Cinco poemas inéditos de Matheus Guménin Barreto – Escriva (PUC-RS): Revista da Pós-graduação em Escrita Criativa – 8.12.2017

(Fonte: http://www.revistaescriva.com/cinco-poemas.html )

8 de dezembro de 2017

bicho das tesas patas
alertas
tentando equacionar na matemática da narina
o que é perigo o que não
alertas
os olhos alertas as
patas
alerta ele todo e aceso
queimando entre as vértebras e os músculos
o que é.*

a cegueira do homem que de seu corpo morno
soletra o corpo morno d’outro homem
os sinais as vírgulas
discursa entre duas bocas
e recita, extático e nu, a abrasada
violenta
poesia
que o corpo maquina na carne.

*

o amado que toca os pulsos mornos
de seu amado
e o braço e as mãos
tremulargênteas
e o rosto toca e o sexo
quente e afiado
o amado que toca os pulsos mornos
de seu amado
e sabe de repente o que é um ensolarado riso e
a noite antiquíssima que o olha
de volta.

*

mãos que levantaram-se e caíram
no fluir inadiável do tempo
e dia por dia ano por ano escavaram o tempo
até aqui chegarem
a estas minhas mãos morenas sob este céu transparente
sobre este teclado

mãos que levantaram-se e caíram
nos afazeres
e no fazer do tempo
que ele é por elas feito e elas por ele
engolidas

o trabalho comum que é o tempo
esta conta de vidro
mão por mão gesto por gesto
feito e abandonado como as ondas consecutivas na praia
como o fio que se tece só em parte
tempo

– minhas mãos aquelas também
sob estas.

*

fiapo sequer que escape ao absurdo
que se apresente.


Matheus Guménin Barreto (1992) nasceu em Cuiabá, Brasil. Formou-se em Letras Português-Alemão na Universidade de São Paulo (USP), onde agora é mestrando da área de Língua e Literatura Alemãs na subárea de tradução. Suas traduções de Ingeborg Bachmann foram publicadas em “Dito ao anoitecer” (2017) e na antologia “Lira argenta” (2017), e suas traduções de Bertolt Brecht no livro “Cântico de Orge” (2017). Publica em agosto de 2017 pela Editora 7Letras seu livro de poemas “A máquina de carregar nadas”.
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A variedade poética em “A máquina de carregar nadas” – Leonardo Antunes – 4.12.2017

*por Leonardo Antunes, poeta, tradutor e professor de Língua e Literatura Gregas na UFRGS

4 de dezembro de 2017

Matheus Guménin Barreto (Cuiabá, 1992), mestrando em Letras pela USP e tradutor de Brecht e Bachmann, acaba de lançar seu quarto livro de poemas, a máquina de carregar nadas (7Letras, 2017), em que nos apresenta um admirável portfólio poético, testemunho de sensibilidade e variegada técnica no trato com a linguagem.

O livro se estrutura em três partes, constituindo um percurso estilístico que se inicia com uma estética clássica, passa por uma poética modernista e termina com exercícios de vanguarda contemporânea. Nesse percurso, passamos de uma subjetividade autocentrada que se desloca, na segunda parte, para um contato com o outro e com o horror que há no mundo. Disso, resulta uma crise, localizada na terceira parte e manifesta num esfacelamento da própria forma poética, que, logo depois, tenta se reestruturar em uma linguagem estética para nossos dias.

Da primeira parte do livro, note-se o poema abaixo, “CANTO APAZIGUADO”:

O que sobra das mãos são as sombras dos gestos
que, já feitos, nos jazem nas mãos sepultados.

O que sobra de olhares: o breve relance
que, de breve, se perde entre o feito e o lembrado.

O que resta de risos são luzes de dentes
entrevistos por entre a cortina do lábio.

O que resta da vida é a vida que fica
e ficando é que parte ao eterno adiado.

O processo notado acima, de buscar o essencial da experiência de mundo, é um dos motes principais do livro de Barreto. Esse tópos atinge sua maturação na segunda parte do livro, como se percebe no poema “PRIMEIRO”, reproduzido a seguir:

O toque mesmo nas coisas
para lembrar as mãos da
arquitetura limpa daquilo
que o mundo gestou.

A mão limpa, cartesiana, reta
pelas coisas
para tirar o pó sobre os nomes

sol, xícara, casca, ladrilho, pêssego, miséria

e tocar outra vez
como no Dia Primeiro
algo dos nomes
que vibre.

Esse segundo movimento, da parte central do livro, a meu ver é o mais maduro dos três. Ali, encontram-se alguns dos poemas mais interessantes do livro, como essa variação de um tema clássico da poética grega (“Para os terrestres, de tudo, o melhor é jamais ter nascido”, v. 425 do Corpus Thegonideum), no poema “O CANTO”, a partir de uma estética modernista:

[Quisera não nascer homem
ou, melhor, não ter nascido,
se ser é se perder sempre
e nascer é nunca ter sido]

Olhai o galho à janela.
É duro e de morrer não nasce
e sem nascer e sem morrer deita
[à eternidade
a face.

Olha o gato esquecido de nascer.
Olha o cão olha o peixe olha a ara-
nha.
Esquecidos de nascer
[nascem
e perduram no tempo comprido.

Quisera não nascer homem
[ou, melhor, não ter nascido,
se ser é se perder sempre
e nascer é não ter existido]

A terceira parte do livro, por sua vez, traz poemas bastante experimentais, como um que se resume a pautas musicais com uma grave nota “Sol” repetida por algumas páginas, como resultado do esfacelamento da linguagem durante o percurso de contato do eu com o mundo.

No todo, perdura no livro de Barreto uma extrema sensibilidade em lidar com as coisas cotidianas e delas extrair uma experiência que nos move. Mesmo em poemas minimalistas, como são muitos dos da terceira parte, o poeta é capaz de prender nossa atenção com alguma imagem construída com concisa precisão, como a do poema abaixo, sem título:

raia a navalha do sol
límpida, ascética, dura

Com a apresentação dessa variedade de estilos e tendências, todas perpassadas por uma voz de arguta sensibilidade, Barreto demonstra maturidade poética, deixando-nos com a certeza de que possui amplitude técnica para produzir poesia de alta complexidade formal em qualquer estilo em que decidir se experimentar.