“No legado de Drummond” – Prof. Marinaldo Custódio

*por Prof. Marinaldo Custódio

“Leitura de poemas do jovem Matheus Guménin Barreto faz lembrar o grande poeta mineiro, por sua poética reflexiva abordando as ‘profundezas’”

Sempre achei que fazer crítica literária é coisa demais de demasiado grande para mim. Inclusive na universidade, minhas maiores, excelentes notas nunca foram em Teoria da Literatura tampouco em Linguística. Sempre me dei bem em Literatura propriamente dita, pela fruição do texto literário em si, ou em Língua Portuguesa, pela curtição de poder brincar com o texto em seus multifacetados aspectos: linguístico, semiótico, social, cultural, comunicativo enfim.

Por tudo isso me é tão difícil falar de um jovem poeta, e de sua obra, como me ocorre aqui ao abordar a poesia de Matheus Guménin Barreto. Se me animei a fazê-lo, é óbvio que eu tenho cá minhas razões. E elas se fundam, principalmente, num insight que tive ao ler os primeiros poemas dele, há pouco tempo, quando me ocorreu que ali estava um poeta singularíssimo, “de primeira água” (expressão preferida de outro grande poeta, Ivens Cuiabano Scaff). E que, talvez acima de tudo, porque sua poética (profunda, reflexiva, filosófica) me faz lembrar em muito a de Carlos Drummond de Andrade, aquele a quem chamo, à moda do que fizera Caetano Veloso, simplesmente de “o maior poeta brasileiro de todos os tempos”. (Sei perfeitamente que a academia recomenda muita calma, e fleuma, nessa hora, visto ser demasiado temerário afirmar que um é maior que outro e, ainda mais, que um é o maior de todos – mas o faço, a despeito de tudo).

Não analiso versos; já disse que não sei fazer isto, pois nunca fui bom em Teoria da Literatura. Vejo o conjunto, sinto a totalidade da coisa, o impacto sensorial e emotivo que a coisa causou em mim. Seria, pois, a chamada “análise do conteúdo” isto que a gente costuma fazer, quando na realidade a academia só respeita a “análise da forma”, e até compreendo que tem de ser assim mesmo, a academia está certa neste quesito, do ponto de vista dela, do cânone e coisa e tal.

Mas vamos nós com a nossa prosa. Em matéria especial que publicou na revista ‘Veja’ (“E agora, poesia?”, em 26 de agosto de 1987), logo depois da morte do grande poeta, o jornalista e também escritor Mário Sérgio Conti diz que a poética drummondiana, muito mais que lírica, é de uma profundeza filosófica, existencial por excelência, transitando por entre “o sono rancoroso dos minérios” e aquilo que “pensado foi e logo atinge distância superior ao pensamento”.

E já se falou que a obra drummondiana narra preferencialmente a trajetória do homem sobre a Terra. Por outro lado, a ele já se referiram como “poeta do indivíduo desajustado, do cotidiano, da existência e do fazer poesia”. E que fez poesia tratando de temas tipicamente brasileiros porém com uma pitada de inegável metafísica, portanto universal, remetendo à nossa condição de humanos, à alma humana.

É precisamente isto que vejo despontar na poesia do Matheus. Afirmação temerária, isto eu sei muito bem que é. Mas ouso! O próprio Drummond, sempre tão cioso quanto ao caráter sagrado do fazer poesia, que até pediu num poema “Ah, não me tragam originais para ler, para corrigir, para louvar”, até ele, vejam só, em toda a sua grandeza e olho perspicaz, não louvou também a poesia de um Dante Milano? – “um poeta de extraordinária qualidade”, disse o mineiro certa vez ao ler poemas do colega carioca.

Então, de minha parte, está dito.

É isto.

O canto (MATHEUS GUMÉNIN BARRETO)

[Quisera não nascer homem
ou, melhor, não ter nascido,
se ser é se perder sempre
e nascer é nunca ter sido]

Olhai o galho à janela.
É duro, e de morrer não nasce
e sem nascer e sem morrer deita
[à eternidade
a face.

Olha o gato esquecido de nascer.
Olha o cão olha o peixe olha a ara-
nha.
Esquecidos de nascer
[nascem
e perduram no tempo comprido.

[Quisera não nascer homem
ou, melhor, não ter nascido,
se ser é se perder sempre
e nascer é não ter existido]

Confissão (CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE)

Não amei bastante meu semelhante,
não catei o verme nem curei a sarna.
Só proferi algumas palavras,
melodiosas, tarde, ao voltar da festa.

Dei sem dar e beijei sem beijo.
(Cego é talvez quem esconde os olhos
embaixo do catre.) E na meia-luz
tesouros fanam-se, os mais excelentes.

Do que restou, como compor um homem
e tudo o que ele implica de suave,
de concordâncias vegetais, murmúrios
de riso, entrega, amor e piedade?

Não amei bastante sequer a mim mesmo,
contudo próximo. Não amei ninguém.
Salvo aquele pássaro – vinha azul e doido –
que se esfacelou na asa do avião.

Canção bêbeda (DANTE MILANO)

Estou bêbedo de tristeza,
De doçura, de incerteza,
Estou bêbedo de ilusão,
Estou bêbedo, estou bêbedo,
Bêbedo de cair no chão.

Os que me virem caído
Pensarão que estou ferido.
Alguém dirá: “Foi suicídio!”
“É um bêbedo!” outros dirão.

E ficarei estirado,
Bêbedo, desfigurado.

Talvez eu seja arrastado
Pelas ruas, empurrado,
Jogado numa prisão.

Ninguém perdoa o meu sonho,

Riem da minha tristeza,

Bêbedo, bêbedo, bêbedo,

Em mim, humilhada a glória,
Escarnecida a poesia,

Rasgado o sonho, a ilusão
Sumindo, a emoção doendo.

E ficarei atirado,
Bêbedo, desfigurado.

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