Onde adquirir os livros

O livro POEMAS EM TORNO DO CHÃO & PRIMEIROS POEMAS (Editora Carlini & Caniato, 2018) pode ser adquirido:

no site da Editora Carlini & Caniato com envio para todo o Brasil e exterior: (65) 3023-5714 ( https://www.carliniecaniato.com.br/livro/poemasemtornodochaoeprimeirospoemas )

na livraria Rua Antiga (dentro do espaço cultural Metade Cheio) – Cuiabá: (65) 3027-3896 ( https://pt-br.facebook.com/pages/category/Bookstore/Rua-Antiga-Sebo-Itinerante-386504485038009/ )

Capa - Poemas em torno do chão & Primeiros poemas - Matheus Guménin Barreto

*

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O livro A MÁQUINA DE CARREGAR NADAS (Editora 7Letras, 2017) pode ser adquirido:

no site da Editora 7Letras com envio para todo o Brasil e exterior: (21) 2540-0076 ( http://www.7letras.com.br/a-maquina-de-carregar-nadas.html )

na Livraria Flâneur – Porto [Portugal]: ( https://www.flaneur.pt/produto/a-maquina-de-carregar-nadas/ )

na Livraria da Travessa – Rio de Janeiro: (21) 2508-6872 ( https://www.travessa.com.br/a-maquina-de-carregar-nadas/artigo/8de83fb0-543c-4240-97c2-93e8750a3e88 )

na Livraria Baleia (Aldeia) – Porto Alegre: (51) 3084-9044 ( https://www.facebook.com/livrariabaleia/ )

na livraria Rua Antiga (dentro do espaço cultural Metade Cheio) – Cuiabá: (65) 3027-3896 ( https://pt-br.facebook.com/pages/category/Bookstore/Rua-Antiga-Sebo-Itinerante-386504485038009/ )

na Livraria Blooks – São Paulo: (11) 3259-2291 ( http://blooks.com.br/ )

na Livraria Tapera Taperá – São Paulo: (11) 3151-3797 ( http://taperatapera.com.br/ )

na Livraria Martins Fontes – São Paulo: (11) 3292-2660  ( http://www.martinsfontespaulista.com.br/maquina-de-carregar-nadas-a-560619.aspx/p )

na Patuscada – Livraria, bar & café – São Paulo: (11) 98158-3270 ( https://www.facebook.com/livrariapatuscada/ )

Um poema de Matheus Guménin Barreto – Antologia “notícias do intervalo” – 17.4.2020

(Fonte: http://ruidomanifesto.org/noticias-do-intervalo-antologia-poetica/ )

notícias do intervalo é uma antologia organizada pelo poeta Felipe André Silva com poemas sobre/a partir da pandemia mundial.

“falar para não estar tão só, quando estar só parece ser o pior. falar da maneira que conseguimos, que conhecemos. talvez uma equação simples. e ainda assim topamos com o velho questionamento: poesia, numa hora dessas? sim, poesia, falar, em todas as horas. falar sobre o além da janela, sobre a secura das ruas, sobre traumas que não respeitam isolamento, sobre dívidas a pagar assim que o toque de recolher for suspenso, sobre estar dentro de uma caixa azul. mesmo durante o intervalo as notícias continuam correndo.”

Autores participantes: Antônio LaCarne, Caetano Sousa Romão, Caio Augusto Leite, Divanize Carbonieri, Enoo Miranda, Felipe André Silva, Felipe Ribeiro, Frederico Klumb, Germano Rabello, Jorge Miranda, João Pedro Faro, Larissa Veloso, Leonardo A. Amorim, Leonardo Marona, Luana Claro, Lucas Litrento, Matheus Guménin Barreto, Pedro Mohallem, Pedro Queiroz, Raian Oliveira, Sofia Ferrés, Stefano Calgaro, Tarso De Melo, Telma Scherer e Thiago Ponce De Moraes.

 
*

Elegia pequeno-burguesa (Matheus Guménin Barreto)

Há a hora em que se sussurra –

(sussurra o vento na sombra
de uns galhos cheirando a urina,
a urina e jasmim) e alguém
sussurra do desfazer-se,
sussurra do desmontar-se
no estático entardecer.
Entre contas, dentifrícios,
livros, restos de uns amores,
restos de um tempo macio
que teima em se desmontar,
sussurra alguém entre posses,
sem posse mais de seu rosto,
um burguês atordoado
em sombras :: no entardecer.

Notícias de outras ilhas: Matheus Guménin Barreto – Revista Cult – 8.4.2020

(Fonte: https://revistacult.uol.com.br/home/matheus-gumenin-barreto-ilhas/ )

Matheus Guménin Barreto (1992, Cuiabá) é poeta, tradutor e doutorando na USP e na Universidade de Leipzig. Publicou A máquina de carregar nadas (7Letras, 2017), Poemas em torno do chão & Primeiros poemas (Carlini & Caniato, 2018) e lança livro novo em 2020.

Para a seção “Notícias de outras ilhas” – em que poetas, escritores e tradutores sugerem leituras para o período da quarentena -, indica a leitura de poemas de Marcelo Labes, da Lubi Prates e Diogo Cardoso. A curadoria da seção é de Tarso de Melo. Leia os poemas e o comentário do poeta abaixo.

Já não fosse a própria pandemia uma coisa terrível, ainda temos de assistir diariamente aos crimes via twitter e via pronunciamento oficial do saco de lixo que veste hoje a faixa presidencial.

Em meio a esse combo desastroso, algumas pessoas andaram me fazendo companhia – e acho que devo a elas minha sanidade mental nessas últimas semanas.

Eichendorff, Búnin, Marcelo Labes, Lubi Prates e Diogo Cardoso são os autores que me acompanham; Joan Tower e Sofia Gubaidulina são as compositoras.

Do Eichendorff eu li o divertidíssimo Aus dem Leben eines Taugenichts (saiu no Brasil como Da vida de um imprestável [Editora Oficina Raquel, tradução de Fernando Miranda]), que acompanha do jeito mais nonsense possível um “imprestável” ou “zero à esquerda” que cai na estrada levando só seu violino; do Búnin, que recebeu em 1933 o Nobel, estou lendo agora O processo do tenente Ieláguin (Editora 34, tradução de Boris Schnaiderman).

Além disso (ou junto com isso) me acompanham aqui na ilha os CDs Black Topaz da Joan Tower (com o quarteto de cordas “the muir”) e Offertorium da Sofia Gubaidulina (com Gidon Kremer e Dutoit), duas compositoras vivíssimas e muito potentes.

Os poemas do Marcelo Labes, da Lubi Prates e do Diogo Cardoso eu fico lendo e relendo eternamente. É incrível como eles – cada um a seu modo – dão à nossa língua uma voltagem assombrosa: ler esses autores é se assustar com a língua que se tem (ou que se pensava que se tinha).

Aqui um poema de cada um (e antes de terminar: viva o sus!):

***

mare nostrum – parte IV (Marcelo Labes)

primeira tentativa – autoexplicação:

quando floriano peixoto mandou tomar
a ilha mandou fuzilar inimigos mandou
batizar a ilha em sua homenagem

os federalistas degoladores morreram
de tiro qual ironia matar de tiro quem
sangrou centenas no golpe de faca

segunda tentativa – autoexpiação:

aprender a nadar para alcançar
sair da ilha e beber o mar

***

não foi um cruzeiro (Lubi Prates)

meu nome e
minha língua

meus documentos e
minha direção

meu turbante e
minhas rezas

minha memória de
comidas e tambores

esqueci no navio
que me cruzou
o Atlântico.

***

A língua nômade (Diogo Cardoso)

se eu falasse a língua dos atravessadores de desertos
se eu falasse toda a areia caída de seus ombros,
se eu falasse ainda a paisagem árida de seus dentes
a paisagem pura dos animais esfaimados
se eu falasse os animais assentados na saliva seca
se eu falasse de dentro da sede dos que morrem sob a lua
se eu falasse os dias habitados na pele da serpente
encerrados nas urnas que guardam as faltas todas
se eu falasse as estrelas pendidas nas pontas dos dedos
se eu falasse o sangue sustentado na costela ausente
se eu falasse a mulher o homem a criança e o centro da adaga
se eu falasse as falésias mudas pendidas na garganta
se eu falasse a voz das flores de sua saia
fazendo ventos em meu desejo
se eu falasse voz corpo o que quer que seja
se eu falasse a delicadeza deitada no mês de julho
se eu falasse as flores cobertas de fogo
se eu falasse os acentos inaugurais de um sorriso
se eu falasse o nome guardado em mim esta noite
se eu falasse
se eu falasse a verdadeira letra que iniciasse o verbo
se eu falasse os números quebrados em teus lábios rotos
se eu falasse o sim o não o nunca o agora
se eu falasse então isso assim lá onde
se eu falasse quando
se eu falasse quente o segredo da sopa
se eu falasse a mágoa acesa nos joelhos
se eu falasse as pedras que choram o chão
se eu falasse durma a grama de seu azul turbante
se eu falasse irilisili
se eu falasse anijiriraã
pisiriliá irujna keresê
khraô sirilitili keresaranaã
se eu falasse

se eu falasse.

Três poemas de Matheus Guménin Barreto – Revista Posfácio – 31.3.2020

(Fonte: https://www.posfacio.com.br/2020/03/31/poesia-tres-poemas-de-matheus-gumenin-barreto/ )

Hoje publicamos três poemas inéditos de Matheus Guménin Barreto (1992, Cuiabá), poeta, tradutor e doutorando na Universidade de São Paulo e na Universidade de Leipzig. É autor de A máquina de carregar nadas (7Letras, 2017) e Poemas em torno do chão & Primeiros poemas (Carlini & Caniato, 2018). Lança livro novo neste ano.

***

Patina patina em círculos no gelo
patina no gelo
e caem Tomahawk sobre o sono morno da Síria
sobre o solo frio da Ucrânia cai
o general iraniano cai
patina patina no gelo
caem na carne morna dos arariboia as balas as as
patina
patina patina no gelo patina em círculos em círculos
os pés como os do enforcado os pés
patina enquanto caem as pedras sobre a adúltera

Patina patina em círculos no gelo
veste os sapatos, paga 6,30 euros, dorme tranquilo.

***

A mão que arde no arbusto
é a mesma
que arde no sexo do amado é a mesma
que arde na areia e na espuma
a mão que arde no sexo do amado
é a mesma que faz a cama com vagar
entre paredes altas
mais alto o ardor branco da cama feita, apaziguada.
A mão que arde no branco da cama
é a mesma que limpa fezes e a mesma posta contra a luz de relâmpagos
à noite
a mesma que abre o pão é a mão a mesma.

Em cada coisa o vagar, em cada coisa o furor mudo.

***

Descasca das mãos o tempo
(cai mudo azul-escuro),
esfarelado o tempo do que foi e já nem mais
tenta. Descascam dos olhos umas tardes vermelhas
de maio. Descasca da boca um quase beijo
adiado e já não dado
mais. Descasca do corpo o corpo,
rastro sujo do que era, promessa
só feita.

O moderno e a vanguarda: uma leitura de Matheus Barreto e de Caio Ribeiro – Eduardo Mahon – 23.3.2020

*por Eduardo Mahon

23 de março de 2020

Faz um tempo que entrevistei um trio de jovens escritores: Caio Ribeiro, Stéfanie Medeiros e Matheus Barreto. Fiquei intrigado com as respostas às minhas provocações. Caio respondeu um sem número de “sei lá”. Matheus e Stéfanie insistiam na necessidade de “escrever bem”. Pouco tempo depois da entrevista à “imprensa marrom”, uma coluna que fiz no Diário de Cuiabá, cada um deles lançou seu livro. De Caio veio o “Manifesto da Manifesta”, de Stéfanie temos “O Último Verso” e de Matheus, “A Maquina de Carregar Nadas”. Dois livros de poesia e um romance. É uma impressionante mostra de fôlego autoral.
Estou pensando, desde então, sobre a diferença entre eles. Minha inquietação recai sobretudo sobre os dois livros de poesia. Por quê? Meus amigos têm praticamente a mesma idade e nenhum deles chegou aos 30 anos. Era de se esperar filiarem-se às mesmas tendências, compondo uma “nova geração” de escritores brasileiros. Como podem ser tão diferentes? – essa é a pergunta que me fiz até aqui. Antes de responder, é preciso verificar se, de fato, são tão diferentes assim. Parece-me que as propostas literárias já se apresentam diversas desde a capa.
Tanto o título de Barreto “A Máquina de Carregar Nadas” quanto a composição imagética da capa remetem ao modernismo. A referência explícita à “máquina” me deixou surpreso desde o primeiro contato. Há, no modernismo de Baudelaire ao futurismo de Marinetti, uma obsessão com a máquina. Esse é o grande tema. Nosso relacionamento com a tecnologia oscila do niilismo amedrontado (um novo ludismo?) à eufórica exaltação. De um lado, o medo de sermos arrostados, dominados, anulados pela máquina; de outro, a euforia por um futuro de sublimação do trabalho, do sacrifício, do conflito. O que discrepa são as visões sobre o resultado da tecnologia porque, de um jeito ou de outro, todos acabam por tratar dela.
Mas carregar nadas? Que máquina é essa? Temos aí uma inutilidade contemporânea (evito usar a expressão “pós-moderna”). A máquina realmente produz, mas o que produz não nos serve e, portando, faz “nadas”. Continua e produzindo inutilidades porque a poesia, do alto de sua autonomia estética, é considerada uma abstração nula de utilidade. A poesia é inútil porque não está engajada na representação da realidade. Essa é uma visão essencialmente moderna como moderno é Matheus Barreto. Moderno em tudo. De capa à contracapa, sobretudo na pretensão de construir uma obra consistente, solidez autoral que é a tônica dos escritores da virada do século XIX e de todo o século XX.
Há muitas máquinas na literatura contemporânea. Talvez Frankenstein de Shelley tenha sido o paradigma. Os temores quanto à manipulação tecnológica com a humanidade estão todas no “novo homem” criado pela mente atormentada do cientista. Desde então, a literatura pariu trambolhos assustadores. Máquinas do tempo, máquina de livros, máquinas de fazer gente, máquinas de fazer máquinas. Wells, Huxley, McEwan, Lobato, Haroldo de Campos, Dias-Pino, Hugo Mãe, dentre muitos outros autores inventaram suas máquinas terríveis e maravilhosas quase todas devoradoras de homens e, sobretudo, de utopias. Anthony Burgess escreveu “Laranja Mecânica” e inventou a pior distopia de todas, onde a máquina disciplinadora é ainda mais eficiente do que jamais sonharam Jeremy Bentham e Michel Foucault porque castra o ser humano de dentro para fora, manipulando a vontade e a identidade.
A máquina, enfim, é a principal obsessão da modernidade. Na maioria das obras, a máquina é rejeitada, muito ao contrário das utopias de Baudelaire e Marinetti que viam no futuro mecanicista a solução para as misérias humanas. Nesse contexto, filia-se “A Máquina de Carregar Nadas” de Barreto. A poesia, livre do utilitarismo, será refundada como refundados são todos os temas pelo modernismo. O autor pretende alcançar a própria concepção poética, uma nova sintaxe para um velho tema. As palavras se dissolvem para serem remontadas pela intervenção do autor-demiurgo. O esforço de Barreto é criar uma assinatura própria, uma literatura de grife, cuja personalidade seja inconfundível. Para a refundação, utiliza-se da racionalidade que demarca sua produção e, como não poderia deixar de ser, remete-se ao cânone que respeita e admira. Por isso, é impossível esquecer da “A Máquina do Poema e a Pedagogia da Flor”, de João Cabral de Mello Neto.
E Caio Ribeiro? O autor dos inúmeros “sei lá”? Depois de lançar “O Colecionador de Tempestades”, publica um livro que me parece dos mais interessantes. “Manifesto da Manifesta” reinterpreta a recorrência modernista dos manifestos e claramente flerta com a vanguarda. Não só a paródia moderna está presente em Ribeiro, mas sobretudo a ironia iconoclasta típica das vanguardas. O “experimento” do pastiche contínuo de outros manifestos, faz do livro um manifesto de manifestos e, ao mesmo tempo, não manifesta nenhum programa específico. Resume-se a ironizar e parodiar. É a expressão da vanguarda, muito embora não seja tão deletéria (em termos de projeto) quanto as vanguardas europeias do princípio do século XX.
A diferença entre os dois autores apresenta-se desde a capa. Se em Barreto, um círculo bordô eleva-se como um sol diante da página lisa, em Ribeiro há capturada uma cena, isto é, explícita está a composição performática que não se resume na convenção do livro e da escritura, mas rompe para extravasar em ação fotografada. Se Barreto quer propor a assinatura na refundação de uma sintaxe poética, Ribeiro não tem a preocupação de estatuir uma obra autoral, mas se abre para intervenções coletivas, compartilhando uma obra aberta. Essa diferença se espraia nas contínuas performances que Caio Ribeiro promove com o grupo “Coma Fronteira”, prescindindo das convenções escriturais. O objetivo é a composição coletiva, multidisciplinar, sem método definido ou coleta sistematizada de resultados.
Em resumo, Matheus Barreto inclina a obra para o “pensar” enquanto Caio Ribeiro, para o “sentir”. O protagonismo autoral moderno é marcado no primeiro, enquanto a irônica desconstrução vanguardista é o paradigma do segundo. O trabalho de Caio Ribeiro é a somatória de teatro, cinema, fotografia e, também, literatura. A escrita não se propõe a definir, redefinir ou propor programas. Muito embora todo o livro parodie os manifestos modernistas, não há um “manifesto dos manifestos”, mas a continuidade de fragmentações infinitas, isto é, o autor não almeja a totalidade de sua própria identidade e nem propõem uma cartilha. É claro que a angústia manifesta-se de formas diferentes no trabalho dos dois autores: o primeiro constrói e o segundo, desconstrói. Ambos estão à procura.
Se Barreto propõe uma reconstrução do poema, Ribeiro não se compromete com proposta alguma. Essa é a razão pela qual a vanguarda é obsessiva na autofagia do passado e do presente. O objetivo último da vanguarda é reduzir a arte à realidade, destruindo a própria noção moderna de arte. Arte, para o vanguardista, é a própria vida. Não há as tradicionais delimitações de forma e de tema, o estranhamento tão característico que os formalistas russos pontuaram. Não por outra razão é que a repulsa à vanguarda é mais intensa do que qualquer outro experimento moderno que dê continuidade às sutis reformas estéticas do passado. Todavia, se a contradição do moderno é buscar a referência no passado, o paradoxo da vanguarda é destruir a si própria.
Tanto Barreto quanto Ribeiro são cônscios do que pretendem, atendendo ao paradigma moderno, mas Ribeiro avança na imagem e na cênica, enquanto Barreto consolida-se na construção autoral. Ler os dois livros e, sobretudo, observar os dois autores (sim, porque é preciso esse duplo olhar da crítica contemporânea – ver o fazer) invariavelmente nos faz perceber que há, numa mesma geração, dois tempos, duas marchas, dois programas literários diferentes.
Melhor que isso. Torna-se evidente que o programa de “literatura mato-grossense”, proposto/imposto em 1921 não só é desconhecido pela nova geração como também solenemente ignorado pelos que o conhecem. Gerações anteriores já haviam atualizado a estética da literatura, abandonando o verso metrificado e a abordagem moralista. Contudo, se ainda sobrevivia a fixação do século XX de “cantar a terra”, é provável que estejamos diante de uma segunda ruptura sem que haja enfrentamentos abertos. Ignorar é, muito provavelmente, mais problemático do que afrontar.
O que me parece muito claro é que a nova geração entende não ser mais indispensável desconstruir a geração anterior (como de costume), mas simplesmente fazer diferente. Antagonizar o passado é, de muitas formas, fazer dele a referência obrigatória. É isso que a “nova geração” definitivamente não quer – estabelecer uma tradição com o que desgosta. De forma inteligente, apagam o referencial local. Em tempos liquefeitos de fronteiras dissolvidas, vai arrefecendo a obsessão romântica de definir o território nacional e a respectiva reprodução regionalista do projeto de uma “literatura geográfica”. Não é mais preciso falar sobre si mesmo para encontrar uma identidade. A identidade está no humano que carregamos em nós.

Cinco poemas de Matheus Guménin Barreto – Revista InComunidade – 1.2020

(Fonte: http://www.incomunidade.com/v88/art.php?art=40
 

Matheus Guménin Barreto (1992- ) é poeta e tradutor mato-grossense. É autor dos livros de poemas A máquina de carregar nadas (7Letras, 2017) e Poemas em torno do chão & Primeiros poemas (Carlini & Caniato, 2018). Doutorando da Universidade de São Paulo (USP) na área de Língua e Literatura Alemãs – subárea tradução -, estudou também na Universidade de Heidelberg e na Universidade de Leipzig. Encontram-se textos seus no Brasil, na Espanha e em Portugal (Revista Cult, Escamandro, plaquete “Vozes, Versos”, Revista Gueto, Palavra Comum, Revista Escriva [PUC-RS], Revista Opiniães [USP], A Bacana, Diário de Cuiabá; entre outros), e integrou o Printemps Littéraire Brésilien 2018 na França e na Bélgica a convite da Universidade Sorbonne. Publicou em periódicos ou em livros traduções de Bertolt Brecht, Ingeborg Bachmann, Johannes Bobrowski, Nelly Sachs, Paul Celan, Peter Waterhouse e outros.

***

O que vale um poema

O que vale um poema
menos que uma greve menos
que o operário menos
do que um grito menos
do que a fala menos

do que um braço menos
que um poema vale um poema bem menos
mais vale um cão vivo
e (quem sabe?) uma república.

*

O jovem recebia tudo o que quisesse levar

Este era o prazo para o tratamento de beleza: seis meses à base de óleo de mirra e outros seis meses com vários bálsamos e cremes. Quando chegava o tempo de apresentar-se ao rei, a jovem recebia tudo o que quisesse levar do harém para o palácio real.” – Ester 2:12-13

A mirra que passa da mão do amado à m
ão de seu amado passa
limpa a mirra limpa e limpo o amor
limpos os amados de carne apont
ada apontada carne dos amados
limpo o morno breu
limpo o morno breu
onde cartografam o corpo um do outro.

*

O amado, morno, à meia-luz

O amado, morno, à meia-luz
febril, que toca o amado ereto;
aflito, esquiva-se da luz
o amado, morno, à meia-luz,
febris os dois, febris e nus.
Aflitos – se são descobertos
o amado, morno, à meia-luz
febril e o seu amado ereto!

*

[sem título]

descobrir as palavras eu te amo

pesar na mão cada uma, medir
sua massa numa mão
n’outra
articular a língua os lábios dentes como
pela primeira vez
um homem o fez
um homem o fez a outro homem
testar o que abarca cada letra, o que deixa, o que fala
testar cada som e sombra que acaso fique
nas arestas do a, do e

descobrir as palavras eu te amo
e a violência que é usá-las.

*

Casa

O silêncio que contêm
os objetos da casa
– mesa cadeira tapete
panela livros,

o silêncio que têm
            no interior
colhido nas longas horas em
que olho algum
lhes pousa na superfície,

o silêncio colhido
na atribulada solidão
que as coisas de uma casa têm e são

e que, assim, fazem-na
casa.

Antologia Poética #2 da Revista Cult

Casa (Matheus Guménin Barreto – [A máquina de carregar nadas. Editora 7Letras, 2017])

O silêncio que contêm
os objetos da casa
– mesa cadeira tapete
panela livros,

o silêncio que têm
.              no interior
colhido nas longas horas em
que olho algum
lhes pousa na superfície,

o silêncio colhido
na atribulada solidão
que as coisas de uma casa têm e são

e que, assim, fazem-na
casa.

*

“Poemas que, das maneiras mais variadas, demonstram que nossa fragilidade pode ser sempre uma forma de acusação – que toda delicadeza é uma afronta à brutalidade circundante, um respiro corajoso contra tudo que é asfixiante. Cada página desta antologia é um convite para que o leitor vá até os livros dos autores que dela participam.

Com curadoria de Tarso de Melo e direção de arte de Fernando Saraiva.

Participam desta edição: Adelaide Ivánova, Alberto Pucheu, Amanda Copstein, Ana Estaregui, Ana Martins Marques, Andreev Veiga, Bianca, Gonçalves, Carlos Augusto Lima, Casé Lontra Marques, Chantal Castelli, Dalila Teles Veras, Diana Junkes, Edimilson de Almeida Pereira, Eduardo Sterzi, Elisa Carareto, Fabiano Calixto, Fabrício Marques, Fernanda Marra, Izabela Leal, Jade Marra, Jeanne Callegari, Julia Copa, Júlia Studart, Karen Hofstetter, Leandersson, Leonardo Fróes, Leonardo Gandolfi, Luci Collin, Luna Vitrolira, Manoel Ricardo de Lima, Marcela Cantuária, Marcelo Ariel, Marcelo Montenegro, Matheus Guménin Barreto, Micheliny Verunschk, Renan Nuernberger, Reynaldo Damazio, Sara Síntique, Simone Brantes”

Link para compra da Antologia Poética #2 da Revista Cult:
https://www.cultloja.com.br/produto/cult-antologia-poetica-2/

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Três poemas de Matheus Guménin Barreto – Revista Escrita Droide – 19.9.2019

(Fonte: https://escritadroide.blogspot.com/2019/09/tres-poemas-de-matheus-gumenin-barreto.html )

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corpo: que coisa será essa
a que servirá ou a quem, computará quem
os beijos que deu e dará e quem os tons
de carmim que já viu aos domingos e quem
os cachorros que lhe lamberam os dedos e quando
e quem computará as madrugadas e o branco que fazem
e quem
os sons que gestou na garganta e não disse e quem
o amor miúdo e bom que reina entre as paredes de um apartamento e quem
dirá a esse corpo que tudo
cedo ou tarde
não vai ter existido
na garganta faminta do tempo?

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é lícito um poema onde ecoem passos
de um único homem ou de sua sombra os passos?
é lícito o poema de uns pés descalços, limpos, sobre um
pátio ainda mais? lícito
que água ainda não convexa de toques nem
de rostos outros espelhados que um só rosto, que essa água
reste?
ecos, passos, sombras, pés descalços, toques?
é lícito que haja? é lícito que haja tão rara palavra:
lícito?

é lícito que haja o que haver em versos
como estes
se os tiroteios furam a pele de uma mãe de um pai de um filho e de um que não nasceu e não nascerá num canto escuro qualquer deste país que nem me digno a saber enquanto escrevo um poema sobre escrever um poema sobre um revólver calibre 38 que resolve anular o tempo?

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O AMADO, MORNO, À MEIA-LUZ

O amado, morno, à meia-luz
febril, que toca o amado ereto;
aflito, esquiva-se da luz
o amado, morno, à meia-luz,
febris os dois, febris e nus.
Aflitos – se são descobertos
o amado, morno, à meia-luz
febril e o seu amado ereto!

*

Matheus Guménin Barreto (1992- ) é poeta e tradutor mato-grossense. É autor dos livros de poemas A máquina de carregar nadas (7Letras, 2017) e Poemas em torno do chão & Primeiros poemas (Carlini & Caniato, 2018). Doutorando da Universidade de São Paulo (USP) na área de Língua e Literatura Alemãs – subárea tradução -, estudou também na Universidade de Heidelberg (Alemanha). Encontram-se textos seus no Brasil, na Espanha e em Portugal (Revista Cult, Escamandro, plaquete “Vozes, Versos”, Revista Escriva [PUC-RS], Opiniães [USP], Diário de Cuiabá; entre outros), e integrou o Printemps Littéraire Brésilien 2018 na França e na Bélgica a convite da Universidade Sorbonne.

Imagens: Kazimir Malevich

Quatro poemas de Matheus Guménin Barreto – Revista Escamandro – 18.9.2019

(Fonte: https://escamandro.wordpress.com/2019/09/18/3-poemas-ineditos-de-matheus-gumenin-barreto-1992/ )

Por que ainda?

Porque um roxo azulado já ardeu
sobre um cemitério
Porque a libido dum gramado alto já se esfregou
entre umas pernas
Porque um cão já rendeu aquosa servidão
entre os dedos
Porque já se entrou numa sala em breu
acordada a sala aos sentidos acordada
Porque um homem já afiou um outro homem
– brasa os corpos.

§

Tremem maduras espigas
afiadas de sangue e de sonho
que é sangue e é sonho o corpo
sob outro.

§

O jovem recebia tudo o que quisesse levar
“Este era o prazo para o tratamento de beleza: seis meses à base de óleo de mirra e outros seis meses com vários bálsamos e cremes. Quando chegava o tempo de apresentar-se ao rei, a jovem recebia tudo o que quisesse levar do harém para o palácio real.” – Ester 2:12-13

A mirra que passa da mão do amado à m
ão de seu amado passa
limpa a mirra limpa e limpo o amor
limpos os amados de carne apont
ada apontada carne dos amados
limpo o morno breu
limpo o morno breu
onde catalogam o corpo um do outro.

§

corpo: que coisa será essa
a que servirá ou a quem, computará quem
os beijos que deu e dará e quem os tons
de carmim que já viu aos domingos e quem
os cachorros que lhe lamberam os dedos e quando
e quem computará as madrugadas e o branco que fazem
e quem
os sons que gestou na garganta e não disse e quem
o amor miúdo e bom que reina entre as paredes de um apartamento e quem
dirá a esse corpo que tudo
cedo ou tarde
não vai ter existido
na garganta faminta do tempo?

*

Matheus Guménin Barreto (1992- ) é poeta e tradutor mato-grossense. É autor dos livros de poemas A máquina de carregar nadas (7Letras, 2017) e Poemas em torno do chão & Primeiros poemas (Carlini & Caniato, 2018). Doutorando da Universidade de São Paulo (USP) na área de Língua e Literatura Alemãs – subárea tradução -, estudou também na Universidade de Heidelberg (Alemanha). Encontram-se textos seus no Brasil, na Espanha e em Portugal (Revista Cult, Escamandro, plaquete “Vozes, Versos”, Revista Escriva [PUC-RS], Revista Magma [USP], Revista Opiniães [USP], A Bacana, Diário de Cuiabá; entre outros), e integrou o Printemps Littéraire Brésilien 2018 na França e na Bélgica a convite da Universidade Sorbonne.

Um poema de Matheus Guménin Barreto – Site Oficial Divanize Carbonieri – 15.8.2019

(Fonte: https://www.divanizecarbonieri.com.br/equacoes-matematicas-poema-de-matheus-gumenin-barreto/?fbclid=IwAR082Hy_Vn9E11zUSxvRDFg0sR9K2VZthkUX5ALGK2snlQerecP4D7ePQGQ )

Equações matemáticas

1)
na curva, na nuance encontrei Deus
no limpo da linha reta o perdi

2)
quando se escuta o marulho da noite
e as coisas ganham contorno insuspeito
a geometria do silêncio aflora
e a vida vale

3)
o silêncio anterior
ao construto da fala no lábio

4)
não diz
se sabe que o dito não condiz
com o que se queria dito
e,

dito,

é outro dito no ouvido que o apascenta.

*

Matheus Guménin Barreto (1992- ) é poeta e tradutor mato-grossense. É autor dos livros de poemas A máquina de carregar nadas (7Letras, 2017) e Poemas em torno do chão & Primeiros poemas (Carlini&Caniato, 2018). Doutorando da Universidade de São Paulo (USP) na área de Língua e Literatura Alemãs – subárea tradução -, estudou também na Universidade de Heidelberg (Alemanha). Encontram-se poemas seus no Brasil, na Espanha e em Portugal (Revista Cult, Escamandro, plaquete “Vozes, Versos”, Mallarmargens, Palavra Comum e Diário de Cuiabá; entre outros), e integrou o Printemps Littéraire Brésilien 2018 na França e na Bélgica a convite da Universidade Sorbonne.

“Não pode o amor ser dissidente: sobre a poesia homoerótica de Matheus Guménin Barreto” – Revista Itinerários (UNESP) – 1-6.2019

(Fonte: https://periodicos.fclar.unesp.br/itinerarios/issue/view/727 )

* por Diana Junkes (poeta e professora de Teoria Literária e Literatura Brasileira da Universidade Federal de São Carlos [UFSCar])

RESUMO: Neste artigo, proponho a leitura, uma entre as várias possíveis, de um conjunto de sete poemas homoeróticos do poeta Matheus Guménin Barreto, que tem despontado como uma das mais interessantes vozes da poesia brasileira contemporânea. Nos poemas, que podem ser lidos como um só, um homem declara seu amor a outro homem, seu desejo. Reside aí a força poética do conjunto: na cena enunciativa e em seu desdobramento. A partir de um diálogo entre diferentes referências teóricas, empreende-se a análise do poema discutindo os (des)limites éticos, políticos e sociais do amor para repropor o uso do termo dissidente, uma vez que ele só cabe em um contexto social e cultural em que o homoerotismo é considerado fora da norma. Ultrapassando as razões políticas do uso do termo dissidente, proponho que a liberdade e a garantia dos direitos individuais só estarão estabelecidas quando nenhum amor for considerado dissidente, já que o amor desconhece outra lei que não a sua própria, articulada ao desejo e ao ser de cada um.
PALAVRAS-CHAVE: Amor homoerótico. Dissidência. Fronteira. Limiar. Matheus Guménin Barreto.

Link para download gratuito do artigo: https://periodicos.fclar.unesp.br/itinerarios/article/view/12284

Um poema de Matheus Guménin Barreto em espanhol (tradução de Sergio Ernesto Ríos) – 25.6.2019

INÚTIL

Inútil
inútil el gesto el plexo el beso
inútil el deseo y el no deseo
[igualmente
Inútil inútil el salto y la pausa
Inútil la mano en el hombro ajeno
[y propio

Inútil soberanamente inútil
el gesto el plexo el beso
en los prados afilados de verde
en las geometrías oscuras de la mente

y esas ganas de amar.

*

INÚTIL

Inútil
inútil o gesto o plexo o beijo
inútil o desejo e o não-desejo
[igualmente
Inútil inútil o salto e a pausa
Inútil a mão no ombro alheio
[e próprio

Inútil soberanamente inútil
o gesto o plexo o beijo
nas campinas afiadas de verde
nas geometrias escuras da mente

e essa vontade de amar.

Cinco poemas de Matheus Guménin Barreto – Revista Média Santista – 19.6.2019

(Fonte: https://felipenasc50.wixsite.com/revistamediasantista/post/cinco-poemas-de-matheus-gum%C3%A9nin-barreto?fbclid=IwAR1WLezS0BMYw7Ft9vzl2YP_o6FBLYKd7JO5_Z1tSfIQm4pTSrPxEv-9y2U )

 

Matheus Guménin Barreto (1992- ) é poeta e tradutor mato-grossense. É autor dos livros de poemas A máquina de carregar nadas (7Letras, 2017) e Poemas em torno do chão & Primeiros poemas (Carlini & Caniato, 2018). Doutorando da Universidade de São Paulo (USP) na área de Língua e Literatura Alemãs – subárea tradução -, estudou também na Universidade de Heidelberg (Alemanha). Encontram-se textos seus no Brasil, na Espanha e em Portugal (Revista Cult, Escamandro, plaquete “Vozes, Versos”, Palavra Comum, Enfermaria 6, Revista Escriva [PUC-RS], Revista Magma [USP], Revista Opiniães [USP], A Bacana, Diário de Cuiabá; entre outros), e integrou o Printemps Littéraire Brésilien 2018 na França e na Bélgica a convite da Universidade Sorbonne. Publicou em periódicos ou em livros traduções de Bertolt Brecht, Erich Kästner, Ingeborg Bachmann, Johannes Bobrowski, Nelly Sachs, Paul Celan, Peter Waterhouse e outros.

Os 5 poemas abaixo são do livro A máquina de carregar nadas.

***

O ÚLTIMO POEMA OU RIO LETE
Para a amiga Juliana Pasquarelli Perez
“Um dia em que se possa não saber.” (Sophia de Mello Breyner Andresen, “Intervalo II”, 1950)

A cabeça no limbo do tempo.
Descansar já sem rosto e sem nome
e, deitado no córrego insone,
esquecer-se do bicho, do homem
e, com o tempo, esquecer-se do tempo.

*

O NULO POETA/EMA

quando hutus exterminaram tutsis
quando hutus exterminaram tutsis
quando hutus exterminaram tutsis
quando tutsis exterminaram tutsis

.

e quando o poeta escreve
[quando tutsis exterminaram tutsis
pecado
pecado
pelo pecado pelo pec-
ado
peca/do
pecado de não saber o que são tutsis
tutsis o que são
o que são tutsis
quem são
hutus
o que
exterminaram
tutsis
e procura onde fica Ruanda
Ruanda¿
e chora de não saber onde fica
onde fica
exterminaram tutsis
Ruanda

– a maioria a golpes de facão.

*

POEMA DO AMADO PARA SEU AMADO

“Penteei-me para o rei
Mas foi ao escravo que dei as tranças do meu cabelo” (Ana Paula Tavares, Manual para amantes desesperados, 2007)

a)
os dentes
teus amanhecem quando me veem
e compreendo
o inerte ofício das pedras
– plenas completas alegres.

b)
a voz amanhece na tua boca
ilumina: da garganta
ruminando o que não fora dito,
inaudito, e o que se ficou por dizer

pois

a voz amanhece na tua boca
e o contorno do sol posto
fica pregado
fica pregado
nas pálpebras

fechadas de pôr do sol

c)
e tua boca anoitece
quando o silêncio pousa e faz ninho nos teus lábios

até que
então nasce outra vez
o sol
da tua garganta áspera
raia outra vez, já à espera paciente
da hora de se pôr

flor
que anoitece

– e o eclipse do corpo meu
é violento

*

PRIMEIRO

O toque mesmo nas coisas
para lembrar as mãos da
arquitetura limpa daquilo
que o mundo gestou.

A mão limpa, cartesiana, reta
pelas coisas
para tirar o pó sobre os nomes

sol, xícara, casca, ladrilho, pêssego, miséria

e tocar outra vez
como no Dia Primeiro
algo dos nomes
que vibre.

*

CANTO DE DISSOLUÇÃO

Sepultadas no tempo
deitam-se as coisas todas,
que já nem coisas são,
mas memória de coisas.

Sepultados no tempo
afundam-se os rostos
todos, ou quase todos,
e as datas, risos, gostos.

Sepultadas no tempo
jazem as nossas vidas,
num tempo em que não são
nem gozo nem ferida.

Sepultados, enfim,
no tempo, todos nós.

Onde não há nem feito,
nem pessoa, nem voz.

Um poema de Matheus Guménin Barreto em catalão (tradução de Josep Domènech Ponsatí) – 30.5.2019

PRIMER
El propi toc en les coses
per recordar les mans de
l’arquitectura neta d’allò
que el món va crear.

La mà neta, cartesiana, recta
per les coses
per treure la pols dels noms

sol, tassa, clova, rajols, préssecs, misèria

i tocar un altre cop
com el Dia Primer
alguna cosa dels noms
que vibri.

*

PRIMEIRO
O toque mesmo nas coisas
para lembrar as mãos da
arquitetura limpa daquilo
que o mundo gestou.

A mão limpa, cartesiana, reta
pelas coisas
para tirar o pó sobre os nomes

sol, xícara, casca, ladrilho, pêssego, miséria

e tocar outra vez
como no Dia Primeiro
algo dos nomes
que vibre.

Dois poemas de Matheus Guménin Barreto – Revista Arribação – 5.6.2019

(Fonte: https://arribacao.wordpress.com/2019/06/05/dois-poemas-de-matheus-gumenin-barreto/ )

 

PRIMEIRO

O toque mesmo nas coisas
para lembrar as mãos da
arquitetura limpa daquilo
que o mundo gestou.

A mão limpa, cartesiana, reta
pelas coisas
para tirar o pó sobre os nomes

sol, xícara, casca, ladrilho, pêssego, miséria

e tocar outra vez
como no Dia Primeiro
algo dos nomes
que vibre.

*

Aquilo que me sou não me é nunca.
Pensando o que serei no escasso espaço
de mim, não sei se penso e sou aquilo
ou se, pensando, passa o tempo e passo

– se passo e já não sou o que pensara,
nem o que penso agora e que já passa.
Não sei se algum momento embosco aquele
que vejo ou se descubro-me sua caça.

 

***

 

Matheus Guménin Barreto (1992- ) é poeta e tradutor mato-grossense. É autor dos livros de poemas “A máquina de carregar nadas” (7Letras, 2017) e “Poemas em torno do chão & Primeiros poemas” (Carlini & Caniato, 2018). Doutorando da Universidade de São Paulo (USP) na área de Língua e Literatura Alemãs – subárea tradução -, estudou também na Universidade de Heidelberg (Alemanha). Encontram-se textos seus no Brasil, na Espanha e em Portugal (Revista Cult, Escamandro, plaquete “Vozes, Versos”, Palavra Comum, Enfermaria 6, Revista Escriva [PUC-RS], Revista Magma [USP], Revista Opiniães [USP], A Bacana, Diário de Cuiabá; entre outros), e integrou o Printemps Littéraire Brésilien 2018 na França e na Bélgica a convite da Universidade Sorbonne. Publicou em periódicos ou em livros traduções de Bertolt Brecht, Erich Kästner, Ingeborg Bachmann, Johannes Bobrowski, Nelly Sachs, Paul Celan, Peter Waterhouse e outros.
http://www.matheusgumenin.com
matheusgumenin@hotmail.com

Quinta Maldita #49 – Literatura & Crise – 23.5.2019

Literatura & Crise | Quinta Maldita #49
Idealização: Demétrio Panarotto
Montagem: Marcio Fontoura
Produção: Desterro Cultural com parceria da Ruído Manifesto. Música de Joan Tower.

Com as vozes de:

1 – Adelaide Ivánova (PE) – Piriguetismo de guerrilha (Pra Maria Filipa)
2 – Tarso de Melo (SP) – Variações sobre o medo
3 – Hirondina Joshua (Moçambique) – [sem título]
4 – Fabiano Calixto (PE) – Cadáver esquisito
5 – Natasha Felix (SP) – Feliz como Lázaro
6 – Ronald Augusto (RS) – Em resposta a uma outra solicitação que lhe fizeram
7 – Cinthia Kriemler (RJ/DF) – Lixo
8 – Ismar Tirelli Neto (RJ) – [sem título]
9 – Divanize Carbonieri (SP/MT) – Bagaço
10 – Matheus Guménin Barreto (MT) – [sem título]
11 – Lívia Bertges (MG/MT) – Lama
12 – Óscar Fanheiro (Moçambique) – [sem título]
13 – Marceli Andresa Becker (RS) – [sem título]
14 – Natália Agra (AL) – Canção para W. B. Yeats
15 – Sofia Ferrés (Uruguai/SP) – [sem título]
16 – Marcelo Labes (SC) – Mare nostrum
17 – Adriane Garcia (MG) – Adoro os grandes capitalistas
18 – Duan Kissonde (RS) – [sem título]
19 – Ângela Coradini (MT) – Poema treze
20 – Gustavo Matte (SC/RS) – [sem título]
21 – Tita F. Martinuci (PR/MT) – [sem título]
22 – Bruna Mitrano (RJ) – [sem título]

Quinta Maldita #22 – Afeto & Erotismo – 15.3.2018

Afeto & Erotismo | Quinta Maldita #22
Idealização: Demétrio Panarotto
Montagem: Marcio Fontoura
Produção: Desterro Cultural com parceria da Ruído Manifesto. Música de Sofia Gubaidulina. Pintura de Mark Rothko.

Com as vozes de:

01 Micheliny Verunschk – [sem título]
02 Natalia Borges Polesso – Saliva
03 Casé Lontra Marques – Encaixar o rosto nos ossos
04 Aline Bei – Penetração
05 Matheus Guménin Barreto – Um corpo incendiado: este
06 Caio Augusto Leite – [sem título]
07 Natasha Felix – [sem título]
08 Ave Terrena Alves – [sem título]
09 Gustavo Cardoso – Copacabana
10 Joe Sales – Amor de ainda
11 Marilia Beatriz de Figueiredo Leite – [sem título]
12 Leonardo Chioda – Escreveu certa vez o fotógrafo Duane Michals
13 Luana Claro – [sem título]
14 Marcelo Labes – Inverno
15 Lilian Sais – Manual pornodidático para homens
16 Rafael Tahan – Pathos
17 Santiago Santos – Raiane
18 Rodivaldo Ribeiro – Uma dúvida
19 Tita F. Martinuci – [sem título]
20 Wuldson Marcelo – Da estrada e sobre ela
21 Simone Brantes – Pote

 

3 poemas inéditos de Matheus Guménin Barreto – Revista Pixé nº3 – 31.5.2019

(Fonte: https://www.revistapixe.com.br/ )
Aquilo que me sou não me é nunca.
Pensando o que serei no escasso espaço
de mim, não sei se penso e sou aquilo
ou se, pensando, passa o tempo e passo

– se passo e já não sou o que pensara,
nem o que penso agora e que já passa.
Não sei se algum momento embosco aquele
que vejo ou se descubro-me sua caça.

*

corpo: que coisa será essa
a que servirá ou a quem, computará quem
os beijos que deu e dará e quem os tons
de carmim que já viu aos domingos e quem
os cachorros que lhe lamberam os dedos e quando
e quem computará as madrugadas e o branco que fazem
e quem
os sons que gestou na garganta e não disse e quem
o amor miúdo e bom que reina entre as paredes de um apartamento e quem
dirá a esse corpo que tudo
cedo ou tarde
não vai ter existido
na garganta faminta do tempo?

*

Como escrever um poema
enquanto a fome carcome um corpo a-
inda que um só corpo ainda que como escrever um poema como escrever um poema como escrever um poema como escrever um poema como escrever um poema como escrever um poema como escrever um poema como escrever um poema como escrever um poema como escrever um poema como escrever um poema como escrever um poema como escrever um poema como escrever um poema como escrever um

 

***

 

*Matheus Guménin Barreto (1992- ) é poeta e tradutor mato-grossense. É autor dos livros de poemas A máquina de carregar nadas (7Letras, 2017) e Poemas em torno do chão & Primeiros poemas (Carlini & Caniato, 2018). Doutorando da Universidade de São Paulo (USP) na área de Língua e Literatura Alemãs – subárea tradução -, estudou também na Universidade de Heidelberg (Alemanha). Encontram-se poemas seus no Brasil, na Espanha e em Portugal (Revista Cult, Escamandro, plaquete “Vozes, Versos”, Mallarmargens, Palavra Comum e Diário de Cuiabá; entre outros), e integrou o Printemps Littéraire Brésilien 2018 na França e na Bélgica a convite da Universidade Sorbonne.

3 poemas inéditos de Matheus Guménin Barreto – Revista Pixé nº1 – 31.3.2019

(Fonte: https://www.revistapixe.com.br/ )

Três poemas da série “Deus in machina”

 

intuir sua inexistência
nos gestos do irmão e do inimigo
igualmente
sua inexistência intuir na sombra entre a fruteira e a parede
branca, intuir no silêncio respondido
e não
que é já tarde para haver

que é já tarde para haver,
que mãos demais bateram já no chão
que palavras demais travaram já na língua
e travarão

intuir tanto e de tantas formas
que não haver já não tem importância,
como o resto,
e a laranjeira segue ardendo, dourada.

*

‘eu sou aquele que sou’

e o chiar dos galhos, crepitar da chuva
é o que é, talvez,
se for. e o centro sempre movente
o centro em todo lugar
também o será,
se for. e o morno de mãos amorosas,
se houver, será também,
se for.

não sou aquele que sou
nem posso ser, e contemplo
extático de brasas
aquele que talvez seja,
se for.

*

vazios o túmulo de clara pedra
os trapos claros
sob o testemunho da manhã.

ruge na rocha do sepulcro
a brisa
e anuncia que nada virá
nem ninguém.

***

Matheus Guménin Barreto (1992- ) é poeta e tradutor mato-grossense. Doutorando da Universidade de São Paulo (USP) na área de Língua e Literatura Alemãs – subárea tradução -, estudou também na Universidade de Heidelberg (Alemanha). Publicou em periódicos e livros traduções de Bertolt Brecht, Paul Celan, Peter Waterhouse e Ingeborg Bachmann. Encontram-se poemas seus no Brasil, em Portugal e na Espanha, e integrou o Printemps Littéraire Brésilien 2018 na França e na Bélgica a convite da Universidade Sorbonne. É autor dos livros de poemas A máquina de carregar nadas (7Letras, 2017) e Poemas em torno do chão & Primeiros poemas (Carlini & Caniato, 2018 – coleção Olho d’água).

Microantologia – 10 poemas de Matheus Guménin Barreto – Revista Palavra Comum / Espanha – 20.3.2019

(Fonte: http://palavracomum.com/10-poemas-de-matheus-gumenin-barreto/ )

 

Como escrever um poema
enquanto a fome carcome um corpo a-
inda que um só corpo ainda que como escrever um poema como escrever um poema como escrever um poema como escrever um poema como escrever um poema como escrever um poema como escrever um poema como escrever um poema como escrever um poema como escrever um poema como escrever um poema como escrever um poema como escrever um poema como escrever um poema como

***

é lícito um poema onde ecoem passos
de um único homem ou de sua sombra os passos?
é lícito o poema de uns pés descalços, limpos, sobre um
pátio ainda mais? lícito
que água ainda não convexa de toques nem
de rostos outros espelhados que um só rosto, que essa água
reste?
ecos, passos, sombras, pés descalços, toques?
é lícito que haja? é lícito que haja tão rara palavra:
lícito?

é lícito que haja o que haver em versos
como estes
se os tiroteios furam a pele de uma mãe de um pai de um filho e de um que não nasceu e não nascerá num canto escuro qualquer deste país que nem me digno a saber enquanto escrevo um poema sobre escrever um poema sobre um revólver calibre 38 que resolve anular o tempo?

***

o amado que toca os pulsos mornos
de seu amado
e o braço e as mãos
tremulargênteas
e o rosto toca e o sexo
quente e afiado
o amado que toca os pulsos mornos
de seu amado
e sabe de repente o que é um ensolarado riso e
a noite antiquíssima que o olha
de volta.

***

corpo: que coisa será essa
a que servirá ou a quem, computará quem
os beijos que deu e dará e quem os tons
de carmim que já viu aos domingos e quem
os cachorros que lhe lamberam os dedos e quando
e quem computará as madrugadas e o branco que fazem
e quem
os sons que gestou na garganta e não disse e quem
o amor miúdo e bom que reina entre as paredes de um apartamento e quem
dirá a esse corpo que tudo
cedo ou tarde
não vai ter existido
na garganta faminta do tempo?

***

arder a vida em palavras

medidas sombra por
sombra
duma mão noutra arder a vida
na geografia incerta da boca

que arde um instante e desce à terra.

arder a vida nos ecos

e nos corpos ora nacarados ora suados do
discurso que o lábio promete
nem sempre cumpre
e quando cumpre é sempre quase.

equidistante do fim e do início arder a vida

enquanto o corpo se desfaz devagar
com carinho quase
mas resoluto.

arder do verbo absoluto à procura

o verbo na sarça que se queima magnífico
e não existe.

arder a vida pruma bosta qualquer

que mal nasce já não existe ::

– arder a vida à procura dum sol pousado na mesa
dum dia de justiça entre irmãos
e descer à terra ciente – mas contente, resoluto –
de nada ter nas mãos.

***

Aquilo que me sou não me é nunca.
Pensando o que serei no escasso espaço
de mim, não sei se penso e sou aquilo
ou se, pensando, passa o tempo e passo

– se passo e já não sou o que pensara,
nem o que penso agora e que já passa.
Não sei se algum momento embosco aquele
que vejo ou se descubro-me sua caça.

***

OLEAJE
muro branco
onde os adeuses do mar se recolhem junto à sombra,
salgados e frescos.

(27-3-2017)

***

PRIMEIRO

O toque mesmo nas coisas
para lembrar as mãos da
arquitetura limpa daquilo
que o mundo gestou.

A mão limpa, cartesiana, reta
pelas coisas
para tirar o pó sobre os nomes

sol, xícara, casca, ladrilho, pêssego, miséria

e tocar outra vez
como no Dia Primeiro
algo dos nomes
que vibre.

***

CANTO DE DISSOLUÇÃO
Sepultadas no tempo
deitam-se as coisas todas,
que já nem coisas são,
mas memória de coisas.

Sepultados no tempo
afundam-se os rostos
todos, ou quase todos,
e as datas, risos, gostos.

Sepultadas no tempo
jazem as nossas vidas,
num tempo em que não são
nem gozo nem ferida.

Sepultados, enfim,
no tempo, todos nós.

Onde não há nem feito,
nem pessoa, nem voz.

***

MANHÃ
a –
Notícias da manhã
informam que o tempo, de
fato, passou,
e que a noite foi só uma
de fato.

b –
O dorso arrebentado do sol,
surge o dia.

c –
A manhã ruge
nos dentes das árvores.

*

Matheus Guménin Barreto (1992- ) é poeta e tradutor de Cuiabá (Brasil). Doutorando da Universidade de São Paulo (USP) na área de Língua e Literatura Alemãs – subárea tradução -, estudou também na Universidade de Heidelberg. Publicou traduções de Bertolt Brecht e Ingeborg Bachmann. Encontram-se poemas seus no Brasil e em Portugal (plaquete “Vozes, Versos”, Escamandro, Mallarmargens, Revista Germina, Enfermaria 6, Revista Escriva [PUC-RS], A Bacana e Diário de Cuiabá; entre outros), e integrou o Printemps Littéraire Brésilien 2018 na França e na Bélgica a convite da Universidade Sorbonne.
É autor dos livros de poemas A máquina de carregar nadas (7Letras, 2017) e Poemas em torno do chão & Primeiros poemas (Carlini & Caniato, 2018).

3 poemas inéditos de Matheus Guménin Barreto – Revista Pixé nº0 – 9.3.2019

(Fonte: https://www.revistapixe.com.br/ )

Quando morre o morto
isto é:
quando o que já é morte nas linhas futuras
morre no agora
e completa seu porquê

quando morre o morto
a relva de tudo engole seu baque
mudo
e de repente de repente o haver e
[o não haver
do morto
tornam-se matéria hipotética ::
alheios já à violência limpa que é existir.

*

é lícito um poema onde ecoem passos
de um único homem ou de sua sombra os passos?
é lícito o poema de uns pés descalços, limpos, sobre um
pátio ainda mais? lícito
que água ainda não convexa de toques nem
de rostos outros espelhados que um só rosto, que essa água
reste?
ecos, passos, sombras, pés descalços, toques?
é lícito que haja? é lícito que haja tão rara palavra:
lícito?

é lícito que haja o que haver em versos
como estes
se os tiroteios furam a pele de uma mãe de um pai de um filho e de um que não nasceu e não nascerá num canto escuro qualquer deste país que nem me digno a saber enquanto escrevo um poema sobre escrever um poema sobre um revólver calibre 38 que resolve anular o tempo?

*

O AMADO, MORNO, À MEIA-LUZ
O amado, morno, à meia-luz
febril, que toca o amado ereto;
aflito, esquiva-se da luz
o amado, morno, à meia-luz,
febris os dois, febris e nus.
Aflitos – se são descobertos
o amado, morno, à meia-luz
febril e o seu amado ereto!

***

Matheus Guménin Barreto (1992) é um poeta e tradutor brasileiro. Nascido em Cuiabá, é doutorando da USP. Estudou também na Universität Heidelberg. Traduziu Bertolt Brecht e Ingeborg Bachmann, e é autor dos livros de poemas A máquina de carregar nadas (2017, 7Letras) e Poemas em torno do chão & Primeiros poemas (2018, Carlini & Caniato – Coleção Olho d’Água). Foi publicado no Brasil e em Portugal (Escamandro, A Bacana, plaquete do “Vozes, Versos”, Enfermaria 6, Revista Escriva e Diário de Cuiabá; entre outros). É um dos editores do site cultural mato-grossense Ruído Manifesto e integrou o Printemps Littéraire Brésilien 2018 na França e na Bélgica a convite da Universidade Sorbonne.

“Rondó pederasta” – Revista Magma (DLCV-USP) – 28.12.2018

(Fonte: http://www.revistas.usp.br/magma/article/view/154421 )

Rondó pederasta
Virilha: morna e cheirando a vin-
ho e bocas:
ângulos duros, escuros
à espreita nas moitas, mais
ângulos duros entre as qu-
inas
da carne rubra,
o apontar-se do arpão da seta da espada da cr-
uz
do pênis
e as promessas pastoris no terreno de sua carne

os veios sem barco que os navegue
a espada sem braço que a empunhe
as moitas sem lobos que as espreitem —
eu barco eu braço eu lobo, enf-
im
sagro
o corpo do hom-
em
que submete-se ao homem outro e é
por ele sub-
metido.

Cinco poemas do livro “Poemas em torno do chão & Primeiros poemas” e um inédito de Matheus Guménin Barreto – Revista Oficina Irritada – 22.12.2018

(Fonte: https://oficinairritadarevista.blogspot.com/2018/12/poemas-em-torno-do-chao-um-poema.html )

O primeiro poema abaixo é inédito em livro, os demais estão no volume recém-lançado Poemas em torno do chão & Primeiros poemas (Carlini & Caniato, 2018).

***

 

[SEM TÍTULO]
arder a vida em palavras

medidas sombra por
sombra
duma mão noutra arder a vida
na geografia incerta da boca

que arde um instante e desce à terra.

arder a vida nos ecos

e nos corpos ora nacarados ora suados do
discurso que o lábio promete
nem sempre cumpre
e quando cumpre é sempre quase.

equidistante do fim e do início arder a vida

enquanto o corpo se desfaz devagar
com carinho quase
mas resoluto.

arder do verbo absoluto à procura

o verbo na sarça que se queima magnífico
e não existe.

arder a vida pruma bosta qualquer

que mal nasce já não existe ::

– arder a vida à procura dum sol pousado na mesa
dum dia de justiça entre irmãos
e descer à terra ciente – mas contente, resoluto –
de nada ter nas mãos.

*

5. PALMONES, 18XX
a)
cansados talvez os seus olhos
destas palmeiras
cansados
destas paredes brancas nuas gastas
de igreja cansados talvez os seus olhos
de ruminarem sobre os
lampejos de mar e
do labor seu de olhar a Ceuta no horizonte
próxima e distante
cansados talvez tenham se cansado os olhos seus
dos adeuses do mar sobre a areia
– que volta sempre, arrependido.

27-3-2017

*

6. OLEAJE
muro branco
onde os adeuses do mar se recolhem junto à sombra,
salgados e frescos.

27-3-2017

*

CUIABÁ/CHAPADA DOS GUIMARÃES
O vento professa à rocha
suas aulas do desfazer-se
de tudo no tempo. O vento
arranca, da rocha, a areia:

de grão em grão faz escola:
a rocha, no ensinamento,
é aluna: na lição dura
de nada durar no tempo.

Os rubros montes de areia
– Chapada dos Guimarães
em torno de Cuiabá –
aprendem suas lições.

Os montes de forma fraca
desfazem-se ante um ditado
do vento: de que o que o homem
ergueu, o que ele escancara,

esconde e derruba o tempo:
que aquilo que o braço monta
o sopro derrubará:
que aquilo que o sonho encontra

e o homem faz realidade
o tempo outra vez o acha
e torna outra vez em sonho
que ninguém mais sonhará.

Paciente labor do vento,
irmão mais novo do tempo,
que esculpe Chapada grão
por grão: apesar de lento,

certeiro é no seu trabalho:
que é muito apesar de pouco,
que é grande mesmo pequeno,
que é muitos trabalhos poucos.

Os montes têm nessa escola
lição de se desfazer:
que o pouco que faz o homem,
que o muito que o homem vê

apaga-se sobre a pedra
do tempo em geometrias
secretas ao despencar:
desfaz qual desfeito é um dia

na barra vermelho-roxa
da tarde, em seu é-não-é.
Aquilo que o homem faz,
aquilo que o homem vê,

aquilo que o homem cala,
aquilo que o homem diz,
aquilo que o homem prende
aquilo que o homem quis

aprende a lição que aprende
o monte, ao se desfazer.
O monte rubro-laranja:
quando ele iria dizer

do tempo o grande segredo,
a resposta que se espera —
despenca em areia branda
pra lá do que já não é.

O vento professa à rocha
suas aulas do desfazer-se
de tudo no tempo. O vento,
de régua em mãos, instrui: tempo.

27/06/2017

*

B – O SEXO DOS DOIS HOMENS
Na fresco-gruta
(refúgio)
concha do não mar fechada à luz despudorada
dois homens maquinam o presente
no corpo um do
outro
agudo o tempo presente
agudo e branco e musgoso e

então calma e nada –

ah — ir e vir da onda do mar
onda dum mar inexistente
por isso mais mar.

dois homens maquinaram o presente
(na baía um d’outro o maquinaram)
e não sabem agora onde pô-lo,
ariscos.

lá fora no céu rumina o boi um presente outro
comum e outro
alheio à maquinação do amor.

*

[SEM TÍTULO]
Aquilo que me sou não me é nunca.
Pensando o que serei no escasso espaço
de mim, não sei se penso e sou aquilo
ou se, pensando, passa o tempo e passo

– se passo e já não sou o que pensara,
nem o que penso agora e que já passa.
Não sei se algum momento embosco aquele
que vejo ou se descubro-me sua caça.

***

Matheus Guménin Barreto (1992, Cuiabá) é poeta e tradutor mato-grossense. Doutorando da Universidade de São Paulo (USP) na área de Língua e Literatura Alemãs, estudou também na Universidade de Heidelberg. Publicou traduções de Bertolt Brecht e Ingeborg Bachmann. Encontram-se poemas seus no Brasil e em Portugal, e integrou o Printemps Littéraire Brésilien 2018 na França e na Bélgica a convite da Universidade Sorbonne. É autor dos livros de poemas A máquina de carregar nadas (7Letras, 2017) e Poemas em torno do chão & Primeiros poemas (Carlini & Caniato, 2018).

“Um corpo incendiado: este” – Libertinagem: Revista de Literatura e Arte eróticas – 20.12.2018

(Fonte: http://revistalibertinagem.com.br/?fbclid=IwAR2uk81vJfgWpYM3Ak1Pwi6683uj8f7Jivy_gFOUdHuComKPtT-W1pZi0qs )

Excerto f – Um corpo incendiado: este
o amado que toca os pulsos mornos
de seu amado
e o braço e as mãos
tremulargênteas
e o rosto toca e o sexo
quente e afiado
o amado que toca os pulsos mornos
de seu amado
e sabe de repente o que é um ensolarado riso e
a noite antiquíssima que o olha
de volta.

*

o sexo
devir perpétuo: tempo enclausurado
o amado e seu amado inventam tempo,
corpo, febre
e o que medi-los

*

o mapa do corpo sob as mãos
desenhando itinerários bruscos
mornos
contornando bocas que não existem, mas que existirão
pés que não andaram, mas andarão
sexos que não se apontaram
mas que se apontam, agudos, sob o toque
devagar
como o encontro
de um trópico último com um último meridiano

os olhos nublados de algo que não se adivinha

o homem tem o homem nas mãos
e as mãos seguem seu cego itinerário provisório
apagado sempre pelo toque próximo e sombra e esquecimento –
apagado como a praia e o vento que a inaugura.

*

pulsos frescos de amor
alegres do arrear o amor e serem
por ele arreados.

*

a cegueira do homem que de seu corpo morno
soletra o corpo morno d’outro homem
os sinais as vírgulas
discursa entre duas bocas
e recita, extático e nu, a abrasada
violenta
poesia
que o corpo maquina na carne.

*

no beijo
o que há de elástico o que há de contrito
de adivinhado
o que há de inaudito talvez ou
quase ou sempre
entre o dizer de bocas mudas?
talvez tremeluza nos céus seus
mornos
a estrela da manhã
branda e inconstante
e nela se solucione um homem
como uma noite se soluciona em dia.

*

descobrir as palavras eu te amo

pesar na mão cada uma, medir
sua massa numa mão
n’outra
articular a língua os lábios dentes como
pela primeira vez
um homem o fez
um homem o fez a outro homem
testar o que abarca cada letra, o que deixa, o que fala
testar cada som e sombra que acaso fique
nas arestas do a, do e

descobrir as palavras eu te amo
e a violência que é usá-las.

***

Matheus Guménin Barreto (1992, Cuiabá) é poeta, tradutor e doutorando em teoria da tradução (FFLCH-USP). Publicou traduções de Bertolt Brecht e Ingeborg Bachmann. Em 2018 integrou o Printemps Littéraire Brésilien na França e na Bélgica a convite da Universidade Sorbonne. Publicou os livros A máquina de carregar nadas (7Letras, 2017) e Poemas em torno do chão & Primeiros poemas (Carlini & Caniato, 2018).

 

Cinco poemas do livro “Poemas em torno do chão & Primeiros poemas” de Matheus Guménin Barreto – Ruído Manifesto – 7.12.2018

(Fonte: http://ruidomanifesto.org/cinco-poemas-de-matheus-gumenin-barreto/ )

Os cinco poemas abaixo fazem parte do livro Poemas em torno do chão & Primeiros poemas (Carlini & Caniato, 2018), que será lançado em box da editora com outros 9 livros do modernismo e do período contemporâneo mato-grossenses. O lançamento acontece no dia 10/12/2018 na Casa Barão de Melgaço (Cuiabá) às 19h30.

A carta ao final da postagem foi escrita pelo poeta catarinense Marcelo Labes em 26 de abril de 2018 e o artigo sobre o poema “Cuiabá/Chapada dos Guimarães” foi escrito pela poeta Lucinda Nogueira Persona (e originalmente publicado no Diário de Cuiabá no dia 8 de julho de 2017).

***

3. El rumorear
(e entre os muros entre os ramos entre as fontes
por detrás do espelho
-d’água
rumoreja baixinho aquele sangue
derramado
além-mar)

26-3-2017

[da seção “Poemas espanhóis”]

*

6. Oleaje
muro branco
onde os adeuses do mar se recolhem junto à sombra,
salgados e frescos.

27-3-2017

[da seção “Poemas espanhóis”]

*

Cuiabá/Chapada dos Guimarães
O vento professa à rocha
suas aulas do desfazer-se
de tudo no tempo. O vento
arranca, da rocha, a areia:

de grão em grão faz escola:
a rocha, no ensinamento,
é aluna: na lição dura
de nada durar no tempo.

Os rubros montes de areia
– Chapada dos Guimarães
em torno de Cuiabá –
aprendem suas lições.

Os montes de forma fraca
desfazem-se ante um ditado
do vento: de que o que o homem
ergueu, o que ele escancara,

esconde e derruba o tempo:
que aquilo que o braço monta
o sopro derrubará:
que aquilo que o sonho encontra

e o homem faz realidade
o tempo outra vez o acha
e torna outra vez em sonho
que ninguém mais sonhará.

Paciente labor do vento,
irmão mais novo do tempo,
que esculpe Chapada grão
por grão: apesar de lento,

certeiro é no seu trabalho:
que é muito apesar de pouco,
que é grande mesmo pequeno,
que é muitos trabalhos poucos.

Os montes têm nessa escola
lição de se desfazer:
que o pouco que faz o homem,
que o muito que o homem vê

apaga-se sobre a pedra
do tempo em geometrias
secretas ao despencar:
desfaz qual desfeito é um dia

na barra vermelho-roxa
da tarde, em seu é-não-é.
Aquilo que o homem faz,
aquilo que o homem vê,

aquilo que o homem cala,
aquilo que o homem diz,
aquilo que o homem prende
aquilo que o homem quis

aprende a lição que aprende
o monte, ao se desfazer.
O monte rubro-laranja:
quando ele iria dizer

do tempo o grande segredo,
a resposta que se espera —
despenca em areia branda
pra lá do que já não é.

O vento professa à rocha
suas aulas do desfazer-se
de tudo no tempo. O vento,
de régua em mãos, instrui: tempo.

27/06/2017

[da seção de mesmo nome]

*

d – Fora da casa: as ruas de Cuiabá  
Os cacos da luz mastigados
pelo sol
as arestas e as linhas retas e os ângulos
claros
claros como a clara do ovo claros
como a espuma dos mares claros
como a quina do último quarto onde o amor se fará, no último dia do tempo:

cuia-
bá suas forjas visíveis
onde o ferreiro o ferreiro faz suas lâminas de
luz
e as refaz, todos os dias

onde cada aresta é a não-aresta,
a pino,
e o sol come folhas das nossas mãos.

[do poema narrativo homoerótico “Cuiabá”]

*

Desassossego
b)
Dedos que aquecem-se à chama
morna da sarça dos dias,
confusos de si e da chama.
Confusos do que os chama
– que deus ‘inda os chamaria?
Nenhum. E arde o tempo em frente
e ardendo forma-se sempre
da parte de si que ardia.

[da seção “O não chão”]

*

Uma carta

Texto escrito e enviado de Florianópolis pelo poeta Marcelo Labes no dia 26 de abril de 2018.

Neno querido,

tu me colocas numa situação confortável e estranha quando me envias teus poemas. Pedi para que me contextualizasses a fim de eu saber quando e como. E a minha surpresa ao saber que esses poemas do “O não chão” são de agora. Então me explico para te falar de conforto e estranheza.

O conforto surge ao ler um poeta maior. Digo isso porque nós, poetas menores, não só não nos acostumamos à forma como nos limitamos aos conteúdos menores, de poetas menores. Por quê? Ora, certamente porque há um cuidado – e já falei disso antes – no que escrever. Um cuidado cirúrgico, quase. Um olhar minucioso sobre o poema. Uma lapidação que não nos mostra a pedra como veríamos numa vitrine, não. É um formato novo, ainda que antigo: é um formato todo teu, Matheus.

Sobre a estranheza, acho que me alongo.

Vejo isso em “O não chão” como vejo em teus primeiros. Há um conflito latente ali. Não sei se identifico o que me aparece, mas talvez seja um duelo entre uma forma antiga – ou uma recordação de formato – , e uma linguagem que comunica e não esconde nada. Se no chiaroscuro temos as sombras, onde nem tudo é visível e, o que é, muitas vezes é disforme, teus poemas não deixam um lado vazio: eles mostram, pelo contrário, luz e sombra do humano, do sujeito este, de carne e osso, com a alma confusa, como geralmente somos.

A propósito, retorno ao tema do poeta maior. Porque para além da lapidação, há outro olhar (com lupa?, com telescópio?, microscópio?, com o quê?) que nos desnuda a todos pela tua palavra. Ora, que isso se deve ao ofício de poeta. Mas assim, Matheus, assim o ofício se cumpre tão inteiramente que não chega a haver um outro lado do poema. Se nessa intenção barroca, se naquela intenção juvenil de “Primeiros poemas”, tanto faz: há ali um todo espantoso, uma completude alcançada com as palavras e, nelas, com a tua humanidade – que não é a nossa humanidade, é outra coisa, é além – que me faz parar e me diminuir diante de teus poemas.

Sinto-me contemplado. Sinto-me enxergado. Sinto-me desafiado a tratar a língua com mais respeito e destreza.

Se não dissesse ali serem essa a tua juvenília, pensaria ser os poemas de antes de ontem. E são, de certa forma, porque imagino que aí, como aqui, o tempo é um brinquedo com o qual nos divertimos.

Teus poemas são bálsamo. E se já disse isso, repito agora com mais força: teus poemas são bálsamo.

E eu, e nós, humanos sem cura, nós te precisamos.

Beijo grande.

Saudade.

Marcelo

Marcelo Labes: poeta catarinense, autor de Enclave (Editora Patuá, 2018), Trapaça (Oito e Meio, 2016), O filho da empregada (Antítese, Hemisfério Sul, 2016), Porque sim não é resposta (Antítese, Hemisfério Sul, 2015) e Falações (EdiFurb, 2008).

 

 *

 

Lições através do vento

Texto de Lucinda Nogueira Persona publicado no Diário de Cuiabá no dia 8 de julho de 2017 junto ao poema “Cuiabá/Chapada dos Guimarães”.

A paisagem nasce na luz do olhar e representa um desafio à sensibilidade. Algumas vezes (senão todas) causa tamanho fascínio ou inquietação, ao ponto de levar o espírito às mais variadas expressões, principalmente na arte, dentre as quais a poesia responde com absoluta presteza.

É o que se observa no poema “Cuiabá/Chapada dos Guimarães”, de Matheus Guménin Barreto, sendo posto a serviço do leitor. No referido poema, o jovem autor trabalha com comarcas imanentes da existência: a passagem do tempo, os sonhos, as transformações, a morte. Sua visão particular recai sobre um patrimônio natural, um clássico comovente da geomorfologia mato-grossense, aquele que emoldurando o horizonte quando se olha de Cuiabá, traz a ideia de um lugar que não se pode deixar de conhecer.

Trata-se da extensa área de planalto, o relevo da Chapada dos Guimarães, com grandes encostas e escarpas de arenito vermelho, soerguidas a 600 ou 800 metros de altitude. Entretanto, isso ecoa como informação de uma aula um tanto comedida, padronizada. E esta não é a perspectiva do poeta, já nos versos iniciais: “O vento professa à rocha / suas aulas do desfazer-se / de tudo no tempo. O vento / arranca, da rocha, a areia”.

Matheus Guménin nos fala em termos de uma lição mais extensa, prática e fabulosa, na qual o professor é alguém que não para nunca, em milhares de anos de aulas diárias; a aluna é empedernida, conformada em seu torpor mineral e a sala de aula, nada convencional, está a céu aberto, sobre um chão cujo evento geológico mais recente (e que lhe deu a face atual) remonta a 15 milhões de anos. Desse chão emergem rochas varridas pelo vento. E o vento, de onde quer que venha, intenso ou não, dia a dia faz seu trabalho na pedra, que se perde como areia. Assim, a paisagem surge com força impositiva na argamassa do poema, onde as partes de um cenário colossal são evocadas para a tradução de uma experiência vinculada aos efeitos do tempo sobre as coisas e os seres.

Vários elementos podem ser apontados nas considerações de um dado poema, mas aqui, na sólida construção de 15 estrofes de Matheus Guménin, o grato parâmetro é a fração da natureza absorvida pelo olhar. Construindo o poema a partir da desconstrução das rochas pelo vento, o poeta revela um pouco daquilo que pensa, sente e acredita ser o mundo, a vida e a linguagem. Emoção e razão se contrabalançam em suas mãos e a forma adotada faz vislumbrar certa filiação ao universo cabralino. Ao longo do poema, o autor elege e agrega alguns signos (escola, lição, pedra) que nos remetem de algum modo ao “A educação pela pedra” de João Cabral de Melo Neto.

Na elaboração de Matheus Guménin, o sujeito poético se posiciona fora dos eventos que descreve, mas não deixa de estar diante do mundo, diante da vida e de si mesmo, como vítima da experiência. Uma experiência repassada para todos aqueles cujo apetite pelas transcendências seja inesgotável.

Lucinda Nogueira Persona: poeta, ficcionista, cronista, ocupa a cadeira nº 4 da Academia Mato-grossense de Letras. Graduada em Biologia (UFMT), Mestre em Histologia e Embriologia (UFRJ), com estágios profissionais na Universidade do Chile. Professora aposentada (UFMT / UNIC). Livros publicados (Poesia): Por imenso gosto (Massao Ohno, 1995), Ser cotidiano (7Letras, 1998), Sopa Escaldante (7Letras, 2001), Leito de Acaso (7Letras, 2004), Tempo comum (7Letras, 2009), Entre uma noite e outra (Entrelinhas, 2014).

Quatro poemas do livro “A máquina de carregar nadas” de Matheus Guménin Barreto – Revista Primata – 22.11.2018

(Fonte: http://www.poesiaprimata.com/matheus-gumenin-barreto/matheus-gumenin-barreto-a-maquina-de-carregar-nadas-2017/ )

 

Matheus Guménin Barreto (1992, Cuiabá) é poeta, tradutor e doutorando em teoria da tradução (FFLCH-USP). Publicou traduções de Bertolt Brecht e Ingeborg Bachmann. Em 2018 integrou o Printemps Littéraire Brésilien na França e na Bélgica a convite da Universidade Sorbonne. Publicou os livros A máquina de carregar nadas (7Letras, 2017) e Poemas em torno do chão & Primeiros poemas (Carlini & Caniato, 2018).

Os poemas a seguir foram selecionados do livro A máquina de carregar nadas (7Letras, 2017).

 

*

 

PRIMEIRO

O toque mesmo nas coisas
para lembrar as mãos da
arquitetura limpa daquilo
que o mundo gestou.

A mão limpa, cartesiana, reta
pelas coisas
para tirar o pó sobre os nomes

sol, xícara, casca, ladrilho, pêssego, miséria

e tocar outra vez
como no Dia Primeiro
algo dos nomes
que vibre.

 

 

CANTO DE DISSOLUÇÃO

Sepultadas no tempo
deitam-se as coisas todas,
que já nem coisas são,
mas memória de coisas.

Sepultados no tempo
afundam-se os rostos
todos, ou quase todos,
e as datas, risos, gostos.

Sepultadas no tempo
jazem as nossas vidas,
num tempo em que não são
nem gozo nem ferida.

Sepultados, enfim,
no tempo, todos nós.

Onde não há nem feito,
nem pessoa, nem voz.

 

 

POEMA DO AMADO PARA SEU AMADO

“Penteei-me para o rei
Mas foi ao escravo que dei as tranças do meu cabelo”
– Ana Paula Tavares, Manual para amantes desesperados, 2007.

 

a)
os dentes
teus amanhecem quando me veem
e compreendo
o inerte ofício das pedras
– plenas completas alegres.

 

b)
a voz amanhece na tua boca
ilumina: da garganta
ruminando o que não fora dito,
inaudito, e o que se ficou por dizer

pois

a voz amanhece na tua boca
e o contorno do sol posto
fica pregado
fica pregado
nas pálpebras

fechadas de pôr do sol

 

c)
e tua boca anoitece
quando o silêncio pousa e faz ninho nos teus lábios

até que
então nasce outra vez
o sol
da tua garganta áspera
raia outra vez, já à espera paciente
da hora de se pôr

flor
que anoitece

– e o eclipse do corpo meu
é violento

 

 

INÚTIL

Inútil
inútil o gesto o plexo o beijo
inútil o desejo e o não-desejo
[igualmente
Inútil inútil o salto e a pausa
Inútil a mão no ombro alheio
[e próprio

Inútil soberanamente inútil
o gesto o plexo o beijo
nas campinas afiadas de verde
nas geometrias escuras da mente

e essa vontade de amar.

“Dez poemas de Matheus Guménin Barreto” – Revista Germina – 22.9.2018

(Fonte: http://www.germinaliteratura.com.br/2018/matheus_gumenin_barreto.htm )

 

PRIMEIRO

O toque mesmo nas coisas
para lembrar as mãos da
arquitetura limpa daquilo
que o mundo gestou.

A mão limpa, cartesiana, reta
pelas coisas
para tirar o pó sobre os nomes

sol, xícara, casca, ladrilho, pêssego, miséria

e tocar outra vez
como no Dia Primeiro
algo dos nomes
que vibre.

*

CANTO DE DISSOLUÇÃO

Sepultadas no tempo
deitam-se as coisas todas,
que já nem coisas são,
mas memória de coisas.

Sepultados no tempo
afundam-se os rostos
todos, ou quase todos,
e as datas, risos, gostos.

Sepultadas no tempo
jazem as nossas vidas,
num tempo em que não são
nem gozo nem ferida.

Sepultados, enfim,
no tempo, todos nós.

Onde não há nem feito,
nem pessoa, nem voz.

*

MANHÃ

a –

Notícias da manhã
informam que o tempo, de
fato, passou,
e que a noite foi só uma
de fato.

b –

O dorso arrebentado do sol,
surge o dia.

c –

A manhã ruge
nos dentes das árvores.

*

POEMA DO AMADO PARA SEU AMADO

“Penteei-me para o rei
Mas foi ao escravo que dei as tranças do meu cabelo”
– Ana Paula Tavares, Manual para amantes desesperados, 2007.

a)

os dentes
teus amanhecem quando me veem
e compreendo
o inerte ofício das pedras
– plenas completas alegres.

b)

a voz amanhece na tua boca
ilumina: da garganta
ruminando o que não fora dito,
inaudito, e o que se ficou por dizer

pois

a voz amanhece na tua boca
e o contorno do sol posto
fica pregado
fica pregado
nas pálpebras

fechadas de pôr do sol

c)

e tua boca anoitece
quando o silêncio pousa e faz ninho nos teus lábios

até que
então nasce outra vez
o sol
da tua garganta áspera
raia outra vez, já à espera paciente
da hora de se pôr

flor
que anoitece

– e o eclipse do corpo meu
é violento

*

POEMA AMARELO

a faca tem de ser eloquente
e falar sabendo o porquê

e falar o discurso de chaga
ferida
na carne que a faca lê

*

POEMA EXTREMO

Pega na mão a pedra
pega na mão a cadeira
pega na mão o pão
mesa escada copo d’água
pega
puxa pro lado
e descobre ali

a poesia.

*

O NULO POETA/EMA

quando hutus exterminaram tutsis
quando hutus exterminaram tutsis
quando hutus exterminaram tutsis
quando tutsis exterminaram tutsis

.

e quando o poeta escreve
[quando tutsis exterminaram tutsis
pecado
pecado
pelo pecado pelo pec-
ado
peca/do
pecado de não saber o que são tutsis
tutsis o que são
o que são tutsis
quem são
hutus
o que
exterminaram
tutsis
e procura onde fica Ruanda
Ruanda¿
e chora de não saber onde fica
onde fica
exterminaram tutsis
Ruanda

– a maioria a golpes de facão.

*

INÚTIL

Inútil
inútil o gesto o plexo o beijo
inútil o desejo e o não-desejo
[igualmente
Inútil inútil o salto e a pausa
Inútil a mão no ombro alheio
[e próprio

Inútil soberanamente inútil
o gesto o plexo o beijo
nas campinas afiadas de verde
nas geometrias escuras da mente

e essa vontade de amar.

*

O LÁPIS DESCANSADO

O lápis a descansar
no colo da mesa branca.
Que arquiteturas, que riscos,
que abismos, que céu se tranca

ao longo do lápis longo
parado, imóvel, preto?
O anúncio de qualquer coisa
entre a mente e o peito.

Que coisas já guarda o lápis?
Guarda o que vem-lhe através?
Só guarda o suave das mãos,
ou o áspero dos pés?

O pé guarda acaso as linhas
das geografias e mapas?
Guarda. E, em as guardando todas:
o que és, de ti não escapa.

Sabe o que o lápis encerra
em si, na madeira morta?
Sabe, e mais sabe o lápis
aquilo que o homem ignora.

O que é que o lápis contém
do que ainda nem foi feito?
O anúncio de qualquer coisa
entre a mente e o peito.

*

UMA ARQUITETURA DA CONCHA
“Para aquele que deu a concha”

1.
Que esta concha entre os dedos recolha
e decante em silêncios a voz
agitada em trovões – mar o crânio –,
que a decante e que a anule depois.

2.
Que recolha entre os vórtices secos
todo o eco dos mares confusos,
que o recolha e decante em silêncios
e apascente o traçado dos fusos.

3.
Que esta concha entre os dedos anule
o que dentro de alguém é loucura.
Que ela guarde, meu Deus, da loucura,
que é o que acha quem muito procura.

4.
Que estas conchas recolham do fundo
já sem fundo das curvas do mar
o olhar tão cansado do homem

– e o devolvam depois, pra guiar.

“Sete poemas de Matheus Guménin Barreto” – Revista A Bacana / Portugal – 17.9.2018

(Fonte: http://www.abacana.com/oficial/sete-poemas-de-matheus-gumenin-barreto )

 

Primeiro

O toque mesmo nas coisas
para lembrar as mãos da
arquitetura limpa daquilo
que o mundo gestou.

A mão limpa, cartesiana, reta
pelas coisas
para tirar o pó sobre os nomes

sol, xícara, casca, ladrilho, pêssego, miséria

e tocar outra vez
como no Dia Primeiro
algo dos nomes
que vibre.

*

Aquilo que me sou não me é nunca.
Pensando o que serei no escasso espaço
de mim, não sei se penso e sou aquilo
ou se, pensando, passa o tempo e passo

– se passo e já não sou o que pensara,
nem o que penso agora e que já passa.
Não sei se algum momento embosco aquele
que vejo ou se descubro-me sua caça.

*

o amado que toca os pulsos mornos
de seu amado
e o braço e as mãos
tremulargênteas
e o rosto toca e o sexo
quente e afiado
o amado que toca os pulsos mornos
de seu amado
e sabe de repente o que é um ensolarado riso e
a noite antiquíssima que o olha
de volta.

*

descobrir as palavras eu te amo

pesar na mão cada uma, medir
sua massa numa mão
n’outra
articular a língua os lábios dentes como
pela primeira vez
um homem o fez
um homem o fez a outro homem
testar o que abarca cada letra, o que deixa, o que fala
testar cada som e sombra que acaso fique
nas arestas do a, do e

descobrir as palavras eu te amo
e a violência que é usá-las.

*

é lícito um poema onde ecoem passos
de um único homem ou de sua sombra os passos?
é lícito o poema de uns pés descalços, limpos, sobre um
pátio ainda mais? lícito
que água ainda não convexa de toques nem
de rostos outros espelhados que um só rosto, que essa água
reste?
ecos, passos, sombras, pés descalços, toques?
é lícito que haja? é lícito que haja tão rara palavra:
lícito?

é lícito que haja o que haver em versos
como estes
se os tiroteios furam a pele de uma mãe de um pai de um filho e de um que não nasceu e não nascerá num canto escuro qualquer desse país que nem me digno a saber enquanto escrevo um poema sobre escrever um poema sobre um revólver calibre 38 que resolve anular o tempo?

*

mãos que levantaram-se e caíram
no fluir inadiável do tempo
e dia por dia ano por ano escavaram o tempo
até aqui chegarem
a estas minhas mãos morenas sob este céu transparente
sobre este teclado

mãos que levantaram-se e caíram
nos afazeres
e no fazer do tempo
que ele é por elas feito e elas por ele
engolidas

o trabalho comum que é o tempo
esta conta de vidro
mão por mão gesto por gesto
feito e abandonado como as ondas consecutivas na praia
como o fio que se tece só em parte
tempo

– minhas mãos aquelas também
sob estas.

*

Canto de dissolução

Sepultadas no tempo
deitam-se as coisas todas,
que já nem coisas são,
mas memória de coisas.

Sepultados no tempo
afundam-se os rostos
todos, ou quase todos,
e as datas, risos, gostos.

Sepultadas no tempo
jazem as nossas vidas,
num tempo em que não são
nem gozo nem ferida.

Sepultados, enfim,
no tempo, todos nós.

Onde não há nem feito,
nem pessoa, nem voz.

“Dez poemas de Matheus Guménin Barreto – Revista InComunidade / Portugal – 5.2018

(Fonte: http://www.incomunidade.com/v68/art_bl.php?art=192 )

 

POESIA

Ou fruto apenas entre os dentes
prestes prestes prestes a romper-se.

*

POEMA AMARELO

a faca tem de ser eloquente
e falar sabendo o porquê

e falar o discurso de chaga
ferida
na carne que a faca lê

*

EQUAÇÕES MATEMÁTICAS

1)
na curva, na nuance encontrei Deus
no limpo da linha reta o perdi

2)
quando se escuta o marulho da noite
e as coisas ganham contorno insuspeito
a geometria do silêncio aflora
e a vida vale

3)
o silêncio anterior
ao construto da fala no lábio

4)
não diz
se sabe que o dito não condiz
com o que se queria dito
e,
dito,
é outro dito no ouvido que o apascenta.

*

POEMA DO AMADO PARA SEU AMADO

“Penteei-me para o rei
Mas foi ao escravo que dei as tranças do meu
cabelo”
– Ana Paula Tavares, Manual para amantes
desesperados, 2007.

a)
os dentes
teus amanhecem quando me veem
e compreendo
o inerte ofício das pedras
– plenas completas alegres.

b)
a voz amanhece na tua boca
ilumina: da garganta
ruminando o que não fora dito,
inaudito, e o que se ficou por dizer

pois

a voz amanhece na tua boca
e o contorno do sol posto
fica pregado
fica pregado
nas pálpebras

fechadas de pôr do sol

c)
e tua boca anoitece
quando o silêncio pousa e faz ninho nos teus lábios

até que
então nasce outra vez
o sol
da tua garganta áspera
raia outra vez, já à espera paciente
da hora de se pôr

flor
que anoitece

– e o eclipse do corpo meu
é violento

*

O NULO POETA/EMA

quando hutus exterminaram tutsis
quando hutus exterminaram tutsis
quando hutus exterminaram tutsis
quando tutsis exterminaram tutsis

.

e quando o poeta escreve
[quando tutsis exterminaram tutsis
pecado
pecado
pelo pecado pelo pec-
ado
peca/do
pecado de não saber o que são tutsis
tutsis o que são
o que são tutsis
quem são
hutus
o que
exterminaram
tutsis
e procura onde fica Ruanda
Ruanda¿
e chora de não saber onde fica
onde fica
exterminaram tutsis
Ruanda

– a maioria a golpes de facão.

*

MANHÃ

a –
Notícias da manhã
informam que o tempo, de
fato, passou,
e que a noite foi só uma
de fato.

b –
O dorso arrebentado do sol,
surge o dia.

c –
A manhã ruge
nos dentes das árvores.

*

NESTE TEMPO

Neste tempo de horror
neste tempo
neste tempo sem tempo
de mãos crispadas e inverno nos dentes
de risos que não são
– só o amor que há é o dos bichos
e o das memórias frescas,
recém-cortadas.

*

MISSA DE 7º DIA

A cama que criam absoluta
porque carregou ali quem morria
e, morto, tomou posse
[do que
[a cama é

– essa cama foi batida
[ao sol,
[refrescada, posta
[ao craquelado
[da luz
[de algum quintal

e perdeu seu morto
como quem perde um tostão.

*

PARA O POEMA DESTA PÁGINA
“Dedicado a Matilde Campilho, que sem saber me ensinou.”

para o poema desta página:
a – abrir a janela mais próxima
b – faltando a janela, criar uma
c – ver: flor. ou muro. ou golfo. ou merda. ou um casal descobrindo o mapa-múndi no corpo um d’outro.
d – repetir os passos anteriores.

*

PENSAR QUE DORMEM TODOS

pensar pensar
pensar que todos deitam por baixo
da sombra do sono,
que dormem todos pensar que
o assassino o belo o tímido o
sagaz o corrupto o
miserável o tranquilo
dormem dormem deitam por baixo da
rede do sono
e dormem

pensar
nos seus rostos à meia-luz
entre os panos e o tear de silêncios
da noite
pensar
nessa estranha escura sem-querer
irmandade
entre os ——————–

pensar nos seus rostos
por baixo da sombra do sono
o peito respirando
a boca meio aberta
à meia-luz

pensar que dormem todos
irmãos

“Como escreve Matheus Guménin Barreto” – 9.7.2018

(Fonte: https://comoeuescrevo.com/matheus-gumenin-barreto/ )

*entrevista feita por José Nunes

 

 

Matheus Guménin Barreto é poeta e tradutor, autor do livro A máquina de carregar nadas.

 

Como você começa o seu dia? Você tem uma rotina matinal?

Para a escrita de poesia não tenho rotina.

Quanto ao resto, como a escrita de meu doutorado não exige horários fixos e como as aulas de alemão que dou são normalmente à tarde e à noite, não preciso acordar muito cedo – apesar de também não acordar absurdamente tarde (a não ser em dias excepcionais).

Tomo café ouvindo música. As minhas grandes paixões (muito maiores do que minha paixão por literatura) são música instrumental e ópera – apesar de, na verdade, antipatizar com boa parte das outras pessoas que também ouvem isso e que às vezes são bem esnobes. As pessoas têm um fetiche pela música “clássica” que não faz muito sentido – é só um tipo de música. Não exige (ou não deveria exigir) roupa especial, pose especial, carão especial. É só um tipo de música. De modo geral, por exemplo, acho os textos de ópera bem ruins, a música é o que salva. De qualquer forma, em 90% ou 95% do tempo que passo em casa escrevendo a tese, traduzindo, etc; é isso o que eu ouço. Nas últimas semanas as que mais ouvi de manhã foram a quarta de Brahms (com Carlos Kleiber) e o CD “The art of the prima donna” da Joan Sutherland (que começa com a maravilhosa “The soldier tir’d of war’s alarms”!). Às vezes, a quinta de Shostakovich (com Mravinsky – talvez Sanderling ou Rostropovich). Acho que me divirto escolhendo quase tanto quanto ouvindo.

O resto do dia (quando ou enquanto não preciso sair de casa) passo fazendo minhas obrigações enquanto ouço essas gravações. Tento sair o mínimo possível, não gosto muito de sair de casa. Quase só saio para ir ao mercado e dar aulas.

Em que hora do dia você sente que trabalha melhor? Você tem algum ritual de preparação para a escrita?

Acho que o meu melhor horário para a escrita é o da tarde. Não tenho um ritual de preparação para a escrita porque eu raramente decido escrever. Se escrevi três ou quatro poemas na vida por ter decidido escrevê-los foi muito. O ato da escrita não está sob meu controle, então tento simplesmente ter as ferramentas sempre afiadas: a percepção, a atenção, o cuidado com esse bicho arisco que é a palavra. Faço isso lendo bastante (acho que desde os 14 ou 15 anos não tenho espaços vazios entre um livro e outro – quando termino um livro já tenho o seguinte à mão) e conversando com ou ouvindo a conversa de outras pessoas (gosto muito de falar ao telefone [para horror dos meus amigos] e de prestar atenção às conversas alheias quando saio de casa). Leio pouquíssima teoria e muita ficção.

Quando as ferramentas estão afiadas, fica mais fácil escrever caso o impulso venha (não sei de onde ou para onde). Se estou fora de casa escrevo numa caderneta que carrego sempre, se estou em casa escrevo no notepad, já que o Word pode alterar as palavras digitadas sem que notemos. Não tenho religião, então encaro esse impulso como algo simplesmente biológico.

Devo escrever cinco ou seis poemas por mês.

Você escreve um pouco todos os dias ou em períodos concentrados? Você tem uma meta de escrita diária?

Nem todos os dias, nem em períodos concentrados. Apesar de às vezes acontecer de eu escrever dois ou três poemas em um dia, o normal é que eu escreva apenas cinco ou seis por mês.

Como não dependo financeiramente da minha escrita, não coloco metas ou prazos. Já cheguei a ficar onze meses sem escrever (depois de terminar A máquina de carregar nadas) – imaginava até que não fosse escrever mais, o que não seria nenhum desastre. Acho que eu veria o fim da escrita, se ele viesse, como algo natural. Nada é fixo. O pianista canadense Glenn Gould dizia que não tinha nenhum amor especial pelo piano – simplesmente calhava de ele conseguir criar arte a partir daquele bloco de madeira. Digo o mesmo em relação à poesia: calhou de eu conseguir criar arte a partir desse corpo esquivo que é a língua, e não a partir do cinema, ou da natação ou do que seja.

Como é o seu processo de escrita? Uma vez que você compilou notas suficientes, é difícil começar? Como você se move da pesquisa para a escrita?

Normalmente os quatro ou cinco primeiros poemas de um livro vêm sem plano, sem direção. A partir da leitura desses primeiros poemas eu começo a delinear um projeto de livro que, pode-se dizer, impõe-se a mim mais do que é forçado por mim. Curiosamente esses primeiros são os que eu normalmente jogo fora depois – quase sempre eles são mais fracos do que os seguintes.

A partir desse projeto que delineio (ou que o poema delineia em mim), os poemas seguintes já vêm de modo mais direcionado, de um jeito mais alinhado às noções que tirei dos primeiros (ainda que seja para contradizê-los). É uma relação estranha. Se não soasse muito mirabolante eu diria que os próprios poemas ditam o livro ao qual pertencerão (mas aí me lembro que, se os poemas saem de mim, são parte do que sou, então todo traço espiritual se perde e tudo fica certo – no final das contas eu dito algo a mim por vias complicadas, e tudo se resolve assim).

Da mesma forma, em algum momento os poemas escritos começam a se diferenciar muito dos anteriores. Nessa hora sei que acabei um livro. Então salvo os poemas na ordem em que foram escritos e fico seis meses exatos sem lê-los (chego a marcar em uma agenda). Depois desse tempo eu começo a ler o livro e a cortar os poemas que me parecem fracos. Não tenho muita pena dos poemas – se achasse que preciso cortar todos, eu cortaria. A máquina de carregar nadas, por exemplo, deve ter só 15% ou 20% dos poemas que escrevi naquele período.

Enquanto releio e corto poemas, já vou criando uma estrutura para o livro (de modo geral, ela já fica clara assim que começo a leitura, como se ela, sem que eu percebesse, tivesse se feito durante o período de escrita [leia-se: como se eu tivesse mandado a mim mesmo uma mensagem oculta, um bilhete na garrafa]).

De modo geral, crio um tipo de narrativa na estrutura de meus livros – não separo os poemas apenas por temas nem por período de escrita. Depois da releitura, dos cortes e da estruturação, guardo o livro por mais algum tempo (essa parte é menos fixa: às vezes um mês, às vezes dois). Depois leio tudo mais uma vez e corto mais um pouco.

E aí o livro está pronto.

Como você lida com as travas da escrita, como a procrastinação, o medo de não corresponder às expectativas e a ansiedade de trabalhar em projetos longos?

Não me importo com as travas da escrita ou com a procrastinação, já que não dependo financeiramente de meus poemas. Pelo mesmo motivo, não tenho ansiedade de trabalhar em projetos longos. Acho que esses desvios também são importantes, talvez tanto quanto a escrita contínua.

Quanto às expectativas alheias, acho que elas também não são uma questão para mim. Depois das brincadeiras bestas de adolescência, eu acho que me tornei muito exigente comigo mesmo, exigente de um jeito maníaco, até. Por isso digo que A máquina de carregar nadas é meu primeiro livro – porque é o primeiro que me pareceu ter algum valor. Eu realmente seria capaz de cortar todos os poemas de um livro se eu não gostasse deles. Acho que o importante é que não faço questão de publicar livro nenhum, não faço questão de ser “escritor”, de ser “poeta”, tanto faz isso; se publico é porque gostei do resultado. Então se os poemas passam pelo processo que descrevi na resposta anterior (e A máquina de carregar nadas foi o primeiro a passar), e eu fico satisfeito com eles, já não me importo muito se as outras pessoas vão odiar ou adorar aquilo. É claro que prefiro que meus poemas causem sempre uma experiência estética forte nos leitores, mas essa infalibilidade não existe. Então se eu gosto do resultado eu já me sinto satisfeito, isso já me basta. Se as outras pessoas vão gostar ou não já importa pouco.

Quantas vezes você revisa seus textos antes de sentir que eles estão prontos? Você mostra seus trabalhos para outras pessoas antes de publicá-los?

Como comentei anteriormente, minhas revisões são quase maníacas. Raramente mostro poemas recentes, mas acontece sim.

Como é sua relação com a tecnologia? Você escreve seus primeiros rascunhos à mão ou no computador?

Tanto faz: escrevo numa caderneta se estou fora de casa, e no computador (no programa notepad) se estou em casa. Acho que a tecnologia tem um papel mais importante depois da escrita: a internet liga autores do país inteiro (e não só do país) de um modo que antigamente era inviável. É claro que há limites e falhas, já que as estruturas sociais acompanham e moldam as relações interpessoais tanto na internet quanto fora dela. Mesmo assim, acho que a situação seria (era) ainda pior sem a internet, principalmente para os autores de grupos sociais minoritários.

De onde vêm suas ideias? Há um conjunto de hábitos que você cultiva para se manter criativo?

Realmente não sei de onde vêm ou para onde vão minhas ideias. Do e para o corpo, talvez, já que não gosto de explicações “celestes”. Os hábitos eu comentei em respostas anteriores.

O que você acha que mudou no seu processo de escrita ao longo dos anos? O que você diria a si mesmo se pudesse voltar à escrita de seus primeiros poemas?

Aprendi a cortar e a não ter pena do texto. A limpar o texto, talvez (o que claramente não se aplica aos que não são poemas, vide as respostas erráticas que dei no início desta entrevista).

Se eu pudesse voltar à escrita de meus primeiros poemas eu diria a mim mesmo: corte, corte, corte, corte, corte.

Que projeto você gostaria de fazer, mas ainda não começou? Que livro você gostaria de ler e ele ainda não existe?

Eu sempre começo o projeto que gostaria de fazer (se vou terminá-lo ou não, aí já é outra história). Agora tenho dois livros prontos de poemas (um deles já na editora – ele se chama Poemas em torno do chão & Primeiros poemas e deve sair em Mato Grosso ainda em 2018 pela editora Carlini & Caniato), um escrito (mas que ainda não passou os seis meses guardado) e outros dois em processo de escrita. Esses cinco livros inéditos e o já publicado A máquina de carregar nadas são, por enquanto, aquilo que consigo colocar sob a expressão (um pouco pomposa demais, esnobe demais) “minha obra”.

O livro que eu gostaria de ler e que ainda não existe é sempre o livro que eu tento escrever no momento.

“Dois fragmentos de um poema” – Diário de Cuiabá – 7.7.2018

(Fonte: http://www.diariodecuiaba.com.br/detalhe.php?cod=516569 )

 

Dois fragmentos do poema longo (ainda em processo) intitulado “Cuiabá”: os fragmentos são “b – O sexo dos dois homens” & “c – Depois do sexo”.
Ambos estarão no livro Poemas em torno do chão (2018, Editora Carlini & Caniato, no prelo).

*

Na fresco-gruta
—————–(((refúgio)
concha do não mar fechada à luz despudorada
dois homens maquinam o presente
——————–no corpo um do
————————–outro
agudo o tempo presente
agudo e branco e musgoso e

então calma e nada –

 

 

 

ah – – – ir e vir da onda do mar
onda dum mar inexistente
por isso mais mar.

dois homens maquinaram o presente
(na baía um d’outro o maquinaram)
e não sabem agora onde pô-lo,
ariscos.

lá fora no céu rumina o boi um presente outro
comum e outro
alheio à maquinação do amor.

|
|
|

 

O que o amor
fermentou
o que o amor fermentou em peitos
debaixo da sombra fresca de umas casas
refúgio do boi-sol
– do boi-sol paciente e implacável
como no primeiro dia:

(que houve)

: o que o amor fermentou no peito dos homens
essa espuma mar nenhum já espirrou
mar nenhum
essa espuma que o amor fermentou no peito dos homens

mas envergonhados
mas envergonhados limpam eles a prenda dada
vestem seus panos
como se nada houvera, falam
e pisam nos domínios do sol
onde a sombra que viveram e foram
a deliciosa sombra

é engolida em geometrias de luz.

 

“Um corpo incendiado: este” – Revista Escamandro – 12.3.2018

(Fonte: https://escamandro.wordpress.com/2018/03/12/matheus-gumenin-barreto/ )

 

o amado que toca os pulsos mornos
de seu amado                                                                f – Um corpo incendiado: este
e o braço e as mãos
tremulargênteas
e o rosto toca e o sexo
quente e afiado
o amado que toca os pulsos mornos
de seu amado
e sabe de repente o que é um ensolarado riso e
a noite antiquíssima que o olha
de volta.

*

o sexo
devir perpétuo: tempo enclausurado
o amado e seu amado inventam o tempo,
o corpo e a febre
e o que medi-los

*

o mapa do corpo sob as mãos
desenhando itinerários bruscos
mornos
contornando bocas que não existem, mas que existirão
pés que não andaram, mas andarão
sexos que não se apontaram
mas que se apontam, agudos, sob o toque
devagar
como o encontro
de um trópico último com um último meridiano

os olhos nublados de algo que não se adivinha

o homem tem o homem nas mãos
e as mãos seguem seu cego itinerário provisório
apagado sempre pelo toque próximo e sombra e esquecimento –
apagado como a praia e o vento que a inaugura.

*

pulsos frescos de amor
alegres do arrear o amor e serem
por ele arreados.

*

a cegueira do homem que de seu corpo morno
soletra o corpo morno d’outro homem
os sinais as vírgulas
discursa entre duas bocas
e recita, extático e nu, a abrasada
violenta
poesia
que o corpo maquina na carne.

*

no beijo
o que há de elástico o que há de contrito
de adivinhado
o que há de inaudito talvez ou
quase ou sempre
entre o dizer de bocas mudas?
talvez tremeluza nos céus seus
mornos
a estrela da manhã
branda e inconstante
e nela se solucione um homem
como uma noite se soluciona em dia.

*

descobrir as palavras eu te amo

pesar na mão cada uma, medir
sua massa numa mão
n’outra
articular a língua os lábios dentes como
pela primeira vez
um homem o fez
um homem o fez a outro homem
testar o que abarca cada letra, o que deixa, o que fala
testar cada som e sombra que acaso fique
nas arestas do a, do e

descobrir as palavras eu te amo
e a violência que é usá-las.

10 poemas de ‘A máquina de carregar nadas” – Musa Rara – 31.1.2018

(Fonte: http://www.musarara.com.br/o-dorso-arrebentado-de-sol )

 

 

PRIMEIRO
O toque mesmo nas coisas
para lembrar as mãos da
arquitetura limpa daquilo
que o mundo gestou.

A mão limpa, cartesiana, reta
pelas coisas
para tirar o pó sobre os nomes

sol, xícara, casca, ladrilho, pêssego, miséria

e tocar outra vez
como no Dia Primeiro
algo dos nomes
que vibre.

*

MANHÃ
a –

Notícias da manhã
informam que o tempo, de
……………………………fato, passou,
e que a noite foi só uma
de fato.

 

b –

O dorso arrebentado do sol,
surge o dia.

 

c –

A manhã ruge
nos dentes das árvores.

*

CANTO DE DISSOLUÇÃO
Sepultadas no tempo
deitam-se as coisas todas,
que já nem coisas são,
mas memória de coisas.

Sepultados no tempo
afundam-se os rostos
todos, ou quase todos,
e as datas, risos, gostos.

Sepultadas no tempo
jazem as nossas vidas,
num tempo em que não são
nem gozo nem ferida.

Sepultados, enfim,
no tempo, todos nós.

Onde não há nem feito,
nem pessoa, nem voz.

*

CANTO APAZIGUADO
O que sobra das mãos são as sombras de gestos
que, já feitos, nos jazem nas mãos sepultados.

O que sobra de olhares: o breve relance
que, de breve, se perde entre o feito e o lembrado.

O que resta de risos são luzes de dentes
entrevistos por entre a cortina do lábio.

O que resta da vida é a vida que fica
e ficando é que parte ao eterno adiado.

*


“Dedicado a Wlademir Dias-Pino”

e surpreender-se
de
falar

se a gar-
ganta
já se
intui
inútil

quem quem quem
Deus
quem tem coragem de
de abrir
a boca
para ouvir outra coisa que o silêncio
para ouvir coisa que
o silêncio diz
……………………………………….[melhor

quem tem coragem
de
falar

sabendo sabendo
que a fala morre
antes de
passar
do porto
da língua

quem pode quem se lança a
quem tem coragem
de
falar

sabendo que a fala
resvala
e cai na quina do quarto
sem som

quem quem quem
quem
tem coragem de falar
e de ouvir o que
diz

quem então tem coragem
de
falar
quando vê, sabe, escuta
pressente
que o que se sente
não há onde se assente
no ouvido do outro

quem tem
coragem
de
falar

quando a fala
sabe
que sua única voz
verdadeira
é quando cala

*

POEMA AMARELO
a faca tem de ser eloquente
e falar sabendo o porquê

e falar o discurso de chaga
ferida
na carne que a faca lê

*

POEMA DO AMADO PARA SEU AMADO
“Penteei-me para o rei
Mas foi ao escravo que dei as tranças do meu cabelo”
– Ana Paula Tavares, Manual para amantes desesperados, 2007.

a)

os dentes
teus amanhecem quando me veem
e compreendo
o inerte ofício das pedras
– plenas completas alegres.

b)

a voz amanhece na tua boca
ilumina: da garganta
ruminando o que não fora dito,
inaudito, e o que se ficou por dizer

pois

a voz amanhece na tua boca
e o contorno do sol posto
fica pregado
fica pregado
nas pálpebras

fechadas de pôr do sol

 

c)
e tua boca anoitece
quando o silêncio pousa e faz ninho nos teus lábios

até que
então nasce outra vez
o sol
da tua garganta áspera
raia outra vez, já à espera paciente
da hora de se pôr

flor
que anoitece

– e o eclipse do corpo meu
é violento

*

POEMA EXTREMO
Pega na mão a pedra
pega na mão a cadeira
pega na mão o pão
mesa escada copo d’água
pega
puxa pro lado
…………………..e descobre ali

a poesia.

*

INÚTIL
Inútil
inútil o gesto o plexo o beijo
inútil o desejo e o não-desejo
………………..[igualmente
Inútil inútil o salto e a pausa
Inútil a mão no ombro alheio
………………………[e próprio

Inútil soberanamente inútil
o gesto o plexo o beijo
nas campinas afiadas de verde
nas geometrias escuras da mente

e essa vontade de amar.

.

[Todos os poemas acima são do livro A máquina de carregar nadas.]

 

Resenha de “A máquina de carregar nadas” – Lorenzo Falcão – 25.2.2018

*por Lorenzo Falcão.

(Fonte: http://www.tyrannusmelancholicus.com.br/conteudo.php?sid=311&cid=10531 )

25 de fevereiro de 2018

 

Quando leio ou assisto ficção tem um troço que me conquista. Se o autor do livro ou o diretor do filme me deixam assim meio à deriva, sinto que estou no caminho certo para gostar daquilo que experimento. (Claro que… porra-louquices à parte). É um pouco como se eu não entender, devo gostar. Mas não estou aqui pra falar disso.

Meu alvo é a poesia. Especificamente a do jovem cuiabano Matheus Guménin Barreto, nascido em 1992. Recebi seu livro “a máquina de carregar nadas” (7 letras) já tem um tempinho e precisava resenhar a obra. Já desconfiava que isso iria acontecer, mesmo sem conhecer bem o poeta.

O autor tem ou vai fazer 26 anos e, através da sua diversidade poética que ando experimentando, confirmo algo que sempre defendi. A erudição nunca é demais para um artista das letras. E nem para os criadores das outras artes. Só é necessário que eles não fiquem apenas trancafiados na seara acadêmica. O que é preciso e fundamental é não empoleirar-se na erudição, mas sim, descobrir um jeito de compartilhá-la com simplicidade. Ou não.

Correr trecho pelos sons e ruídos urbanos, brindar com a boemia intelectual, chafurdar-se pelo cadinho da dor da inquietação, enfim, são coisas que têm serventia para temperar a erudição. Matheus já mostra o domínio para estacionar palavras (poesia). Milita nos campos da tradução da língua germânica (uau); e essa coisarada toda reverbera na sua “máquina…”.

 

mat

 

Dizer que esse livro/máquina nada carrega e assim nominá-lo, acredito, faz parte de uma espécie de dessacralização da poesia. Ora, pois… Para quê dar tratamento sagrado ao verso, se vivenciamos uma contemporaneidade, na qual, aquilo que deveria ser a essência do sacrossanto – a religião, se torna território gerador de intolerâncias, quando não, de ódio. E depois, certamente, sacralizar, tem a ver com cercear a liberdade (que merda).

Comecei a ler seu livro bastante aleatoriamente e fui percebendo que ele pratica o calvário do bom poeta. Apropria-se dos mais variados temas e os explora com sagacidade e coerência, embora, nada contra a incoerência, de minha parte. Para obter o que há de melhor em sua poesia, não requer erudição ao leitor. Mas, se assim o for, mais e melhores resultados os versos de Guménin vão provocar sobre as retinas, por mais fatigadas que elas sejam.

Após ter dado conta de praticamente todos os poemas (seria melhor dizer páginas, talvez) dessa “máquina…” que finge carregar nadas, finalmente, dei uma “orelhada”. Li o que escreveu sobre a obra o Bruno Rosa e… pasmei. Acho que deve me faltar alguma experiência acadêmica, talvez, a tal da literatura comparada. Bruno associa o fazer poético de Barreto, em diferentes etapas, com Drummond, Cabral, Gullar. Não duvido que certo esteja o autor da orelha.

Mas, me veio à lembrança, um comentário do velho Ricardo Dicke, a respeito do meu livro de contos, “Motel Sorriso”. Disse ele que percebeu em meus contos semelhanças a Machado, Joyce e até Guimarães Rosa. Quando ouvi isso fiquei felicíssimo, porém, ele fez o que devia: cortou o meu barato: “Não, Lorenzo… você deve procurar o seu próprio caminho e encontrar seu estilo”.

 

mat

 

O conselho do Dicke, serve, pois, para o Matheus. Não que ele esteja na beira desses autores citados na orelha, e já confessei que não percebi isso. É importante que o jovem poeta cuiabano reflita sobre tais possibilidades e aposte na sua liberdade criativa, que ele seja ousado e desbunde, que ele se provoque nesse sentido. Estou, agorinha mesmo, a duvidar que ele não vá além numa próxima publicação. Algo que venha a “fechar” com a cara de todos nós, poetas cuiabanos, que precisamos também dessa provocação.

Matheus, acredito, pela pouca idade (nasceu em 1992), e também pela qualidade da sua poesia, me parece uma das melhores novidades na literatura produzida por um mato-grossense, seja de nascença ou por adoção, neste ainda começo de século.

Paris

E pouco antes de fechar este texto, eis que descubro em meu mail, a informação de que ele está arrumando as malas rumo a Paris onde, a partir de 14 de março, participa do evento Printemps Littéraire Brésilien (Primavera Literária Brasileira) organizado pela Universidade Sorbonne e levado à França, à Bélgica, à Alemanha, a Luxemburgo e aos Estudos Unidos.

O poeta cuiabano compõe um seleto grupo de escritores ao lado de nomes como Adriana Calcanhotto, Adelaide Ivánova, Julián Fuks, Aline Bei, Caio Augusto Leite, Carola Saavedra, Natalia Borges Polesso, entre outros.

 

mat

 

 

 

O poema na voz do poeta – Matheus Guménin Barreto – Literatura & Fechadura – 4.3.2018

(Fonte: http://www.literaturaefechadura.com.br/2018/03/04/o-poema-na-voz-do-poeta-matheus-gumenin-barreto/ )

Vídeo no link acima.

 

PRIMEIRO

O toque mesmo nas coisas
para lembrar as mãos da
arquitetura limpa daquilo
que o mundo gestou.

A mão limpa, cartesiana, reta
pelas coisas
para tirar o pó sobre os nomes

sol, xícara, casca, ladrilho, pêssego, miséria

e tocar outra vez
como no Dia Primeiro
algo dos nomes
que vibre.

Um poema rompe o branco – Caio Augusto Leite – 1.10.2017

*por Caio Augusto Leite

(Fonte: http://www.mallarmargens.com/2018/02/caio-augusto-leite-resenha-um-poema-de.html)

1 de outubro de 2017, São Paulo

Em dado momento de seu Água viva, Clarice Lispector escreve “Mas já que se há de escrever, que ao menos não se esmaguem com palavras as entrelinhas”.  A temática, obviamente, não é nova, Mallarmé já radicalizara ao usar a página em branco, esgotando – momentaneamente – a expressão. E falar de Mallarmé aqui é plenamente justificável ao lembrarmos que o poema em questão surge, no livro, depois de uma sequência de páginas também em branco.

Que poema, agora se perguntam os leitores flagrando uma falha nessa tentativa de crítica. É que o próprio texto permite que o crítico jogue com a expressão, usando das mesmas armas para tentar dar conta do que o poema anuncia como eterna insuficiência. É que nunca é possível falar da coisa sem ser abrupto, pois é também assim – abruptamente – que começa o poema “: “e surpreender-se/de/falar”. O uso da conjunção aditiva “e” em letra minúscula promove uma sensação de estranhamento, como se o discurso já estivesse em andamento. Ao olharmos para o livro, veremos que este “e” se conecta com o branco da página ao lado, como se a fala antes em potência (adiada pelas páginas vazias) quebrasse de repente o silêncio insuportável no qual o poeta se instalara.

E o poeta fala, mesmo sabendo que “a gar-/ganta/já se/ intui/ inútil”. E essa fala é ao mesmo tempo voz e silêncio contido, pois através do corpo da palavra que diz é que o poeta também a sufoca ao cortar, simbolicamente, a própria garganta ao meio “gar-/ganta”.

Só agora entra a tópica clariciana apontada no início: “quem quem quem/ Deus/ quem tem coragem de/ de abrir/ a boca/ para ouvir outra coisa que o silêncio/ para ouvir coisa que/ o silêncio diz/ melhor”.  Aqui – e nas seguintes estrofes que contêm a palavra “quem” – instaura-se uma ambiguidade, uma vez que se usa a estrutura interrogativa sem no entanto empregar o ponto de interrogação, tornando essas frases ao mesmo tempo perguntas (intuitivamente) e afirmações (textualmente). A frase pergunta “quem tem coragem[?]” e a frase a si mesma se responde “quem tem coragem” retomando outra passagem de Lispector (de A paixão segundo G.H.): “a explicação de um enigma é a repetição do enigma. O que És? e a resposta é: És”. Ou ainda biblicamente: “quem, Deus?” em “Quem? Deus” – “Eu sou o que sou” responde o Criador a Moisés, não constituindo um pleonasmo e sim uma transformação do verbo “ser” em ação, sendo Deus aquele que continuamente é. O poema é aquele que continuamente permanece sendo o que é: ao mesmo tempo enigma e solução.

E quem tem coragem é este mesmo que pergunta, o próprio poema que rompeu o branco e que  – mesmo sabendo de sua deficiência – insiste em dizer. Não dizendo como uma pessoa fala com outra, pois o poema sabe que o discurso “não há onde se assente/ no ouvido do outro” e por saber disso é que a poesia – enquanto função da linguagem – não almeja dizer algo, mas ser algo. Mas até este “ser” é utópico: “a fala morre/ antes de/ passar/ do porto/ da língua”. Logo, até o poema, que é uma construção artificial, naufraga na busca de ser objeto puro, pois mesmo essa leitura que faço é uma variação daquele sentido íntimo que perpassou a ideia do poeta antes de ele escrevê-la. Palavra escrita, palavra perdida.

Pois é sina da palavra exaurir-se. Esta que é, talvez, a mais humana das invenções, é apenas um traço curto na linha do tempo da existência do Universo. Há muito “antes” sem palavras e muito “depois” que será sem elas. Por isso cada discurso – e mais ainda o artístico, que tem consciência de si – é a encenação de uma quase-tragédia; nesse sentido um poema faria o papel de protagonista e coro, pois avisa acerca do fim de si mesmo. Quase-tragédia, pois ainda há palavras, como esse poema, como esta análise, como o bom-dia que daremos amanhã (daremos?) ao vizinho, que têm força para perfurar o silêncio. Mas o poema não se esquece de que “sua única voz/ verdadeira/ é quando cala”. O poema termina e uma página em branco se derrama até que a viremos e, aliviados, encontramos outras palavras para nos salvar do nada.

Importante lembrar, também, que é o homem, como diz o título desse livro de Matheus Guménin Barreto, uma “máquina de carregar nadas” – e que por mais que usemos palavras para enfeitá-los, escondê-los, eles (os nadas) permanecem em nós mesmo quando já perdemos tudo, inclusive as palavras.

*

O poema de Matheus Guménin Barreto (BARRETO, 2017, p. 83-85):

 

Dedicado a Wlademir Dias-Pinto

e surpreender-se
de
falar

se a gar-
ganta
já se
intui
inútil

quem quem quem
Deus
quem tem coragem de
de abrir
a boca
para ouvir outra coisa que o silêncio
para ouvir coisa que
o silêncio diz
[melhor

quem tem coragem
de
falar
sabendo sabendo
que a fala morre
antes de
passar
do porto
da língua

quem pode quem se lança a
quem tem coragem
de
falar

sabendo que a fala
resvala
e cai na quina do quarto
sem som

quem quem quem
quem
tem coragem de falar
e de ouvir o que
diz

quem então tem coragem
de
falar
quando vê, sabe, escuta
pressente
que o que se sente
não há onde se assente
no ouvido do outro

quem tem
coragem
de
falar

quando a fala
sabe
que sua única voz
verdadeira
é quando cala

“Um livro que se despe diante do leitor” – Entrevista ao jornal A Gazeta – 28.1.2018

*por Ana Flávia Corrêa
(Fonte: http://www.gazetadigital.com.br/edicao/materia/numero/9458 )

28 de janeiro de 2018

Escreve, reescreve, corta, apaga, costura, emenda. É assim o processo de criação do poeta cuiabano Matheus Guménin Barreto, 25. Atualmente ele mora em São Paulo e faz mestrado na Universidade de São Paulo (USP), na sua área de formação – letras. No ano passado, ele lançou seu quarto livro, o “A Máquina de Carregar Nadas”, que considera ser o primeiro de sua carreira.

“Eu escrevi três livros antes, mas eu não acho que eles sejam bons. Para mim é como se eles fossem exercícios. Olhando os outros livros eu não vejo nada vergonhoso, nada de horrível, mas também não vejo nada de mais”, explica.

Em entrevista ao Zine, ele contou sobre sua trajetória na literatura, suas vivências e experiências em São Paulo. Confira os melhores trechos:

Quando você começou a escrever?

Matheus: Primeiro eu comecei a ler muito. Com uns oito anos eu já lia bastante essas séries de aventura, de suspense. Eu basicamente lia a biblioteca da minha escola inteira. Escrever eu comecei um pouco depois, como brincadeira. Eu escrevia uma história e meus amigos continuavam e a gente ficava montando em conjunto. Cada um fazia um personagem, um parágrafo e no fim formávamos uma história. Hoje eu vejo que eles [meus textos] eram muito ruins, mas foi um exercício para eu pegar o gosto pela escrita. Aos 14 eu comecei a escrever poemas.

Seus pais sabiam e te apoiavam?

Matheus: Eu era muito fechado nesse sentido, então eu não falava pros meus pais. Meus poemas eu mostrava para a minha professora do ensino médio de literatura, e ela foi incentivando. Ela foi o primeiro adulto pra quem eu mostrei os poemas. Meus pais foram ficar sabendo só quando eu me mudei pra São Paulo, já com 18, e aí teve um concurso nacional que eu ganhei. Foi quando eu falei pra eles.

Como funciona o seu processo de escrever?

Matheus: Eu nunca escolho escrever, nunca decidi escrever um poema. É uma coisa mental, é como estar pensando em algum assunto aleatório e de repente uma coisa se encaixa. Eu nunca tenho o poema todo na cabeça, aparece o primeiro verso e eu o escrevo no caderno, a partir desse primeiro verso os outros vão aparecendo.

E como você se organiza?

Matheus: Eu tenho um trabalho muito importante de ‘depois de escrever’. Costumo dizer que eu sou ao mesmo tempo meu pior inimigo e meu melhor amigo. Eu sempre acho que tudo está ruim ou que pode ficar melhor. Organizo, corto, rescrevo muito e às vezes só 20% do que eu escrevo é o que eu realmente guardo, o resto eu jogo fora mesmo, sem pena. Essa parte que vem depois da primeira escrita é tão importante quanto ela. Eu não tenho como só escrever e colocar lá no papel e ‘está pronto’.

Sobre o que você costuma escrever?

Matheus: A poesia é como um instrumento pra mim. Um instrumento de pesquisa sobre mim, sobre como eu vejo as pessoas ao meu redor, como eu vejo o funcionamento dessas outras pessoas, das relações humanas, enfim. Tudo é passível de ser trabalhado, não só a partir da poesia, mas de qualquer forma artística. É como se ela fosse uma ferramenta pra escavar algo e a partir disso eu consigo chegar a algo que está ali debaixo, escondido.

Quais são suas referências?

Matheus: É engraçado que logo que eu leio um livro aquilo fica alguns dias em mim, e se eu vou escrever o poema logo depois desse leitura ela aparece de alguma forma, só depois ela se dilui, vai sumindo – mas alguma coisa fica e todas as leituras vão se acumulando. Eu não gosto de escrever logo depois de ler um livro muito grande ou de ler uma obra completa, porque isso acaba aparecendo até demais. Eu sempre dou um tempinho, espero.

Como foi o processo de criação do A Máquina de Carregar Nadas?

Matheus: Eu fiquei um bom tempo escrevendo, 5 anos, e depois fiquei com ele guardado por seis meses sem nem olhar. Seis meses depois eu cortei os poemas pela metade, arrumei e cortei mais um pouco. A versão original deve ter apenas ¼ da primeira versão – ou menos. Esse é o meu jeito de trabalhar.

Qual a estrutura do livro?

Matheus: O livro tem três partes, e é basicamente um livro que se desfaz. A primeira parte tem poemas bem mais tradicionais, com metro fixo, rimas alternadas, e isso casa com o tema. São coisas muito coladas ao Eu. É algo muito fechado, e acho que isso se mostra na forma. Na segunda parte começam as quebras. Os versos vão se libertando, as rimas desaparecem e começam a entrar outros temas – os espaços, os lugares, já não só o Eu. Na terceira parte é que tudo se desfaz e entra uma poesia mais participante, mas entra como se isso desestruturasse totalmente o Eu: os poemas ficam quebrados, aparece uma prosa poética, poemas perdem título, viram um verso só. O livro vai se despindo [e desestruturando] quando o Eu entra em contato com o Outro.

Por que o nome A Máquina de Carregar Nadas?

Matheus: É um título que dizem ser meio ambíguo – e eu gosto disso. Algumas pessoas acham que seja positivo, outras que seja negativo. A “máquina” poderia representar a poesia, o ser humano, as possibilidades são muitas. E se alguém pensa ‘Como assim ela não carrega nada?’: não é nada, são “nadas”. Para os outros é nada, mas para o Eu são nadas. São nossa experiência, nossa vivência, o nosso afeto – o que somos, enfim, o que carregamos e somos.

Você acredita que Cuiabá seja um território favorável para os artistas?

Matheus: Tem muita coisa acontecendo aqui em Cuiabá. Eu não sei se é porque agora eu estou mais velho e prestando mais atenção ou se realmente tem alguma coisa diferente acontecendo. Tem muito escritor, muito fotógrafo, muito pintor, muito estilista, todo mundo aparecendo e é uma galera da nossa idade. Em Cuiabá há uma ascensão do movimento artístico no geral, em tudo.

Três poemas de Matheus Guménin Barreto – Literatura & Fechadura – 22.1.2018

(Fonte: http://www.literaturaefechadura.com.br/2018/01/22/tres-poemas-de-matheus-gumenin-barreto/ )

 

CANTO DE DISSOLUÇÃO

Sepultadas no tempo
deitam-se as coisas todas,
que já nem coisas são,
mas memória de coisas.

Sepultados no tempo
afundam-se os rostos
todos, ou quase todos,
e as datas, risos, gostos.

Sepultadas no tempo
jazem as nossas vidas,
num tempo em que não são
nem gozo nem ferida.

Sepultados, enfim,
no tempo, todos nós.

Onde não há nem feito,
nem pessoa, nem voz.

*

[SEM TÍTULO]

é lícito um poema onde ecoem passos
de um único homem ou de sua sombra os passos?
é lícito o poema de uns pés descalços, limpos, sobre um
pátio ainda mais? lícito
que água ainda não convexa de toques nem
de rostos outros espelhados que um só rosto, que essa água
reste?
ecos, passos, sombras, pés descalços, toques?
é lícito que haja? é lícito que haja tão rara palavra:
lícito?

é lícito que haja o que haver em versos
como estes
se os tiroteios furam a pele de uma mãe de um pai de um filho e de um que não nasceu e não nascerá num canto escuro qualquer desse país que nem me digno a saber enquanto escrevo um poema sobre escrever um poema sobre um revólver calibre 38 que resolve anular o tempo?

*

[SEM TÍTULO]

as partículas todas
agrupadas ou prestes a
sempr-
e na dança comum do ir sendo
e a
multiplicação
pródiga de tudo o que foi,
é, será ou pode vir a ser
e o cair de tudo isso do colo abarrotado do tempo

fulminam alguém num apartamento de classe média alta no dividido Brasil de PECs 55

 

Matheus Guménin Barreto (Cuiabá, 1992) é um poeta e tradutor brasileiro. Pós-graduando da Universidade de São Paulo (USP), traduz a poesia de Ingeborg Bachmann e a de Brecht. É editor do site cultural mato-grossense Ruído Manifesto e tem poemas publicados em diversas revistas no Brasil e em Portugal. Lançou em 2017 o livro de poemas A máquina de carregar nadas (Editora 7Letras).

Cinco poemas inéditos de Matheus Guménin Barreto – Escriva (PUC-RS): Revista da Pós-graduação em Escrita Criativa – 8.12.2017

(Fonte: http://www.revistaescriva.com/cinco-poemas.html )

8 de dezembro de 2017

bicho das tesas patas
alertas
tentando equacionar na matemática da narina
o que é perigo o que não
alertas
os olhos alertas as
patas
alerta ele todo e aceso
queimando entre as vértebras e os músculos
o que é.*

a cegueira do homem que de seu corpo morno
soletra o corpo morno d’outro homem
os sinais as vírgulas
discursa entre duas bocas
e recita, extático e nu, a abrasada
violenta
poesia
que o corpo maquina na carne.

*

o amado que toca os pulsos mornos
de seu amado
e o braço e as mãos
tremulargênteas
e o rosto toca e o sexo
quente e afiado
o amado que toca os pulsos mornos
de seu amado
e sabe de repente o que é um ensolarado riso e
a noite antiquíssima que o olha
de volta.

*

mãos que levantaram-se e caíram
no fluir inadiável do tempo
e dia por dia ano por ano escavaram o tempo
até aqui chegarem
a estas minhas mãos morenas sob este céu transparente
sobre este teclado

mãos que levantaram-se e caíram
nos afazeres
e no fazer do tempo
que ele é por elas feito e elas por ele
engolidas

o trabalho comum que é o tempo
esta conta de vidro
mão por mão gesto por gesto
feito e abandonado como as ondas consecutivas na praia
como o fio que se tece só em parte
tempo

– minhas mãos aquelas também
sob estas.

*

fiapo sequer que escape ao absurdo
que se apresente.


Matheus Guménin Barreto (1992) nasceu em Cuiabá, Brasil. Formou-se em Letras Português-Alemão na Universidade de São Paulo (USP), onde agora é mestrando da área de Língua e Literatura Alemãs na subárea de tradução. Suas traduções de Ingeborg Bachmann foram publicadas em “Dito ao anoitecer” (2017) e na antologia “Lira argenta” (2017), e suas traduções de Bertolt Brecht no livro “Cântico de Orge” (2017). Publica em agosto de 2017 pela Editora 7Letras seu livro de poemas “A máquina de carregar nadas”.

A variedade poética em “A máquina de carregar nadas” – Leonardo Antunes – 4.12.2017

*por Leonardo Antunes, poeta, tradutor e professor de Língua e Literatura Gregas na UFRGS

4 de dezembro de 2017

Matheus Guménin Barreto (Cuiabá, 1992), mestrando em Letras pela USP e tradutor de Brecht e Bachmann, acaba de lançar seu quarto livro de poemas, a máquina de carregar nadas (7Letras, 2017), em que nos apresenta um admirável portfólio poético, testemunho de sensibilidade e variegada técnica no trato com a linguagem.

O livro se estrutura em três partes, constituindo um percurso estilístico que se inicia com uma estética clássica, passa por uma poética modernista e termina com exercícios de vanguarda contemporânea. Nesse percurso, passamos de uma subjetividade autocentrada que se desloca, na segunda parte, para um contato com o outro e com o horror que há no mundo. Disso, resulta uma crise, localizada na terceira parte e manifesta num esfacelamento da própria forma poética, que, logo depois, tenta se reestruturar em uma linguagem estética para nossos dias.

Da primeira parte do livro, note-se o poema abaixo, “CANTO APAZIGUADO”:

O que sobra das mãos são as sombras dos gestos
que, já feitos, nos jazem nas mãos sepultados.

O que sobra de olhares: o breve relance
que, de breve, se perde entre o feito e o lembrado.

O que resta de risos são luzes de dentes
entrevistos por entre a cortina do lábio.

O que resta da vida é a vida que fica
e ficando é que parte ao eterno adiado.

O processo notado acima, de buscar o essencial da experiência de mundo, é um dos motes principais do livro de Barreto. Esse tópos atinge sua maturação na segunda parte do livro, como se percebe no poema “PRIMEIRO”, reproduzido a seguir:

O toque mesmo nas coisas
para lembrar as mãos da
arquitetura limpa daquilo
que o mundo gestou.

A mão limpa, cartesiana, reta
pelas coisas
para tirar o pó sobre os nomes

sol, xícara, casca, ladrilho, pêssego, miséria

e tocar outra vez
como no Dia Primeiro
algo dos nomes
que vibre.

Esse segundo movimento, da parte central do livro, a meu ver é o mais maduro dos três. Ali, encontram-se alguns dos poemas mais interessantes do livro, como essa variação de um tema clássico da poética grega (“Para os terrestres, de tudo, o melhor é jamais ter nascido”, v. 425 do Corpus Thegonideum), no poema “O CANTO”, a partir de uma estética modernista:

[Quisera não nascer homem
ou, melhor, não ter nascido,
se ser é se perder sempre
e nascer é nunca ter sido]

Olhai o galho à janela.
É duro e de morrer não nasce
e sem nascer e sem morrer deita
[à eternidade
a face.

Olha o gato esquecido de nascer.
Olha o cão olha o peixe olha a ara-
nha.
Esquecidos de nascer
[nascem
e perduram no tempo comprido.

Quisera não nascer homem
[ou, melhor, não ter nascido,
se ser é se perder sempre
e nascer é não ter existido]

A terceira parte do livro, por sua vez, traz poemas bastante experimentais, como um que se resume a pautas musicais com uma grave nota “Sol” repetida por algumas páginas, como resultado do esfacelamento da linguagem durante o percurso de contato do eu com o mundo.

No todo, perdura no livro de Barreto uma extrema sensibilidade em lidar com as coisas cotidianas e delas extrair uma experiência que nos move. Mesmo em poemas minimalistas, como são muitos dos da terceira parte, o poeta é capaz de prender nossa atenção com alguma imagem construída com concisa precisão, como a do poema abaixo, sem título:

raia a navalha do sol
límpida, ascética, dura

Com a apresentação dessa variedade de estilos e tendências, todas perpassadas por uma voz de arguta sensibilidade, Barreto demonstra maturidade poética, deixando-nos com a certeza de que possui amplitude técnica para produzir poesia de alta complexidade formal em qualquer estilo em que decidir se experimentar.

Breve leitura de “A máquina de carregar nadas” – Gustavo Matte – 25.11.2017

*por Gustavo Matte, poeta e doutorando em Teoria Literária na PUC-RS

25 de novembro de 2017

“A máquina de carregar nadas” é um livro interessantíssimo, construído em forma de “acumulação progressiva”, onde cada poema vai somando ao anterior ou o elevando ao extremo. Se, por um lado, os primeiros momentos são de certa rigidez formal, no sentido de ter regularidade e solidez no ritmo e nas melodias – contrastando, no entanto, com o etéreo dos temas -, a relação entre forma e tema vai gradativamente aumentando em tensão, até explodir em uma espécie de “abstração-limite”, num gesto que lembra o “poema-processo” – com rabiscos cegos seguidos de pautas musicais em que se repete, monotonicamente, a mesma nota “sol”, até desaguar no silêncio branco de uma página vazia. É nesse momento que o livro abandona completamente a experiência verbal-semântica para convidar o leitor a encarar uma breve jornada de experiência poético-sensorial, dissolvendo os limites (ou experimentando neles) entre a poesia e outras formas de arte.

Cinco poemas de ‘A máquina de carregar nadas’ – Mallarmargens – 26.10.2017

(Fonte: http://www.mallarmargens.com/2017/10/cinco-poemas-de-maquina-de-carregar.html )

 

MANHÃ

a –
Notícias da manhã
informam que o tempo, de
——————————- fato, passou,
e que a noite foi só uma
de fato.

b –
O dorso arrebentado do sol,
surge o dia.

c –
A manhã ruge
nos dentes das árvores.

*

NA ESTREITA BAÍA DO CORPO

a –
Onda: eterna insuficiência,
fadada a sempre cortejar o nunca
sobre uma terra que se lhe foge
perto e inalcançável.

*

O QUE SOBRA DO HOMEM

Caminha e se deita e dorme
todas as noites
a pensar no que poderia ter sido
e se perdeu nas dobras do tempo e
em rumorejos de água cristalina.

*

NESTE TEMPO

Neste tempo de horror
neste tempo
neste tempo sem tempo
de mãos crispadas e inverno nos dentes
de risos que não são
– só o amor que há é o dos bichos
e o das memórias frescas,
recém-cortadas.

*

UMA ARQUITETURA DA CONCHA
“Para aquele que deu a concha”

1.
Que esta concha entre os dedos recolha
e decante em silêncios a voz
agitada em trovões – mar o crânio –,
que a decante e que a anule depois.

2.
Que recolha entre os vórtices secos
todo o eco dos mares confusos,
que o recolha e decante em silêncios
e apascente o traçado dos fusos.

3.
Que esta concha entre os dedos anule
o que dentro de alguém é loucura.
Que ela guarde, meu Deus, da loucura,
que é o que acha quem muito procura.

4.
Que estas conchas recolham do fundo
já sem fundo das curvas do mar
o olhar tão cansado do homem

– e o devolvam depois, pra guiar.

 

Matheus Guménin Barreto (1992) nasceu em Cuiabá, Mato Grosso. Formou-se em Letras Português-Alemão na Universidade de São Paulo (USP), onde agora é mestrando da área de Língua e Literatura Alemãs na subárea de tradução. Suas traduções de Ingeborg Bachmann foram publicadas em Dito ao anoitecer (2017) e na antologia Lira argenta (2017), e suas traduções de Bertolt Brecht no livro Cântico de Orge (2017) – parceria entre Selo Demônio Negro, Editora Hedra e a editora portuguesa Douda Correria. Publicou em 2017 seu livro de poemas A máquina de carregar nadas pela Editora 7Letras.

Poemas publicados e inéditos, resenhas e links para compra do livro A máquina de carregar nadas: https://matheusgumenin.com/

E-mail para contato: matheusgumenin@hotmail.com

Revista Lavoura – 10.2017

Poema inédito disponível na Revista Lavoura, página 18.

Link: https://www.yumpu.com/pt/document/view/59473745/revista-lavoura-n2

Os outros colaboradores são: Ana Rüsche, Tarso de Melo, Bruno Molinero, Danilo Brandão, Laura Torres, Maiara Líbano, Daniele Queiroz, Edson Amaro De Souza, Elisa Andrade Buzzo, Jeanne Callegari, Nicolas Casal, Paulo Ferraz, Susana Pereira, Teofilo Tostes Daniel, Fernando Ide Kuratomi, Christiano Whitaker, Heitor Rodriguês, Priscilla Menezes, Tatiana Timm, Sérgio Tavares, Joëlle-Marie Declercq e o ex-prefeito Fernando Haddad.

Editores: André Balbo, Anna Brandão, Arthur Lungov e Lucas Verzola

Como é possível um homem? – Marília Beatriz Figueiredo Leite – 28.9.2017

*por Marília Beatriz Figueiredo Leite,
presidente da Academia Mato-Grossense de Letras
(Fonte: http://circuitomt.com.br/ )

28 de setembro de 2017

CRÍTICA LITERÁRIA: No dia 16 de setembro houve o lançamento do livro de poemas “A máquina de carregar nadas”, de Matheus Guménin Barreto. Matheus cursou Letras Português-Alemão na USP, onde cursa hoje pós-graduação em tradução de poesia alemã. A Presidente da Academia Mato-Grossense de Letras, nossa imortal Marília Beatriz Figueiredo Leite comenta aqui o que achou sobre este segundo livro do poeta cuiabano.

***

MATHEUS GUMÉNIN BARRETO traz em seu mais novo livro – verdadeira Bíblia Poética – a obra de arte pronta como oferta, como realização de dizeres da Vida enquanto signos da escrita e ícones do silêncio.

Para ela conflui não o saber fazer, mas sim o lançar do sabor de fazer transformador da pura realidade em máquina instauradora das possibilidades – de um real que não se apresenta como NADA, pois persegue e prospecta as possibilidades da produção …

O rumor questionador ou o silêncio prospectivo criam a impressão daquilo que Antonio Candido chama atenção: “…o panorama é dinâmico, complicando-se pela ação que a obra realizada exerce tanto sobre o público, no momento da criação e na posteridade, quanto sobre o autor, a CUJA REALIDADE SE INCORPORA EM ACRÉSCIMO, E CUJA FISIONOMIA ESPIRITUAL SE DEFINE ATRAVÉS DELA”

É dentro desse entesouramento que Matheus G. Barreto vai tracejando, construindo como edifício o seu escrever a identidade da desenvoltura do equívoco em Nada. Inexiste nada em Máquina. O que se retira desse nada é a construção obsessiva e sábia de um poeta em busca da fonte da Ars Poetica, que se impõe com o vigor das questões, “do branco sobre o branco é nada”.

Sinto na poética da máquina, no costurar do autor, no traçar que fagulha do livro, o amor que captura como raiz e que irrompe num frêmito a pesquisa da alma literária, e que como um foguete parte em busca da amplidão de um horizonte literalmente emocional.

Ainda dentro de descrições que apontam infelicidades(?): de um momento para o outro se faz estrutura, e o estilo seduz – retirando de todos leitores e autor a mesma face ou a mesma parte que enfeixa seu colaborar com um universo particularmente uníssono:

“NA ESTREITA BAÍA DO CORPO
a-
Onda: eterna insuficiência,
fadada a sempre cortejar o nunca
sobre uma terra que se lhe foge
perto e inalcançável.”

(BARRETO, Matheus Guménin. A máquina de carregar nadas)

Creio que aqui são lançados dentro da circulação da roda, onde arte, realidade e o Nullit se fundem para, edificados em templo, não se confundirem.

Eis Matheus poeta/mágico, poeta/engenheiro, poeta/filósofo que provoca nestas múltiplas constituições o instalar de um centro de forças que suporta a distribuição do bem poético.

Pois bem “a máquina de carregar nadas “ é a conjuntura de partilhar o pão da poesia bem arquitetada, ou a bíblia de acrescer preceitos de amoressência .

E mais não posso escrever, pois tenho muito ainda a ouvir ‘inside’ Matheus – com belezas.

*ocupante da cadeira n°2 da Academia Mato-Grossense de Letras, Mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC/SP e professora adjunta da UFMT-aposentada.
Quase noite da primavera inaugural cuiabana. Setembro de 2017.