O moderno e a vanguarda: uma leitura de Matheus Barreto e de Caio Ribeiro – Eduardo Mahon – 23.3.2020

*por Eduardo Mahon

23 de março de 2020

Faz um tempo que entrevistei um trio de jovens escritores: Caio Ribeiro, Stéfanie Medeiros e Matheus Barreto. Fiquei intrigado com as respostas às minhas provocações. Caio respondeu um sem número de “sei lá”. Matheus e Stéfanie insistiam na necessidade de “escrever bem”. Pouco tempo depois da entrevista à “imprensa marrom”, uma coluna que fiz no Diário de Cuiabá, cada um deles lançou seu livro. De Caio veio o “Manifesto da Manifesta”, de Stéfanie temos “O Último Verso” e de Matheus, “A Maquina de Carregar Nadas”. Dois livros de poesia e um romance. É uma impressionante mostra de fôlego autoral.
Estou pensando, desde então, sobre a diferença entre eles. Minha inquietação recai sobretudo sobre os dois livros de poesia. Por quê? Meus amigos têm praticamente a mesma idade e nenhum deles chegou aos 30 anos. Era de se esperar filiarem-se às mesmas tendências, compondo uma “nova geração” de escritores brasileiros. Como podem ser tão diferentes? – essa é a pergunta que me fiz até aqui. Antes de responder, é preciso verificar se, de fato, são tão diferentes assim. Parece-me que as propostas literárias já se apresentam diversas desde a capa.
Tanto o título de Barreto “A Máquina de Carregar Nadas” quanto a composição imagética da capa remetem ao modernismo. A referência explícita à “máquina” me deixou surpreso desde o primeiro contato. Há, no modernismo de Baudelaire ao futurismo de Marinetti, uma obsessão com a máquina. Esse é o grande tema. Nosso relacionamento com a tecnologia oscila do niilismo amedrontado (um novo ludismo?) à eufórica exaltação. De um lado, o medo de sermos arrostados, dominados, anulados pela máquina; de outro, a euforia por um futuro de sublimação do trabalho, do sacrifício, do conflito. O que discrepa são as visões sobre o resultado da tecnologia porque, de um jeito ou de outro, todos acabam por tratar dela.
Mas carregar nadas? Que máquina é essa? Temos aí uma inutilidade contemporânea (evito usar a expressão “pós-moderna”). A máquina realmente produz, mas o que produz não nos serve e, portando, faz “nadas”. Continua e produzindo inutilidades porque a poesia, do alto de sua autonomia estética, é considerada uma abstração nula de utilidade. A poesia é inútil porque não está engajada na representação da realidade. Essa é uma visão essencialmente moderna como moderno é Matheus Barreto. Moderno em tudo. De capa à contracapa, sobretudo na pretensão de construir uma obra consistente, solidez autoral que é a tônica dos escritores da virada do século XIX e de todo o século XX.
Há muitas máquinas na literatura contemporânea. Talvez Frankenstein de Shelley tenha sido o paradigma. Os temores quanto à manipulação tecnológica com a humanidade estão todas no “novo homem” criado pela mente atormentada do cientista. Desde então, a literatura pariu trambolhos assustadores. Máquinas do tempo, máquina de livros, máquinas de fazer gente, máquinas de fazer máquinas. Wells, Huxley, McEwan, Lobato, Haroldo de Campos, Dias-Pino, Hugo Mãe, dentre muitos outros autores inventaram suas máquinas terríveis e maravilhosas quase todas devoradoras de homens e, sobretudo, de utopias. Anthony Burgess escreveu “Laranja Mecânica” e inventou a pior distopia de todas, onde a máquina disciplinadora é ainda mais eficiente do que jamais sonharam Jeremy Bentham e Michel Foucault porque castra o ser humano de dentro para fora, manipulando a vontade e a identidade.
A máquina, enfim, é a principal obsessão da modernidade. Na maioria das obras, a máquina é rejeitada, muito ao contrário das utopias de Baudelaire e Marinetti que viam no futuro mecanicista a solução para as misérias humanas. Nesse contexto, filia-se “A Máquina de Carregar Nadas” de Barreto. A poesia, livre do utilitarismo, será refundada como refundados são todos os temas pelo modernismo. O autor pretende alcançar a própria concepção poética, uma nova sintaxe para um velho tema. As palavras se dissolvem para serem remontadas pela intervenção do autor-demiurgo. O esforço de Barreto é criar uma assinatura própria, uma literatura de grife, cuja personalidade seja inconfundível. Para a refundação, utiliza-se da racionalidade que demarca sua produção e, como não poderia deixar de ser, remete-se ao cânone que respeita e admira. Por isso, é impossível esquecer da “A Máquina do Poema e a Pedagogia da Flor”, de João Cabral de Mello Neto.
E Caio Ribeiro? O autor dos inúmeros “sei lá”? Depois de lançar “O Colecionador de Tempestades”, publica um livro que me parece dos mais interessantes. “Manifesto da Manifesta” reinterpreta a recorrência modernista dos manifestos e claramente flerta com a vanguarda. Não só a paródia moderna está presente em Ribeiro, mas sobretudo a ironia iconoclasta típica das vanguardas. O “experimento” do pastiche contínuo de outros manifestos, faz do livro um manifesto de manifestos e, ao mesmo tempo, não manifesta nenhum programa específico. Resume-se a ironizar e parodiar. É a expressão da vanguarda, muito embora não seja tão deletéria (em termos de projeto) quanto as vanguardas europeias do princípio do século XX.
A diferença entre os dois autores apresenta-se desde a capa. Se em Barreto, um círculo bordô eleva-se como um sol diante da página lisa, em Ribeiro há capturada uma cena, isto é, explícita está a composição performática que não se resume na convenção do livro e da escritura, mas rompe para extravasar em ação fotografada. Se Barreto quer propor a assinatura na refundação de uma sintaxe poética, Ribeiro não tem a preocupação de estatuir uma obra autoral, mas se abre para intervenções coletivas, compartilhando uma obra aberta. Essa diferença se espraia nas contínuas performances que Caio Ribeiro promove com o grupo “Coma Fronteira”, prescindindo das convenções escriturais. O objetivo é a composição coletiva, multidisciplinar, sem método definido ou coleta sistematizada de resultados.
Em resumo, Matheus Barreto inclina a obra para o “pensar” enquanto Caio Ribeiro, para o “sentir”. O protagonismo autoral moderno é marcado no primeiro, enquanto a irônica desconstrução vanguardista é o paradigma do segundo. O trabalho de Caio Ribeiro é a somatória de teatro, cinema, fotografia e, também, literatura. A escrita não se propõe a definir, redefinir ou propor programas. Muito embora todo o livro parodie os manifestos modernistas, não há um “manifesto dos manifestos”, mas a continuidade de fragmentações infinitas, isto é, o autor não almeja a totalidade de sua própria identidade e nem propõem uma cartilha. É claro que a angústia manifesta-se de formas diferentes no trabalho dos dois autores: o primeiro constrói e o segundo, desconstrói. Ambos estão à procura.
Se Barreto propõe uma reconstrução do poema, Ribeiro não se compromete com proposta alguma. Essa é a razão pela qual a vanguarda é obsessiva na autofagia do passado e do presente. O objetivo último da vanguarda é reduzir a arte à realidade, destruindo a própria noção moderna de arte. Arte, para o vanguardista, é a própria vida. Não há as tradicionais delimitações de forma e de tema, o estranhamento tão característico que os formalistas russos pontuaram. Não por outra razão é que a repulsa à vanguarda é mais intensa do que qualquer outro experimento moderno que dê continuidade às sutis reformas estéticas do passado. Todavia, se a contradição do moderno é buscar a referência no passado, o paradoxo da vanguarda é destruir a si própria.
Tanto Barreto quanto Ribeiro são cônscios do que pretendem, atendendo ao paradigma moderno, mas Ribeiro avança na imagem e na cênica, enquanto Barreto consolida-se na construção autoral. Ler os dois livros e, sobretudo, observar os dois autores (sim, porque é preciso esse duplo olhar da crítica contemporânea – ver o fazer) invariavelmente nos faz perceber que há, numa mesma geração, dois tempos, duas marchas, dois programas literários diferentes.
Melhor que isso. Torna-se evidente que o programa de “literatura mato-grossense”, proposto/imposto em 1921 não só é desconhecido pela nova geração como também solenemente ignorado pelos que o conhecem. Gerações anteriores já haviam atualizado a estética da literatura, abandonando o verso metrificado e a abordagem moralista. Contudo, se ainda sobrevivia a fixação do século XX de “cantar a terra”, é provável que estejamos diante de uma segunda ruptura sem que haja enfrentamentos abertos. Ignorar é, muito provavelmente, mais problemático do que afrontar.
O que me parece muito claro é que a nova geração entende não ser mais indispensável desconstruir a geração anterior (como de costume), mas simplesmente fazer diferente. Antagonizar o passado é, de muitas formas, fazer dele a referência obrigatória. É isso que a “nova geração” definitivamente não quer – estabelecer uma tradição com o que desgosta. De forma inteligente, apagam o referencial local. Em tempos liquefeitos de fronteiras dissolvidas, vai arrefecendo a obsessão romântica de definir o território nacional e a respectiva reprodução regionalista do projeto de uma “literatura geográfica”. Não é mais preciso falar sobre si mesmo para encontrar uma identidade. A identidade está no humano que carregamos em nós.

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