O dia em que conheci o poeta Matheus Guménin Barreto – 26.12.2016

*por Eduardo Ferreira

(Fonte: http://www.cidadaocultura.com.br/o-dia-em-que-conheci-o-poeta-matheus-gumenin-barreto/)

A primeira vez que ouvi falar do Matheus foi através das palavras de uma amiga de minhas filhas que frequentava bastante nossa casa, a Belquise. Ela dizia repetidas vezes: “Tio, você tem que conhecer meu irmão, Matheus, ele é poeta.” Meio desconfiado eu respondia: “Beleza, Belquise, qualquer hora a gente vai se conhecer.”

E o tempo foi passando, volta e meia ela repetia: “Tio, você precisa conhecer meu irmão poeta, o Matheus!”. Certo, Belquise, uma hora a gente vai se conhecer. “Ele publicou um livro!” ,” Ok, Bel, uma hora leio o livro dele, pode me trazer um exemplar?”

O tempo escorre aos nossos olhos como mel derramado, quem não lambeu, não prova mais, já passou. Pensava desconfiado desses poetas jovens que logo querem publicar. Daí, vejo Matheus na mídia. Daí, minha filha, Marianna Marimon, faz uma matéria sobre o trabalho dele. Daí, vejo textos dele nos jornais e a celebração de boas vindas ao jovem poeta. Apresentado como uma explosão de talento, reconhecido e indicado por mestres de literatura, de São Paulo, de Mato Grosso, do Brasil, está aí uma nova poesia que se impõe como das boas novidades na poesia brasileira contemporânea.

“Tio, meu irmão ganhou tal prêmio!” – Cadê o livro que você ficou de trazer, Belquise? Passaram-se alguns anos. Daí, agora, me convidaram para entrevista-lo para a TV de Quinta(L) do site Cidadão Cultura. Ok, vamos lá!

Matheus Guménin Barreto nasceu em Cuiabá, no início dos anos 90. Pai mineiro e mãe de São Paulo. Iniciou seus passos na literatura como leitor voraz, vivia com livros por todos os lados. Leu muito e lê muito, é um estudioso, faz mestrado na USP, tradutor, apaixonado pelas línguas (brinca com o alemão) e pela linguagem poética. De tudo que vi na imprensa acho um clichê o que os sites e jornais repetem à exaustão: “Matheus é o novo Drummond! João Cabral de Mello Neto! Matheus é não sei quem!!??”  Só não vejo ninguém falar do próprio Matheus. Discordo. Matheus é Matheus, é Guménin, é Barreto e ele só pode sê-lo por inteiro. Matheus é um só, com sua sensibilidade e conhecimento delirante. O garoto é bem precoce, falamos sobre a história da arte, da música, da literatura, dos esplendores que pipocam nessa Cuiabá contemporânea, e ele mostrando uma animação que me cativou. Não precisamos esperar as coisas acontecerem , se for esperar, sente-se, espere, ninguém pode saber se vai acontecer. Mas se você se levantar e se mexer, aí sim, você pode fazer as coisas acontecerem, é assim que as coisas acontecem, fazer, fazer mais! Nisso a gente concordou em cheio.

Provoco-o, cito Manoel de Barros e a poesia como um estado de ser da infância da linguagem, ele pega o gancho e vai embora, é preciso dar vazão ao lado infantil, no sentido da instintividade como componente da criação, mas ele é exigente e depois considera e reconsidera, adentra o mundo da racionalidade, trabalha e trabalha e trabalha como um ourives esculpindo joias. É preciso suar, é preciso esforço, cita Ezra Pound. Falamos das múltiplas formas da beleza, não da beleza passiva, que não provoca movimentos, falamos da beleza que provoca, que causa estranheza, e que é preciso educar os sentidos e não descartar aquilo que rompe com os paradigmas, que trazem desconforto intelectual. Cito Stockhousen que foi execrado nas redes sociais ao elaborar frase polêmica e muito mal compreendida em sua dimensão trágica e poética ao exaltar a beleza da explosão de 11 de setembro que derrubou o Templo do capitalismo nos EUA, “a maior obra de arte já realizada”. Falamos da essencialidade da beleza, do caráter inútil da arte, Oscar Wilde, “Toda forma de arte é completamente inútil” e falamos, falamos mais que as bocas.

Fui ficando admirado pela dignidade que mora nesse menino, sua honestidade intelectual, sua segurança ao discorrer sobre a história da arte e da cultura, a consciência lúcida e o jeitão de poeta avoado. Cito Antonio Sodré, falamos de Ricardo Guilherme Dicke, ele fala das potências que estão explodindo por aqui e concordamos, Cuiabá está efervescendo, o caldeirão está em ebulição, isso vai ser visto, isso vai ser falado, tudo aqui está acontecendo de uma forma grandiosa, na música, na literatura, no teatro, no cinema, enfim, somos entusiastas e concordamos que estamos vivenciando um fenômeno cultural vulcânico (penso em um vulcão por debaixo de nossos pés alimentando o fogo do caldeirão cuiabano) com raras precedências.

Falamos da nova literatura brasileira, ele cita Ana Martins Marques, da guerrilha poética que deve ser uma constante para transpor as barreiras culturais, dos novíssimos escritores de Mato Grosso, como Santiago Santos, Odair Moraes, Wuldson Marcelo, das novas publicações, de como tem gente publicando e concordamos que isso é muito bom. Falamos de Wladimir Dias Pino, falamos de Roberto Victório e tantas coisas boas acontecendo por aqui que a gente só vai se dando conta falando, pensando, (se) debatendo, escrevendo sobre isso.

*

CANTO DE DISSOLUÇÃO

Sepultadas no tempo
deitam-se as coisas todas,
que já nem coisas são,
mas memória de coisas.

Sepultados no tempo
afundam-se os rostos
todos, ou quase todos,
e as datas, risos, gostos.

Sepultadas no tempo
jazem as nossas vidas,
num tempo em que não são
nem gozo nem ferida.

Sepultados, enfim,
no tempo, todos nós.

Onde não há nem feito,
nem pessoa, nem voz.

*

SE QUESTO È UN UOMO

Como é possível
um homem?
Pra quê? Pra que
lhe deram nome?
Que faz o homem?
Se, mal existe,
já some?

Como é possível
haver um homem?
Melhor seria
tivessem gasto
a Criação
em rios, em pedra,
em bicho, em prado,

em homem não.

O homem nasce,
vê, come e morre
já sem perdão.

*

O ÚLTIMO POEMA OU RIO LETE

A cabeça no limbo do tempo.
Descansar já sem rosto e sem nome
e, deitado no córrego insone,
esquecer-se do bicho, do homem
e, com o tempo, esquecer-se do tempo.

*

NESTE TEMPO

Neste tempo de horror
neste tempo
neste tempo sem tempo
de mãos crispadas e inverno nos dentes
de risos que não são
– só o amor que há é o dos bichos
e o das memórias frescas,
recém-cortadas.

*

TUDO ESTÁ POUSADO NOS OBJETOS

Tudo está pousado
já nos objetos.
Batendo pulsando leve
tudo está já nas coisas
à espera do toque
um só
que o abra em flor
e estrume.
A pedra o cão o pássaro
o carro a moto o prédio
[olha olha agora]
tudo
já contém o que resultará
da matemática da poesia
equacionada por um toque.

*

PARA O POEMA DESTA PÁGINA
“Dedicado a Matilde Campilho, que sem saber me ensinou.”

para o poema desta página:
a – abrir a janela mais próxima
b – faltando a janela, criar uma
c – ver: flor. ou muro. ou golfo. ou merda. ou um casal descobrindo o mapa-múndi no corpo um d’outro.
d – repetir os passos anteriores.

*

INÚTIL

Inútil
inútil o gesto o plexo o beijo
inútil o desejo e o não-desejo
[igualmente
Inútil inútil o salto e a pausa
Inútil a mão no ombro alheio
[e próprio

Inútil soberanamente inútil
o gesto o plexo o beijo
nas campinas afiadas de verde
nas geometrias escuras da mente

e essa vontade de amar.

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Poeta cuiabano é comparado aos grandes e tem espírito universal – 25.11.2016

*por Rodivaldo Ribeiro

(Fonte: http://www.rdnews.com.br/final-de-semana/arte-e-cultura/poeta-cuiabano-e-comparado-aos-grandes-e-tem-espirito-universal/78085)

 

Escavar, perscrutar e investigar o abismo que todo ser humano carrega em si por meio da arte, é isso que artistas devem fazer, disse-me certa vez o poeta Matheus Guménin Barreto.

Disse-me também que talvez, por isso, sua principal matéria de trabalho fosse o homem, mas lembrou haver aí um problema, pois o homem enquanto ser é um tema que não delimita nada, posto que quase tudo pode entrar em tal categoria.

Assim, se apresentava a mim em entrevista um escritor – autor dos volumes de poesia O Cancioneiro dos Ventos (2011), De Volta para o Mundo (2012), É (2013) e de uma nova reunião pronta a ser lançada em 2017, ainda sem título – de voz e estilo bastante particulares, mas de endereço inscrito na montanha eterna formada pelas sílabas, palavras, fraseados, ritmo, conceitos e tudo quanto forma e celebra a língua portuguesa.

Hoje, com 24 anos, aos 19 já cometia coisas como A Borboleta Dourada II// Pra quê ela abriria as asas/ se logo mais não as teria?/ Seria como acostumar-se,/ ver, depois esquecer o dia.// Mas, será que entre a mala pronta/ e a desfeita, nada se apronta/ que valha o trabalho que dá?/ Será que, desfazendo a mala/ ou abrindo as asas pra voar,// não se ganha tudo que ao meio/ borbulha pleno, como um veio?

Mais ou menos três anos depois desse, enquanto se graduava em letras – português-alemão pela Universidade de São Paulo (USP), começava a obter o reconhecimento de gente como Nelson Luís Barbosa, doutor em Letras pelo Departamento de Teoria Literária e Literatura Comparada da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, e Marinaldo Custódio, escritor, professor e mestre em literatura brasileira pela Universidade Federal Fluminense.

Apesar de ser filho de migrantes (mãe paulista e pai mineiro), Matheus nasceu, foi educado e cresceu em Cuiabá. Pelo tipo de não-coincidência do destino, o poeta veio ao mundo no dia da reunificação das Alemanhas, três de outubro de 1992. A primeira vez que se ausentou de seu país foi em 2008, quando passou um mês estudando língua inglesa em Hastings (Inglaterra).

“Fiz graduação na USP, onde hoje desenvolvo minha dissertação de mestrado na área de tradução do alemão. Durante um ano da graduação, morei em Heidelberg (Alemanha) e lá cursei parte do bacharelado em Germanística e Anglística”, conta ao .

De espírito e coração universais como seus textos, tem sede por conhecer os horizontes e sendas de outras línguas.

Foi o que o levou a estudar, nos últimos anos, além de alemão e inglês, francês, chinês, espanhol e italiano. “Ainda quero aprender árabe, russo e ioruba”, diz o poeta, na maior simplicidade, como quem abotoa uma camisa.

Sobre seus primeiros livros, ele parece ter algumas reservas. Em uma pergunta dividida em três, sobre quantos livros havia lançado, desde quando e por que escrevia, ele respondeu:

“Por estranho que pareça, a primeira pergunta é a mais complicada, a segunda nem tanto. Publiquei até 2013 três livros, que resumo da seguinte maneira: um extremamente complicado, um extremamente simples e um terceiro que tentou ser a síntese dos dois, mas que, salvo uma dúzia de poemas, falhou na intenção”, argumenta.

Mas demonstra um rigor consigo mesmo típico de escritores de seu quilate. “Sinceramente, não acho que nenhum deles seja péssimo, mas também sei que nenhum deles é excepcional. Isso significa que não acho que eles valham realmente as horas gastas na leitura, mas também não há nada de desastroso neles”, diz, modesto.

Segue contando que, desde 2013, trabalha num livro já terminado desde setembro de 2015, quando voltou da Alemanha. Detalhe: tudo foi escrito à mão, como é de seu hábito. Esse volume foi estruturado a partir de “11 ou 12 cadernos de anotações, sendo que só digitei por volta de um terço dos poemas manuscritos”.

Ele resolveu então imprimir uma primeira versão, trancada numa gaveta por seis meses. Depois desse período, releu os textos e cortou o número de poemas do livro mais ou menos pela metade.

Trabalhou mais um pouco nessa versão, reescreveu versos ou estrofes, cortou ainda um ou outro poema até que o manuscrito parecesse não ter mais nenhum texto sobrando, nenhum texto que não precisasse estar ali. “Esse é o livro que tenho pronto agora, e depois de levá-lo a meia dúzia de amigos, a uma professora de literatura da USP e a uma grande escritora de Mato Grosso [nota da reportagem: Lucinda Persona], decidi publicá-lo”.

Em meio às opções de editoras disponíveis, ele acaba por revelar muito de si comum a vários escritores –– a renitência com a própria obra. “Esse livro é a única coisa que já criei que me deu a estranha sensação de estar (o livro) à altura dos autores que eu mais admiro (e isso é muito, sabendo que sou meu pior inimigo nessas avaliações). Enfim, é possível que no final do ano que vem ou início do outro o livro esteja nas livrarias”.

Algo só dele, pois para os dois professores especialistas em literatura em língua portuguesa em duas áreas de estudo diferentes mas não tão distintas assim, dada a matéria-prima, Matheus é nada menos que equiparável a Carlos Drummond de Andrade, Vinícius de Moraes, Manuel Bandeira e João Cabral de Melo Neto.

Para Nelson Luís Barbosa, Matheus “já desponta na literatura brasileira como um poeta pronto, um poeta que conhece muito bem seu ofício e que sabe, como poucos hoje, em meio a todos os ruídos contemporâneos, reunir/juntar rumores, sons e palavras, sentimentos e sentidos que interessam à literatura, limpando-os, polindo-os, transmutando-os em verdadeiros poemas, de verdadeira poesia”, escreveu o professor de Teoria Literária e Literatura Comparada da USP.

Nas palavras de Marinaldo Custódio, “já se falou que a obra drummondiana narra preferencialmente a trajetória do homem sobre a Terra. Por outro lado, a ele já se referiram como poeta do indivíduo desajustado, do cotidiano, da existência e do fazer poesia. E que fez poesia tratando de temas tipicamente brasileiros porém com uma pitada de inegável metafísica, portanto universal, remetendo à nossa condição de humanos, à alma humana. É precisamente isto que vejo despontar na poesia do Matheus”, vaticina o escritor.

Um trabalho ao qual Matheus se dedica com esmero sincero desde os 14 anos. O primeiro poema, conta, surgiu depois dele ler O Canto do Guerreiro,  de Gonçalves Dias, e ficar hipnotizado pelo ritmo do texto. E isso apesar de Gonçalves Dias não ser dos seus autores favoritos. “O que faz sentido é o fato de o ritmo do poema ter me chamado atenção: tenho para mim que o ritmo é o aspecto mais importante da poesia, talvez até a coisa que faça a poesia ser poesia”.

“A poesia é para mim
algo como a ferramenta
com a qual posso cavar a
terra, cavar o homem”

Sobre o motivo de escrever o talvez mais negligenciado, na contemporaneidade, dos gêneros literários, ele faz algum charme, mas responde. Ele diz que é uma pergunta tão complicada que acaba ficando simples. “Explico: é tão complicada que já nos faz desistir logo de cara de dar uma resposta completa, tira o peso d’A Resposta Correta dos nossos ombros. Sempre me perguntei: Por que escrevo? E por que escrevo logo poesia? Escrevo para conhecer, para saber, notar. A poesia é para mim algo como a ferramenta com a qual posso cavar a terra, cavar o homem. A poesia por si só não se justifica, pelo menos não para mim (e algumas pessoas podem viver sem se justificarem; eu, não); a poesia é o meio através do qual quero chegar a outro ponto, ao susto da realidade, ao susto daquilo que o homem é”.

E continua dizendo que poesia só se justifica, para ele, como ferramenta. “Acredito quase que com religiosidade (eu, que não tenho religião) que algumas regiões da natureza humana só podem ser acessadas através da arte — tanto pelo criador quanto pelo leitor/ouvinte/espectador/etc. A arte não é descanso, desabafo. A arte é movimento e cansaço constante, enfrentamento. Só acredito na arte que de alguma forma nos puxa o tapete, nos faz notar com surpresa algo em nós, nos outros, nas coisas, nos lugares. Por isso escrevo”.

Não é necessário nenhum grande fecho da reportagem depois do que foi dito, mas ele fez mais, ao presentear os leitores com nada menos que sete poemas inéditos. É só aproveitar.

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CANTO DE DISSOLUÇÃO

Sepultadas no tempo
deitam-se as coisas todas,
que já nem coisas são,
mas memória de coisas.

Sepultados no tempo
afundam-se os rostos
todos, ou quase todos,
e as datas, risos, gostos.

Sepultadas no tempo
jazem as nossas vidas,
num tempo em que não são
nem gozo nem ferida.

Sepultados, enfim,
no tempo, todos nós.

Onde não há nem feito,
nem pessoa, nem voz.

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SE QUESTO È UN UOMO

Como é possível
um homem?
Pra quê? Pra que
lhe deram nome?
Que faz o homem?
Se, mal existe,
já some?

Como é possível
haver um homem?
Melhor seria
tivessem gasto
a Criação
em rios, em pedra,
em bicho, em prado,

em homem não.

O homem nasce,
vê, come e morre
já sem perdão.

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O ÚLTIMO POEMA OU RIO LETE

A cabeça no limbo do tempo.
Descansar já sem rosto e sem nome
e, deitado no córrego insone,
esquecer-se do bicho, do homem
e, com o tempo, esquecer-se do tempo.

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NESTE TEMPO

Neste tempo de horror
neste tempo
neste tempo sem tempo
de mãos crispadas e inverno nos dentes
de risos que não são
– só o amor que há é o dos bichos
e o das memórias frescas,
recém-cortadas.

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TUDO ESTÁ POUSADO NOS OBJETOS

Tudo está pousado
já nos objetos.
Batendo pulsando leve
tudo está já nas coisas
à espera do toque
um só
que o abra em flor
e estrume.
A pedra o cão o pássaro
o carro a moto o prédio
[olha olha agora]
tudo
já contém o que resultará
da matemática da poesia
equacionada por um toque.

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PARA O POEMA DESTA PÁGINA
“Dedicado a Matilde Campilho, que sem saber me ensinou.”

para o poema desta página:
a – abrir a janela mais próxima
b – faltando a janela, criar uma
c – ver: flor. ou muro. ou golfo. ou merda. ou um casal descobrindo o mapa-múndi no corpo um d’outro.
d – repetir os passos anteriores.

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INÚTIL

Inútil
inútil o gesto o plexo o beijo
inútil o desejo e o não-desejo
[igualmente
Inútil inútil o salto e a pausa
Inútil a mão no ombro alheio
[e próprio

Inútil soberanamente inútil
o gesto o plexo o beijo
nas campinas afiadas de verde
nas geometrias escuras da mente

e essa vontade de amar.

“No legado de Drummond” – Prof. Marinaldo Custódio

*por Prof. Marinaldo Custódio

“Leitura de poemas do jovem Matheus Guménin Barreto faz lembrar o grande poeta mineiro, por sua poética reflexiva abordando as ‘profundezas’”

Sempre achei que fazer crítica literária é coisa demais de demasiado grande para mim. Inclusive na universidade, minhas maiores, excelentes notas nunca foram em Teoria da Literatura tampouco em Linguística. Sempre me dei bem em Literatura propriamente dita, pela fruição do texto literário em si, ou em Língua Portuguesa, pela curtição de poder brincar com o texto em seus multifacetados aspectos: linguístico, semiótico, social, cultural, comunicativo enfim.

Por tudo isso me é tão difícil falar de um jovem poeta, e de sua obra, como me ocorre aqui ao abordar a poesia de Matheus Guménin Barreto. Se me animei a fazê-lo, é óbvio que eu tenho cá minhas razões. E elas se fundam, principalmente, num insight que tive ao ler os primeiros poemas dele, há pouco tempo, quando me ocorreu que ali estava um poeta singularíssimo, “de primeira água” (expressão preferida de outro grande poeta, Ivens Cuiabano Scaff). E que, talvez acima de tudo, porque sua poética (profunda, reflexiva, filosófica) me faz lembrar em muito a de Carlos Drummond de Andrade, aquele a quem chamo, à moda do que fizera Caetano Veloso, simplesmente de “o maior poeta brasileiro de todos os tempos”. (Sei perfeitamente que a academia recomenda muita calma, e fleuma, nessa hora, visto ser demasiado temerário afirmar que um é maior que outro e, ainda mais, que um é o maior de todos – mas o faço, a despeito de tudo).

Não analiso versos; já disse que não sei fazer isto, pois nunca fui bom em Teoria da Literatura. Vejo o conjunto, sinto a totalidade da coisa, o impacto sensorial e emotivo que a coisa causou em mim. Seria, pois, a chamada “análise do conteúdo” isto que a gente costuma fazer, quando na realidade a academia só respeita a “análise da forma”, e até compreendo que tem de ser assim mesmo, a academia está certa neste quesito, do ponto de vista dela, do cânone e coisa e tal.

Mas vamos nós com a nossa prosa. Em matéria especial que publicou na revista ‘Veja’ (“E agora, poesia?”, em 26 de agosto de 1987), logo depois da morte do grande poeta, o jornalista e também escritor Mário Sérgio Conti diz que a poética drummondiana, muito mais que lírica, é de uma profundeza filosófica, existencial por excelência, transitando por entre “o sono rancoroso dos minérios” e aquilo que “pensado foi e logo atinge distância superior ao pensamento”.

E já se falou que a obra drummondiana narra preferencialmente a trajetória do homem sobre a Terra. Por outro lado, a ele já se referiram como “poeta do indivíduo desajustado, do cotidiano, da existência e do fazer poesia”. E que fez poesia tratando de temas tipicamente brasileiros porém com uma pitada de inegável metafísica, portanto universal, remetendo à nossa condição de humanos, à alma humana.

É precisamente isto que vejo despontar na poesia do Matheus. Afirmação temerária, isto eu sei muito bem que é. Mas ouso! O próprio Drummond, sempre tão cioso quanto ao caráter sagrado do fazer poesia, que até pediu num poema “Ah, não me tragam originais para ler, para corrigir, para louvar”, até ele, vejam só, em toda a sua grandeza e olho perspicaz, não louvou também a poesia de um Dante Milano? – “um poeta de extraordinária qualidade”, disse o mineiro certa vez ao ler poemas do colega carioca.

Então, de minha parte, está dito.

É isto.

O canto (MATHEUS GUMÉNIN BARRETO)

[Quisera não nascer homem
ou, melhor, não ter nascido,
se ser é se perder sempre
e nascer é nunca ter sido]

Olhai o galho à janela.
É duro, e de morrer não nasce
e sem nascer e sem morrer deita
[à eternidade
a face.

Olha o gato esquecido de nascer.
Olha o cão olha o peixe olha a ara-
nha.
Esquecidos de nascer
[nascem
e perduram no tempo comprido.

[Quisera não nascer homem
ou, melhor, não ter nascido,
se ser é se perder sempre
e nascer é não ter existido]

Confissão (CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE)

Não amei bastante meu semelhante,
não catei o verme nem curei a sarna.
Só proferi algumas palavras,
melodiosas, tarde, ao voltar da festa.

Dei sem dar e beijei sem beijo.
(Cego é talvez quem esconde os olhos
embaixo do catre.) E na meia-luz
tesouros fanam-se, os mais excelentes.

Do que restou, como compor um homem
e tudo o que ele implica de suave,
de concordâncias vegetais, murmúrios
de riso, entrega, amor e piedade?

Não amei bastante sequer a mim mesmo,
contudo próximo. Não amei ninguém.
Salvo aquele pássaro – vinha azul e doido –
que se esfacelou na asa do avião.

Canção bêbeda (DANTE MILANO)

Estou bêbedo de tristeza,
De doçura, de incerteza,
Estou bêbedo de ilusão,
Estou bêbedo, estou bêbedo,
Bêbedo de cair no chão.

Os que me virem caído
Pensarão que estou ferido.
Alguém dirá: “Foi suicídio!”
“É um bêbedo!” outros dirão.

E ficarei estirado,
Bêbedo, desfigurado.

Talvez eu seja arrastado
Pelas ruas, empurrado,
Jogado numa prisão.

Ninguém perdoa o meu sonho,

Riem da minha tristeza,

Bêbedo, bêbedo, bêbedo,

Em mim, humilhada a glória,
Escarnecida a poesia,

Rasgado o sonho, a ilusão
Sumindo, a emoção doendo.

E ficarei atirado,
Bêbedo, desfigurado.