas (7Letras, 2017).

 

*

 

PRIMEIRO

O toque mesmo nas coisas
para lembrar as mãos da
arquitetura limpa daquilo
que o mundo gestou.

A mão limpa, cartesiana, reta
pelas coisas
para tirar o pó sobre os nomes

sol, xícara, casca, ladrilho, pêssego, miséria

e tocar outra vez
como no Dia Primeiro
algo dos nomes
que vibre.

 

 

CANTO DE DISSOLUÇÃO

Sepultadas no tempo
deitam-se as coisas todas,
que já nem coisas são,
mas memória de coisas.

Sepultados no tempo
afundam-se os rostos
todos, ou quase todos,
e as datas, risos, gostos.

Sepultadas no tempo
jazem as nossas vidas,
num tempo em que não são
nem gozo nem ferida.

Sepultados, enfim,
no tempo, todos nós.

Onde não há nem feito,
nem pessoa, nem voz.

 

 

POEMA DO AMADO PARA SEU AMADO

“Penteei-me para o rei
Mas foi ao escravo que dei as tranças do meu cabelo”
– Ana Paula Tavares, Manual para amantes desesperados, 2007.

 

a)
os dentes
teus amanhecem quando me veem
e compreendo
o inerte ofício das pedras
– plenas completas alegres.

 

b)
a voz amanhece na tua boca
ilumina: da garganta
ruminando o que não fora dito,
inaudito, e o que se ficou por dizer

pois

a voz amanhece na tua boca
e o contorno do sol posto
fica pregado
fica pregado
nas pálpebras

fechadas de pôr do sol

 

c)
e tua boca anoitece
quando o silêncio pousa e faz ninho nos teus lábios

até que
então nasce outra vez
o sol
da tua garganta áspera
raia outra vez, já à espera paciente
da hora de se pôr

flor
que anoitece

– e o eclipse do corpo meu
é violento

 

 

INÚTIL

Inútil
inútil o gesto o plexo o beijo
inútil o desejo e o não-desejo
[igualmente
Inútil inútil o salto e a pausa
Inútil a mão no ombro alheio
[e próprio

Inútil soberanamente inútil
o gesto o plexo o beijo
nas campinas afiadas de verde
nas geometrias escuras da mente

e essa vontade de amar.