Quatro poemas do livro “Mesmo que seja noite” de Matheus Guménin Barreto – Revista Primata – 12.11.2020

(Fonte: https://www.poesiaprimata.com/matheus-gumenin-barreto/matheus-gumenin-barretomesmo-que-seja-noite-2020/ )

Matheus Guménin Barreto (1992) é poeta e tradutor mato-grossense, um dos editores da revista Ruído Manifesto. É autor dos livros A máquina de carregar nadas (7Letras, 2017), Poemas em torno do chão & Primeiros poemas (Carlini & Caniato, 2018) e Mesmo que seja noite (Corsário-Satã, 2020). Doutorando da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade de Leipzig na área de Língua e Literatura Alemãs – subárea tradução -, estudou também na Universidade de Heidelberg. Teve poemas seus traduzidos para o inglês, o espanhol e o catalão; publicados em revistas no Brasil, na Espanha e em Portugal; e integrou o Printemps Littéraire Brésilien 2018 na França e na Bélgica a convite da Universidade Sorbonne. Publicou em periódicos ou em livros traduções de Bertolt Brecht, Ingeborg Bachmann, Johannes Bobrowski, Nelly Sachs, Paul Celan, Peter Waterhouse, Rainer Maria Rilke e outros. Entre os cursos que ministra esporadicamente está o “Verso vivo: introdução ao verso livre e ao verso fixo de Shakespeare a Criolo”.

Os poemas a seguir foram selecionados do seu livro Mesmo que seja noite (Corsário-Satã, 2020), disponível para compra neste link.

*

o mapa do corpo sob as mãos
desenhando itinerários bruscos
mornos
contornando bocas que não existem, mas que existirão
pés que não andaram, mas andarão
sexos que não se apontaram
mas que se apontam, agudos, sob o toque
devagar
como o encontro
de um trópico último com um último meridiano

os olhos nublados de algo que não se adivinha

o homem tem o homem nas mãos
e as mãos seguem seu cego itinerário provisório
apagado sempre pelo toque próximo e sombra e esquecimento –
apagado como a praia e o vento que a inaugura

*

toda linguagem é crime
maior ou menor

*

descobrir as palavras eu te amo

pesar na mão cada uma, medir
sua massa numa mão
n’outra
articular a língua os lábios dentes como
pela primeira vez
um homem o fez
um homem o fez a outro homem
testar o que abarca cada letra, o que deixa, o que fala
testar cada som e sombra que acaso fique
nas arestas do a, do e

descobrir as palavras eu te amo
e a violência que é usá-las

*

lavar da borda em café
da xícara
o lábio amigo e
do prato branco
a mão amiga:
cancelar a parcela de memória
depositada guardada escondida na dobra das horas
– que uma casa, ela é feita
de trapaças contra o tempo.

anular estas xícaras
no irmão predileto do tempo: esquecimento.

apagar os vestígios:
reconhecê-lo vencedor

Arcas de Babel: Matheus Guménin Barreto traduz Rilke – Patrícia Lavelle – Revista Cult – 9.11.2020

(Fonte: https://revistacult.uol.com.br/home/matheus-gumenin-traduz-rilke/ )

*Curadoria de Arcas de Babel por Patrícia Lavelle

A poesia leva ao que há de mais singular em cada língua e desafia a experiência da tradução. Entretanto, muitas e muitos poetas traduzem, e às vezes a escrita poética surge junto com um olhar estrangeiro para a própria língua, vem com a consciência de sua singularidade, entre tantas outras. Esse estranhamento intensifica as forças de transformação no interior das línguas, estendendo seus limites, ampliando seus horizontes. E nunca precisamos tanto dos horizontes que a poesia projeta, agora que uma nuvem pesada encobre perspectivas de futuro… Talvez traduzir poesia seja um modo de contribuir para a construção, não de uma torre, mas de uma ponte ou de uma arca utópica que nos ajude a atravessar o dilúvio. Que nela, aos pares, as línguas se encontrem, fecundas.

A série Arcas de Babel acolhe semanalmente traduções de poesia e está aberta também a testemunhos sobre a experiência de traduzir.

Na edição de hoje, o poeta e tradutor mato-grossense Matheus Guménin Barreto transcria e apresenta poemas de Rainer Maria Rilke.

Barreto (1992) é autor dos livros de poemas A máquina de carregar nadas (7Letras, 2017), Poemas em torno do chão & Primeiros poemas (Carlini & Caniato, 2018) e Mesmo que seja noite (Corsário-Satã, 2020). Doutorando da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade de Leipzig na área de Língua e Literatura Alemãs – subárea tradução -, estudou também na Universidade de Heidelberg. Teve poemas traduzidos para o inglês, espanhol e catalão; publicados em revistas no Brasil, na Espanha e em Portugal. Integrou o Printemps Littéraire Brésilien 2018 na França e na Bélgica a convite da Universidade Sorbonne. Publicou em periódicos ou em livros traduções de Brecht, Bachmann, Bobrowski, Nelly Sachs, Celan, Peter Waterhouse, Rilke e outros. Entre os cursos que ministra esporadicamente está o “Verso vivo: introdução ao verso livre e ao verso fixo de Shakespeare a Criolo”.

Em seu doutorado, traduz textos de Hans Sachs (1494-1576), Angelus Silesius (1624-1677), Sibylla Schwarz (1621-1638), Johann Wolfgang von Goethe (1749-1832), Rainer Maria Rilke (1875-1926), Nelly Sachs (1891-1970), Ingeborg Bachmann (1926-1973), Herta Müller (1953), Peter Waterhouse (1956) e Ann Cotten (1982).

 

***

 

Rainer Maria Rilke (1875-1926) foi alçado, ainda em vida, à condição de poeta exemplar, e a contínua reatualização de sua figura no cânone literário ocidental faz dele um dos artistas mais influentes dos séculos 19 e 20. Sua obra – retomada por figuras tão díspares quanto Martin Heidegger (1889-1976) e Lady Gaga (1986) ou Dmitri Shostakovitch (1906-1975) e Patti Smith (1946) – se espalha por poemas em alemão e em francês, textos em prosa, cartas, ensaios, peças teatrais, traduções e discursos; de modo que, ao fim e ao cabo, dificilmente se consegue falar hoje em modernidade literária contornando seu nome.

Já foram escritas centenas e centenas de páginas sobre a conturbada recepção de Rilke no Brasil – e, para apontar os mundos inteiros (e quase antagônicos) que coexistem na obra rilkeana, basta nos lembrarmos que Rilke foi evocado entre nós tanto pelos poetas classicizantes da chamada Geração de 45 quanto pelos poetas concretistas e neoconcretistas algumas décadas depois. A estilização de um Rilke quase místico, brumoso, coexiste ainda hoje com a recepção deste como um artista experimental, vanguardista. Sugiro aos que se interessarem por esse tema o ótimo artigo de Vagner Camilo (USP), “Nota sobre a recepção de Rilke na lírica brasileira do segundo pós-guerra”.

Escolhi trazer para a coluna Arcas de Babel (com curadoria da poeta e professora Patrícia Lavelle, a quem agradeço mais uma vez o convite) três traduções minhas de poemas bastante díspares e, por isso mesmo, representativos da obra de Rilke: “[O que farás, Deus, se eu morrer?]” de O livro das horas (livro publicado em 1905, poema escrito em 1899), que dá a ver algo da atmosfera nebulosa comumente associada à obra rilkeana, porém através de uma voz lírica radicalíssima, absolutamente moderna ante um Deus frágil e dependente; “O alquimista” de A segunda parte dos Novos Poemas (livro publicado em 1908), que traz o insólito ao campo do poema e que poderia, sem grandes ajustes, ter sido assinado por Jorge Luis Borges (1899-1986); e, finalmente, “A oitava elegia” de Elegias de Duíno (livro publicado em 1923, poema escrito em 1922), poema longo que radicaliza a antiga tensão entre poesia e filosofia e lhe traz uma voltagem toda nova, levando o poema a encontrar eco em alguns dos mais influentes filósofos de língua alemã do século 20.

Procurei criar em minhas traduções poemas estruturalmente análogos aos poemas de Rilke, ou seja, poemas que estivessem em uma relação “paramórfica” (pensando aqui no conceito de Haroldo de Campos) com os textos em alemão, mas sem ignorar a clareza sintática destes – a exceção estaria nos versos um pouco mais cifrados de Rilke em “A oitava elegia”. Em outras palavras, busquei recriar as assonâncias, aliterações, rimas internas e externas, tensões frasais e espelhamentos sintáticos dos poemas rilkeanos (aquilo que Campos chama de fisicalidade ou materialidade dos signos).

No primeiro poema, por exemplo, no qual a estrutura de estrofes e rimas não é consagrada, achei mais importante criar uma profusão de rimas e assonâncias no decorrer do poema do que criar rimas externas nos exatos versos em que Rilke as cria.

Em relação ao metro dos três poemas, busquei me limitar aos mesmos metros jâmbicos que Rilke emprega (sendo o jambo um par de sílabas no qual a primeira tende a ser fraca e a segunda tende a ser forte): no primeiro poema, versos tetrâmetros jâmbicos (sequência de quatro jambos); no segundo, variação entre tetrâmetros e pentâmetros jâmbicos (sequências de quatro e de cinco jambos); no terceiro, pentâmetros jâmbicos não rimados (sequência de cinco jambos).

Que aprendamos, aos poucos, a (re)ler essas outras – vertiginosas – modernidades. – Matheus Guménin Barreto

***

 

[O que farás, Deus, se eu morrer?]

O que farás, Deus, se eu morrer?
Sou eu teu cântaro (e se quebro?)
Sou o que bebes (se apodreço?)
Sou tuas vestes, teu dever,
perdendo-me, perdes sentido.

Sem mim perdes um lar só teu
onde te acolham com carinho.
Cai dos teus pés já combalidos
tua sandália, que sou eu.

Teu amplo manto te abandona.
O teu olhar – que no meu rosto,
recosto morno, vê repouso –
vai procurar-me muito tempo –
e vai deitar-se, quase noite,
entre rochedos estrangeiros.

Deus, que farás? Tremo de medo.

O alquimista

Sorri amargo o alquimista e afasta
o frasco, que fumega um pouco ainda.
Já sabe do que carecia
pra que essa tal substância renomada

surgisse ali. Carecia de tempo,
de séculos pra si, pro frasco ardente;
de toda uma constelação na mente;
na consciência, do mar todo ao menos.

A enormidade que ele desejara,
ele a soltou na madrugada. E ela
voltou a Deus, sua medida antiga;

mas ele, como um bêbado, mal fala,
deitado sobre a arca, e desespera
pra ter o ouro que já tinha.

22.8.1907, Paris

A oitava elegia

Dedicada a Rudolf Kassner

A criatura vê, dos olhos todos,
o Aberto. Só os nossos olhos são
como invertidos e, como armadilhas,
armados ao redor do seu fugir.
O que lá fora existe só o sabemos
do rosto do animal; mesmo a criança
pomos de costas – pra que veja apenas
contornos, não o Aberto, tão profundo
na face do animal. Livre de morte.
Só nós a conhecemos; livre, o bicho
traz sempre atrás de si o seu ruir
e, à frente, Deus; e se se vai se esvai
na eternidade, qual se esvaem fontes.
      Nós nunca temos, nem por um só dia,
o espaço puro à nossa frente, aquele
no qual as flores florem sem parar.
Só mundo – nunca há o Lugar Nenhum
sem Não: a liberdade ou a pureza
que se respire e saiba e não se anseie.
Crianças há que perdem-se em tal calma –
chacoalham-nas. Os que morrem, a são.
Pois perto de morrer ninguém vê morte
e olha além, talvez tal qual os bichos.
Amantes – se não fosse o outro, o outro
que embaça a vista – chegam perto, pasmam…
Atrás do outro, quase por descuido,
lhes surge… Mas não vem nada de lá
e logo o mundo volta a ser só mundo.
Virados sempre à Criação, nós vemos
somente, ali, reflexo do que é livre,
reflexo que encobrimos. Ou que o bicho
mudo nos olha e perfura de calma.
Isso é o destino: só se chegar quase
e sempre quase e nunca mais que quase.

Se o bicho audaz tivesse a consciência
que é nossa – ele que vem ao nosso encontro
de outra direção – nos mudaria
com sua mutação. Mas o seu ser
lhe é sem fim, sem tino, sem visão
daquilo que ele é; puro o que vê.
E onde vemos Futuro ele vê Tudo
e a si em Tudo e salvo para sempre.

Mas há, mesmo no bicho alerta e morno,
pesar e apreensão – melancolia.
Pois também ele é presa ainda disso
que às vezes nos domina – uma lembrança
de que aquilo que se anseia já foi
outrora quase nosso e seu unir-se
dulcíssimo. Aqui tudo é distância;
lá, ar. Após sua primeira pátria
lhe é esta segunda bruma e dúvida.
Ah, bendita a pequena criatura,
que se mantém no colo que a gestou;
alegria do inseto que, lá dentro,
saltita até o fim: pois colo é tudo.
Vê, pois, da ave a meia segurança:
por ser quem é, conhece ambas pátrias,
como se fosse a alma de um etrusco,
liberta, que habitasse ainda espaços,
porém só como estátua sobre a tumba.
E como abisma ter de ir pra longe
tendo vindo de um colo. Eis, assustado
de si, cortando o ar (qual fosse trincos
em uma xícara), eis o morcego
rachando a porcelana do crepúsculo.

E nós: espectadores só e sempre,
voltados para tudo e nunca lá!
Inunda-nos. Botamos ordem. Rui.
Ordem mais uma vez – ruímos nós.

E quem nos inverteu, malgrado nós,
pra que tenhamos sempre este aspecto
de quem se vai?, de quem para no topo
de um monte – o último de onde se vê
seu lar – e vira e olha e permanece.
Assim vivemos – sempre em despedida.

***

[Was wirst du tun, Gott, wenn ich sterbe?]

Was wirst du tun, Gott, wenn ich sterbe?
Ich bin dein Krug (wenn ich zerscherbe?)
Ich bin dein Trank (wenn ich verderbe?)
Bin dein Gewand und dein Gewerbe,
mit mir verlierst du deinen Sinn.

Nach mir hast du kein Haus, darin
dich Worte, nah und warm, begrüßen.
Es fällt von deinen müden Füßen
die Samtsandale, die ich bin.

Dein großer Mantel lässt dich los.
Dein Blick, den ich mit meiner Wange
warm, wie mit einem Pfühl, empfange,
wird kommen, wird mich suchen, lange –
und legt beim Sonnenuntergange
sich fremden Steinen in den Schoß.

Was wirst du tun, Gott? Ich bin bange.

Der Alchimist

Seltsam verlächelnd schob der Laborant
den Kolben fort, der halbberuhigt rauchte.
Er wusste jetzt, was er noch brauchte,
damit der sehr erlauchte Gegenstand

da drin entstände. Zeiten brauchte er,
Jahrtausende für sich und diese Birne
in der es brodelte; im Hirn Gestirne
und im Bewusstsein mindestens das Meer.

Das Ungeheuere, das er gewollt,
er ließ es los in dieser Nacht. Es kehrte
zurück zu Gott und in sein altes Maß;

er aber, lallend wie ein Trunkenbold,
lag über dem Geheimfach und begehrte
den Brocken Gold, den er besaß.

22.8.1907, Paris

Die achte Elegie

Rudolf Kassner zugeeignet

Mit allen Augen sieht die Kreatur
das Offene. Nur unsre Augen sind
wie umgekehrt und ganz um sie gestellt
als Fallen, rings um ihren freien Ausgang.
Was draußen ist, wir wissens aus des Tiers
Antlitz allein; denn schon das frühe Kind
wenden wir um und zwinistgens, daß es rückwärts
Gestaltung sehe, nicht das Offne, das
im Tiergesicht so tief ist. Frei von Tod.
Ihn sehen wir allein; das freie Tier
hat seinen Untergang stets hinter sich
und vor sich Gott, und wenn es geht, so gehts
in Ewigkeit, so wie die Brunnen gehen.
      Wir haben nie, nicht einen einzigen Tag,
den reinen Raum vor uns, in den die Blumen
unendlich aufgehn. Immer ist es Welt
und niemals Nirgends ohne Nicht: das Reine,
Unüberwachte, das man atmet und
unendlich weiß und nicht begehrt. Als Kind
verliert sich eins im Stilln an dies und wird
gerüttelt. Oder jener stirbt und ists.
Denn nah am Tod sieht man den Tod nicht mehr
und starrt hinaus, vielleicht mit großem Tierblick.
Liebende, wäre nicht der andre, der
die Sicht verstellt, sind nah daran und staunen …
Wie aus Versehn ist ihnen aufgetan
hinter dem andern … Aber über ihn
kommt keiner fort, und wieder wird ihm Welt.
Der Schöpfung immer zugewendet, sehn
wir nur auf ihr die Spiegelung des Frein,
von uns verdunkelt. Oder daß ein Tier,
ein stummes, aufschaut, ruhig durch uns durch.
Dieses heißt Schicksal: gegenüber sein
und nichts als das und immer gegenüber.

Wäre Bewußtheit unsrer Art in dem
sicheren Tier, das uns entgegenzieht
in anderer Richtung , riß es uns herum
mit seinem Wandel. Doch sein Sein ist ihm
unendlich, ungefaßt und ohne Blick
auf seinen Zustand, rein, so wie sein Ausblick.
Und wo wir Zukunft sehn, dort sieht es Alles
und sich in Allem und geheilt für immer.

Und doch ist in dem wachsam warmen Tier
Gewicht und Sorge einer großen Schwermut.
Denn ihm auch haftet immer an, was uns
oft überwältigt, die Erinnerung,
als sei schon einmal das, wonach man drängt,
näher gewesen, treuer und sein Anschluß
unendlich zärtlich. Hier ist alles Abstand,
und dort wars Atem. Nach der ersten Heimat
ist ihm die zweite zwitterig und windig.
O Seligkeit der kleinen Kreatur,
die immer bleibt im Schooße, der sie austrug;
o Glück der Mücke, die noch innen hüpft,
selbst wenn sie Hochzeit hat: denn Schooß ist Alles.
Und sieh die halbe Sicherheit des Vogels,
der beinah beides weiß aus seinem Ursprung,
als wär er eine Seele der Etrusker,
aus einem Toten, den ein Raum empfing,
doch mit der ruhenden Figur als Deckel.
Und wie bestürzt ist eins, das fliegen muß
und stammt aus einem Schooß. Wie vor sich selbst
erschreckt, durchzuckts die Luft, wie wenn ein Sprung
durch eine Tasse geht. So reißt die Spur
der Fledermaus durchs Porzellan des Abends.

Und wir: Zuschauer, immer, überall,
dem allen zugewandt und nie hinaus!
Uns überfüllts. Wir ordnens. Es zerfällt.
Wir ordnens wieder und zerfallen selbst.

Wer hat uns also umgedreht, daß wir,
was wir auch tun, in jener Haltung sind
von einem, welcher fortgeht? Wie er auf
dem letzten Hügel, der ihm ganz sein Tal
noch einmal zeigt, sich wendet, anhält, weilt,
so leben wir und nehmen immer Abschied.

“Pesquisa de solos n. 9” – peça coral do compositor Lucas Torrez com texto de Matheus Guménin Barreto

 

“Pesquisa de solos n. 9”. Música: Lucas Torrez. Texto: Matheus Guménin Barreto. Intérprete: Coro de Câmara Comunicantus. Direção Artística e Musical: Marco Antonio da Silva Ramos e Lucas Torrez.

“Pesquisa de solos n. 9” é uma obra inédita, criada para o Coro de Câmara Comunicantus por um de seus integrantes, Lucas Torrez, que é aluno de graduação em música com habilitação em composição. O texto é do poeta Matheus Guménin, doutorando da USP e da Universidade de Leipzig na área de Língua e Literatura Alemãs, na subárea de tradução. Foram definidas algumas diretrizes para que os coralistas fornecessem material sonoro a partir do poema, depois retrabalhadas na composição, com auxílio de programação computacional. Tanto na música como no vídeo, há elementos definidos pelo compositor e outros gerados a partir de algoritmos. As imagens foram fornecidas pelos próprios coralistas. Na conversa, além do Lucas e do Matheus, teremos a presença do regente e compositor Marco Antonio da Silva Ramos e do doutorando José Luiz Ribalta, que atuou durante todo o semestre como regente assistente, conduzindo diversos processos de ensaio.

O texto a partir do qual a peça foi composta integra o livro de poemas Mesmo que seja noite (Corsário-Satã, 2020).

“Mesmo que seja noite: a poesia de Matheus Guménin Barreto” – Entrevista a Marianna Marimon (Cidadão Cultura) – 18.7.2020

(Fonte: https://www.cidadaocultura.com.br/mesmo-que-seja-noite-a-poesia-matheus-gumenin-barreto/ )

 

Mesmo que seja noite: a poesia de Matheus Guménin Barreto

*por Marianna Marimon

 

Escutei as palavras de Matheus Guménin Barreto enquanto tomava o meu café quente. Do outro lado da tela, o escritor dividia comigo a trajetória para colocar no mundo seu mais novo livro Mesmo que seja noite. Dividíamos palavras, projetos, sonhos, desejos, saudades, e uma xícara de café preto. Ficamos nesse ritual durante dias, trocando e compartilhando literatura, poesia, afetos. Esse papo tão leve e potente se mesclou com nossas lembranças sobre aquilo que nos une. Fins de tardes no SESC Arsenal, peças de teatro, amizades, pessoas em comum, e a triste notícia da perda de Marília Beatriz, que cortou nossos corações. Naquele momento, o que dissemos um ao outro, como que fazendo promessas em seu nome, foi que temos uma certeza: é preciso continuar e levar a arte sempre para frente. É o que ela gostaria e é esse o nosso comprometimento para com a sua memória.

O terceiro livro é sua obra mais radical, uma terra devastada – imagem evocada em sua narrativa – em que o autor peregrina em busca do que se é, da descoberta do sexo de outro homem, de recortes da subjetividade oprimida pela crise política brasileira, e a presente ausência de deus. Em texto publicado pela Revista Cult, o doutor em Literatura Brasileira pela Universidade de São Paulo (USP), Caio Cesar Esteves de Souza, aponta para os caminhos traçados por Matheus: “O enunciador do livro, enquanto reflete sobre a linguagem, mas também sobre muitos aspectos da vida em nosso mundo, que felizmente é mortal, busca a poesia com as mãos. Não com as pontas dos dedos, ou com a alma, mas com as mãos inteiras – uma linguagem tátil, matéria que pode ser alcançada, tocada, sentida em todas as suas limitações e produzida pelo toque.”

Trazer poemas ao mundo não é tarefa solitária. Para essa empreitada, Matheus conta com o apoio da editora Corsário-Satã e cada exemplar faz diferença nessa etapa, pois 100% da publicação de “Mesmo que seja noite” será viabilizada com os recursos da pré-venda (aberta até 01/08). É possível adquirir o livro com frete grátis para todo o país, durante o mês de julho, através desse link.

o mapa do corpo sob as mãos
desenhando itinerários bruscos
mornos
contornando bocas que não existem, mas que existirão
pés que não andaram, mas andarão
sexos que não se apontaram
mas que se apontam, agudos, sob o toque
devagar
como o encontro
de um trópico último com um último meridiano.

os olhos nublados de algo que não se adivinha

o homem tem o homem nas mãos
e as mãos seguem seu cego itinerário provisório
apagado sempre pelo toque próximo e sombra e esquecimento –
apagado como a praia e o vento que a inaugura.

E é sobre literatura, poesia, poema, e arte que falamos nessa entrevista, enquanto nos deliciamos com palavras e cafés:

 

– O que te impele às palavras?
Boa pergunta. Eu sinceramente não sei. Às vezes me pego pensando nisso, sabe? Por que a escrita e não, sei lá, composição musical? Ou por que não arquitetura, natação, física? Acho que eu teria sido um físico feliz, que eu teria me encontrado nos números e nas leis da física. Mas isso pode ser só uma impressão de leigo, não é, de alguém que não entende o suficiente de física e que por isso fantasia. Pode ser.
Acho que o que “me impele às palavras”, como você diz na pergunta, é um desejo conflituoso, um querer-e-não-querer, um admirar-e-desprezar. A linguagem é o que eu conheço de mais fugidio, de mais escorregadio. A gente tenta, tenta, tenta, mas ela escapa, vai pra longe, desliza das mãos como um peixe. Talvez isso explique meu interesse. Como diz o grande autor cubano Lezama Lima, “sólo lo difícil es estimulante”. O desejo pela linguagem não deixa de ser um desejo masoquista.
Acho que eu busco algo ou alguém através da linguagem. Não sei o que, não sei quem. A psicanálise deve dar algumas respostas, mas não entendo de psicanálise. O que eu sei é que a escrita é uma busca. Talvez uma busca por sentido – sentido em mim, nos outros, no que está ao redor, na desgraça, no amor. Mas o pulo do gato é: e se não houver sentido? A gente precisa dormir com essa. E escrever mais, buscar mais, talvez criar um sentido. Dizem que às vezes o caminho vale mais do que o fim. Prefiro pensar que sim (nos meus dias mais otimistas).
Sinceramente não sei se vale a pena essa história de escrever. A gente alcança tão pouco, não é? Eu pelo menos alcanço tão pouco. Parece que a linguagem é feita de insuficiência. Penso na insuficiência como material de que ela é feita, sabe? Sempre ‘quase’, sempre ‘um pouco menos’, sempre ‘quem sabe um dia’. O narrador de A hora da estrela diz “Quanto a escrever, mais vale um cachorro vivo”. Acho que é por aí, apesar de eu querer escrever pelo resto da vida, até o meu último dia. Contradições.

 

– Do primeiro ao terceiro, um salto. O mais ousado, radical, a literatura mais madura, afiada. Qual foi o percurso para chegar até “Mesmo que seja noite”?
Acho que foi um percurso de opostos. Tenho um problema com o meio-termo. Talvez algum dia eu resolva isso. Espero que resolva. Porque por enquanto eu sigo um caminho até ‘secar’ aquele caminho, e aí procuro outro (falei ali em cima que linguagem pra mim é busca, não é?). Mas isso tudo pode ser só minha impressão bastante duvidosa.
O A máquina de carregar nadas (Editora 7Letras, 2017) parece ser um livro solar, cerebral – o Mesmo que seja noite (Editora Corsário-Satã, 2020) parece ser noturno, tátil. A máquina de carregar nadas geométrico, Mesmo que seja noite musical (mas de uma música estranha, atonal quase). No A máquina de carregar nadas a linguagem é ainda heroína, apesar de tudo, mas no Mesmo que seja noite ela já é suspeita. Talvez algum dia seja vilã, mas por enquanto é só suspeita.
O meu outro livro, Poemas em torno do chão & Primeiros poemas (Editora Carlini & Caniato, 2018), foi escrito depois dessa briga entre A máquina de carregar nadas e Mesmo que seja noite, apesar de já ter sido publicado em 2018. O problema é que ele não é síntese dos outros dois – acho que essa síntese infelizmente não existe. Vejo Poemas em torno do chão & Primeiros poemas simplesmente como um momento seguinte, uma busca seguinte. A tensão entre A máquina de carregar nadas e Mesmo que seja noite fica lá sem resolução.
Enfim, talvez dê pra dizer que o Mesmo que seja noite é o mais radical porque nele o elemento central da escrita – a própria escrita – vira alvo de suspeita. Então é um livro que se constrói de um jeito torto, desconfiado, sem muita paz. Apesar disso (ou por isso), é o livro em que aparecem de forma mais incisiva a política brasileira recente (mesmo quando não é citada diretamente), a sensação de exílio do sujeito gay numa sociedade heteronormativa, a ‘presente ausência’ de deus, a experiência da perda.
De qualquer forma, se eu respondesse à sua pergunta amanhã, minha resposta provavelmente já seria bem diferente da que eu dei agora. Acho que já passei da fase de ter muitas certezas, as ‘verdades’ ficam todas meio suspensas (e suspeitas).

 

– Desde a sua primeira publicação, há grande expectativa sobre o seu trabalho. Como percebe essa responsabilidade que incumbem à literatura? Você a sente? É inerente ou indiferente?
Sinceramente eu não sei se existe alguma expectativa dos outros sobre meu trabalho, às vezes me sinto falando meio que sozinho, pras paredes, mas existe com certeza uma expectativa minha sobre ele. E isso é uma droga. Queria poder relaxar um pouco e me cobrar menos.
Quanto a essa “responsabilidade que incumbem à literatura”, acho que ela deveria ser a responsabilidade de todo sujeito, não só do artista. Não entendo o artista como alguém que vê mais longe, vê melhor, salva os outros ou ensina aos outros. Acho uma balela aquela história de que “o artista é a antena da raça”, que me perdoe o Pound. Ninguém é antena de nada, pelo menos não deveria ser. Eu não quero ser guia de ninguém, quero andar junto. Acho que cabe a qualquer pessoa – e, assim, também aos que se dizem artistas – estar atenta àquilo que acontece ao seu redor, dentro de si, dentro dos outros; atenta às estruturas sociais que dificultam a vida de alguns e facilitam a de outros; atenta ao absurdo da miséria e ao absurdo da suntuosidade.

 

– A construção das imagens poéticas em “Mesmo que seja noite” nos remete a cenas como o fazer do tempo, a violência de dizer palavras de amor, e mãos que seguem cegos itinerários. Você vê a poesia? A poesia é tato?
Acho que isso depende um pouco da época. Em alguns períodos eu penso o poema, em outros vejo, em outros ouço, em outros toco. Isso vai ficando registrado quase que sem querer – percebo muitas diferenças quando releio poemas meus desse ano, do fim do ano passado, do início do ano passado etc. A sequência de livros vai se tornando um tipo de cartografia ou de itinerário da minha busca – e acho que isso vale pra qualquer escritor. É um tipo de biografia involuntária, mesmo em poetas tão avessos aos derramamentos pessoais conscientes (como o Cabral, talvez). É possível que isso valha em alguma medida também pra quem não escreve: imagina o quanto cada um entenderia de si mesmo se pudesse relembrar com exatidão e em ordem cronológica todas as músicas que ouviu ao longo da vida, todos os filmes aos quais assistiu, todos os namoros e namoricos que teve, todos os xingamentos que já falou (e pra quem). A pessoa que escreve acaba tendo uma ajuda extra nesse processo, já que todos os poemas que publicou ficam lá, registrados nos livros. Mesmo os poemas que ela nem sabe mais que escreveu, nem se lembra. Acho que existe alguma beleza nessa cartografia involuntária.
Enfim, voltando à sua pergunta, hoje especificamente eu toco e temo o poema.


– Como você se relaciona com a poesia? E com o poema?

A relação com o poema é uma relação conturbada, cheia de ódio e de amor – mas é alguma relação, pelo menos. E duradoura.
Já a poesia é muito abstrata, com ela eu não me relaciono, ela deve existir em algum lugar, mas deve ser longe e o ônibus não chega. Prefiro o palpável do poema ao abstrato da poesia.

 

– Escrever: ofício? Dever? Doação? Libertação? Por que insistir na arte?
Pois é, boa pergunta. Acho que quando eu souber essa resposta eu não vou precisar mais escrever. Podemos combinar uma nova entrevista pra daqui 30 anos, o que você acha? Eu topo. Talvez eu tenha alguma resposta definitiva até lá – mas tomara que não, assim continuo a escrever e a buscar.

 

SERVIÇO
Título: Mesmo que seja noite
Autor: Matheus Guménin Barreto
Editora: Corsário-Satã
Número de páginas: 56
Ano: 2020
Formato: 12×18 cm
ISBN: 978-65-86209-02-0
Preço: R$ 36,90

Dois poemas de Matheus Guménin Barreto – Revista Matapacos nº4 – 7.2020

(Fonte: https://drive.google.com/file/d/1KQBsXFtT3sOC6ufWTeV-3zZ1mh4szXn_/view )

 

descobrir as palavras eu te amo

pesar na mão cada uma, medir
sua massa numa mão
n’outra
articular a língua os lábios dentes como
pela primeira vez
um homem o fez
um homem o fez a outro homem
testar o que abarca cada letra, o que deixa, o que fala
testar cada som e sombra que acaso fique
nas arestas do a, do e

descobrir as palavras eu te amo
e a violência que é usá-las.

 

*

 

o sexo
devir perpétuo: tempo enclausurado
o amado e seu amado inventam tempo,
corpo, febre
e o que medi-los

Um poema de Matheus Guménin Barreto – Exposição “Corpo: lar temporário” (Residência Artística Casa/Corpo – Ateliê Livre de Arte do Museu de Arte e de Cultura Popular UFMT) – 7.2020

(Fonte: https://corpolartemporario.wordpress.com/ )

“Um ensaio do hoje em duas partes”, poema de Matheus Guménin Barreto a partir do qual a poeta Lívia Bertges criou o poema visual “Pouso” (disponível no link acima).

 

Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
não estão nesta hora génios-para-si-mesmos sonhando?

“Tabacaria” (Álvaro de Campos)

Um ensaio do hoje em duas partes
arder de agoras
/
pesar na mão o pouco sol que nos cabe,

*

Tatear no ar o braço
a mão
o colo
Tatear à procura do
chão morno, circular
Tatear a obra só prometida
que talvez não se cumpra
Tatear o espelho
e não achar os olhos com que olha.

Matheus Guménin Barreto: poiesis em meio à noite – Caio Cesar Esteves de Souza – Revista Cult – 8.7.2020

(Fonte: https://revistacult.uol.com.br/home/matheus-gumenin-barreto-poiesis-em-meio-noite/ )

 

Matheus Guménin Barreto: poiesis em meio à noite

*Caio Cesar Esteves de Souza

 

O mês de julho chegou ao Brasil em 2020 envolto em muitos ruídos. Uma peste mata a população – sobretudo sua parcela mais pobre – na casa das dezenas de milhares com a ajuda de uma pandemia; a Amazônia arde em chamas, enquanto seus povos indígenas são impedidos de chorar seus mortos pela ineficiência de um Estado que há séculos os coloniza e extermina; a polícia encontra, em uma casa luxuosa na cidade mais rica do país, uma idosa escravizada que estava encarcerada por seus patrões em um quarto sem banheiro nos fundos do quintal, senzala moderna, que também servia de depósito de tudo o mais que era considerado velho e inútil à Casa Grande. Uma nuvem de gafanhotos, olhando o país, prefere dar meia-volta e pedir asilo ao Uruguai – quem ousaria empestar a peste? Em meio a esse cenário, somos surpreendidos por uma notícia da editora Corsário-Satã: a publicação de Mesmo que seja noite, de Matheus Guménin Barreto, que não poderia sair em melhor hora.

Digo isso sem ironia alguma. Desde seu título, o livro é uma reação aos pressupostos do estado das coisas que nos levaram ao ponto em que nos vemos, sem sabermos muito bem para onde olhar em busca de um refúgio. O livro é também, como é o caso de outros trabalhos do Matheus, excelente poesia. Combinar esses dois elementos não é tarefa fácil, isso todos nós sabemos; mas Mesmo que seja noite chega lá por entender que a tarefa da poesia não é propor respostas, mas traçar caminhos e caminhos para caminhos. Levando a sério a compreensão de poiesis como um fazer, o livro reflete e age sobre o fazer como um todo – o fazer do tempo, dos corpos e, principalmente, da matéria que permite que tudo isso exista, a linguagem.

A referência que Matheus faz, no título da obra, ao poema que talvez seja o mais famoso de San Juan de la Cruz (1542-1591) contém todos os elementos necessários para que se compreenda a operação que o poeta cuiabano propõe em seu livro. O poema de Juan de la Cruz é composto por tercetos que se encerram com o refrão “Aunque es de noche”. Sua construção poético-retórica se desenvolve da seguinte maneira: os dois versos mais longos do terceto referem-se a Deus, a fonte que é origem e conhecedora de todas as coisas, e que se apresenta no “pan de vida” da eucaristia; em seguida, vem o refrão concessivo, que reconhece que o enunciador e sua audiência estão em meio a uma noite metafórica. O mundo secular, com todos os seus problemas e sofrimentos humanos, representado por essa noite, é reiterado diversas vezes no poema, sempre antecedido de um “mesmo que”, cuja função é subordiná-lo à existência divina afirmada e reafirmada nos dois versos que o antecedem. Dessa maneira, o poema recria uma trindade em sua forma, de modo que o divino, presente em dois de seus versos, sobreponha-se ao que há de humano no terceiro – ainda que esse mundo seja matéria e seja mortal, como o pão que se come na eucaristia, ele partilha da origem de tudo o que existe, da fonte que não precisa de chão para se firmar, do círculo com centro em toda parte e circunferência em parte alguma. Unidas, as afirmações e contradições dos tercetos produzem o mistério do todo que está presente inteiro em toda parte.

Mas isso é San Juan e é século 16. O que Matheus Guménin Barreto faz com essa referência é inverter o pressuposto da trindade na forma do poema de San Juan: traz ao título não a fonte, mas a noite. Mesmo que seja noite não se apresenta como uma superação da noite que é a existência humana, mas como a constatação de que essa noite não é necessariamente seguida por um dia. O humano e, mais do que isso, a materialidade das coisas é que são o tema e o meio a partir do qual essa poesia é construída. O enunciador do livro, enquanto reflete sobre a linguagem, mas também sobre muitos aspectos da vida em nosso mundo, que felizmente é mortal, busca a poesia com as mãos. Não com as pontas dos dedos, ou com a alma, mas com as mãos inteiras – uma linguagem tátil, matéria que pode ser alcançada, tocada, sentida em todas as suas limitações e produzida pelo toque.

Nesse fazer poético, o lugar que cabe às essências e ao próprio deus é sucintamente indicado no título de uma das partes do livro, Deus in machina. Não há mais lugar para o acaso que resolve artificialmente todos os conflitos humanos em um ato da providência divina, ex machina. Agora, deus e qualquer outra abstração são apresentados in machina, dentro desse mecanismo discursivo que é radicalmente humano e material. O poeta impõe a esse círculo que se quer infinito uma circunferência forjada pelas mãos humanas –

“mãos que levantaram-se e caíram
nos afazeres
e no fazer do tempo
que ele é por elas feito e elas por ele
engolidas”

Apesar de ser uma constante investigação sobre a linguagem, Mesmo que seja noite é tudo menos um livro verborrágico. Nas pouco mais de cinquenta páginas que o compõem, o poeta é menos ouvido que visto. Seu corpo é presente em vários momentos dos poemas, seja quando reflete sobre suas mãos, ou quando descreve o atrito de seu corpo com o do amado. Suas mãos traçam no corpo do amado, entre suor e gozo, mapas de mundos por vir. A cosmogonia proposta tem como fundamento a carne: as bocas que existirão, os pés que andarão são modelados a partir do contato de pele com pele, homem com homem, sem intervenção divina. Cabe aos homens traçar o futuro.

“O mapa do corpo sob as mãos
desenhando itinerários bruscos
mornos
contornando bocas que não existem, mas que existirão
pés que não andaram, mas andarão
sexos que não se apontaram
mas que se apontam, agudos, sob o toque
devagar
como o encontro de um trópico último com um último meridiano. 

Os olhos nublados de algo que não se adivinha
o homem tem o homem nas mãos
e as mãos seguem seu cego itinerário provisório
apagado sempre pelo toque próximo e sombra e esquecimento –
apagado como a praia e o vento que a inaugura.”

 

Mesmo que seja noite aponta caminhos para que possamos repensar nossa relação com a linguagem, os corpos e o mundo miserável que nos cerca. Não nos apresenta qualquer resposta, seja ela fácil ou difícil, sobre o que é preciso fazermos. O livro faz o que é possível à poesia fazer – e isso não é pouca coisa. Ele nos mostra que, mesmo que seja noite, é possível e necessário agir, aceitar o que há de humano, mortal e frágil em nós, ainda que não haja qualquer possibilidade de redenção. Talvez justamente por não haver qualquer possibilidade de redenção. O mundo é a noite, é a pulsão de morte e a terra arrasada que nos cerca. O que nos resta é sermos humanos, agirmos como humanos, como os seres constituídos de matéria que somos. É devolver às nossas mãos o poder de interpretar, moldar e produzir mundos futuros, sabendo que seremos, por fim, derrotados. É perder o medo de agir justamente por não ter mais esperança na vitória. Por isso, repito, a Corsário-Satã não poderia ter publicado esse livro em melhor hora: Mesmo que seja noite é um livro necessário em nossos tempos – tão necessário quanto qualquer livro pode ser, e é.

Mesmo que seja noite
Matheus Guménin Barreto
Editora Corsário-Satã
56 páginas – R$ 36,90

*Caio Cesar Esteves de Souza é doutor em Literatura Brasileira pela Universidade de São Paulo e atualmente realiza outro doutorado na Harvard University.

Sete poemas de Matheus Guménin Barreto em catalão (tradução de Josep Domènech Ponsatí) – Revista A Bacana – 12.6.2020

(Fonte: http://www.abacana.com/oficial/sete-poemas-de-matheus-gumenin-barreto-traduzidos-para-o-catalao-por-josep-domenech-ponsati?fbclid=IwAR18OpuWZMyxCWcKSxGN-PxHn8J8AjgZ7hGqIQpphKgTEwRzNGF3Xm2fsms )

 

Matheus Guménin Barreto (Cuiabá/Mato Grosso, 1992): poeta brasiler. Autor dels llibres A máquina de carregar nadas (2017) i Poemas em torno do chão & Primeiros poemas (2018).

“El poema madura i cau. 7 poemes de Matheus Guménin Barreto”

Del llibre A máquina de carregas nadas. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2017

Traducció de Josep Domènech Ponsatí

Petits Furts [2020-26]

 

Neste tempo
Neste tempo de horror
neste tempo
neste tempo sem tempo
de mãos crispadas e inverno nos dentes
de risos que não são
─ só o amor que há é o dos bichos
e o das memórias frescas
recém-cortadas.

 

En aquests temps
En aquests temps d’horror
en aquests temps
en aquests temps sense temps
de mans crispades i hivern a les dents
de riures que no existeixen
─ l’únic amor que existeix és l’amor dels animals
i el de les memòries fresques
acabades de tallar.

 

*

 

Poesia

Ou fruto apenas entre os dentes
prestes prestes prestes a romper-se.

 

Poesia
O fruit només entre les dents
a punt a punt a punt de trencar-se.

 

*

 

Gênese do poema
a –
O poema, ele amadurece
pendurado no céu da boca.
Incha, avermelha

e cai, sem aviso.

O poema amadurece e tomba
(mas amadurece por meses, por
anos, por décadas
por mortes e vidas
pendurado à garganta das gentes)

O poema, ele amadurece
pendurado no céu da boca.
E não ouse mão alguma
puxá-lo, que é força pouca
ou nenhuma

sempre.

Ocupa a garganta inteira,
amanhece na língua,
tateia seu lugar
e enfim, entre os dentes, já fruto
(abacaxi, pêssego, maçã)
inteiro salta o poema
ao tempo nosso da lida vã.

Ganha muito, o homem,
na digestão dos poemas.
Às vezes só viram fezes,
às vezes são chave e problema.

 

b –
Basta um pousar diverso
basta um passar de mão atemporal
para o
tempo presente os homens presentes
fixarem-se em Matéria Primeira.

 

Creació del poema
a –

El poema madura
penjat al cel de la boca.
S’infla, envermelleix

i cau, sense previ avís.

El poema madura i cau
(però madura mesos i mesos, anys
i anys, dècades i dècades
morts i morts, vides i vides
penjat al canyó de la gent)

El poema madura
penjat al cel de la boca.
I que cap mà no gosi
estirar-lo, perquè la força és poca
o cap

sempre.

Ocupa el canyó sencer,
es desperta a la llengua,
palpeja el seu lloc
i finalment, entre les dents, ja fruit
(pinya, préssec, poma)
sencer salta el poema
al nostre temps de la feina il·lusòria.

En treu molt profit, l’home,
de la digestió dels poemes.
De vegades només es tornen femta,
de vegades són clau o bé problema.

 

b –
Només cal un posar divers
només cal una manyaga intemporal
perquè
el temps present els homes presents
es fixin en Matèria Primera.

 

*

 

Primeiro
O toque mesmo nas coisas
para lembrar as mãos da
arquitetura limpa daquilo
que o mundo gestou.

A mão limpa, cartesiana, reta
pelas coisas
para tirar o pó sobre os nomes

sol, xícara, casca, ladrilho, pêssego, miséria

e tocar outra vez
como no Dia Primeiro
algo dos nomes
que vibre.

 

Primer
El propi toc en les coses
per recordar les mans de
l’arquitectura neta d’allò
que el món va crear.
La mà neta, cartesiana, recta
per les coses
per treure la pols dels noms
sol, tassa, clova, rajols, préssecs, misèria
i tocar un altre cop
com el Dia Primer
alguna cosa dels noms
que vibri.

 

*

 

Casa
O silêncio que contêm
os objetos da casa –
mesa cadeira tapete
panela livros,

o silêncio que têm
no interior
colhido nas longas horas em
que olho algum
lhes pousa na superfície,

o silêncio colhido
na atribulada solidão
que as coisas de uma casa têm e são

e que, assim, fazem-na
casa.

 

Casa
El silenci que contenen
el objectes de la casa ─
taula cadira catifa
cassola llibres,

el silenci que tenen
a dins
collit durant les llargues hores en
què cap ull
hi reposa a la superfície,

el silenci collit
en la desoladora solitud
que tenen i són les coses d’una casa

i que, per tant, la fan
casa.

 

*

 

Praia
A onda inacabável:
lição de eternidade.

 

Praia
L’onada inacabable:
lliçó d’eternitat.

 

*

 

Poema amarelo
a faca tem de ser eloquente
e falar sabendo o porquê

e falar o discurso de chaga
ferida
na carne que a faca lê

 

Poema groc
el ganivet ha de ser eloqüent
i parlar sabent el perquè

i pronunciar el discurs de nafra
ferida
a la carn que llegeix el ganivet

Um poema de Matheus Guménin Barreto – Revista Pixé nº16 – 1.7.2020

(Fonte: https://www.revistapixe.com.br )

 

[sem título]

descobrir as palavras eu te amo

pesar na mão cada uma, medir
sua massa numa mão
n’outra
articular a língua os lábios dentes como
pela primeira vez
um homem o fez
um homem o fez a outro homem
testar o que abarca cada letra, o que deixa, o que fala
testar cada som e sombra que acaso fique
nas arestas do a, do e

descobrir as palavras eu te amo
e a violência que é usá-las.

*

Matheus Guménin Barreto (1992- ) é poeta e tradutor mato-grossense. É autor dos livros de poemas A máquina de carregar nadas (7Letras, 2017) e Poemas em torno do chão & Primeiros poemas (Carlini & Caniato, 2018). Doutorando da Universidade de São Paulo (USP) na área de Língua e Literatura Alemãs – subárea tradução -, estudou também na Universidade de Heidelberg e na Universidade de Leipzig. Encontram-se poemas seus traduzidos para o espanhol, o catalão e o inglês (Revista Cult, Escamandro, Diário de Cuiabá; entre outros), e integrou o Printemps Littéraire Brésilien 2018 na França e na Bélgica a convite da Universidade Sorbonne.
Publica livro novo em 2020 pela editora Corsário-Satã.

Um poema de Matheus Guménin Barreto – Revista Acrobata – 17.6.2020

(Fonte: https://revistaacrobata.com.br/demetrios/poesia/arder-a-vida-em-palavras-poema-de-matheus-gumenin-barreto/ )

 

[sem título]

arder a vida em palavras

medidas sombra por
sombra
duma mão noutra arder a vida
na geografia incerta da boca

que arde um instante e desce à terra.

arder a vida nos ecos

e nos corpos ora nacarados ora suados do
discurso que o lábio promete
nem sempre cumpre
e quando cumpre é sempre quase.

equidistante do fim e do início arder a vida

enquanto o corpo se desfaz devagar
com carinho quase
mas resoluto.

arder do verbo absoluto à procura

o verbo na sarça que se queima magnífico
e não existe.

arder a vida pruma bosta qualquer

que mal nasce já não existe ::

– arder a vida à procura dum sol pousado na mesa
dum dia de justiça entre irmãos
e descer à terra ciente – mas contente, resoluto –
de nada ter nas mãos.

***

Matheus Guménin Barreto (1992) é poeta e tradutor mato-grossense. Publicou A máquina de carregar nadas (7Letras, 2017) e Poemas em torno do chão & Primeiros poemas (Carlini & Caniato, 2018). Doutorando da Universidade de São Paulo e da Universidade de Leipzig, estudou também na Universidade de Heidelberg. Encontram-se poemas seus no Brasil, na Espanha e em Portugal (2ª antologia poética da Revista Cult, Escamandro, plaquete “Vozes, Versos”, Palavra Comum; entre outros), e integrou o Printemps Littéraire Brésilien 2018 na França e na Bélgica a convite da Universidade Sorbonne. Publica livro novo em 2020.

Um poema de Matheus Guménin Barreto – Revista Matapacos nº3 – 5.2020

(Fonte: https://issuu.com/revistamatapacos/docs/matapacos__ed_3__abril_2020_alta )

 

O que vale um poema
O que vale um poema
menos que uma greve menos
que o operário menos
do que um grito menos
do que a fala menos
do que um braço menos
que um poema vale um poema bem menos
mais vale um cão vivo
e (quem sabe?) uma república.

3 poemas de Matheus Guménin Barreto – Revista Pixé nº14 – 1.5.2020

(Fonte: https://www.revistapixe.com.br )

3. El rumorear (26-3-2017, “Poemas espanhóis”)
(e entre os muros entre os ramos entre as fontes
por detrás do espelho
-d’água
rumoreja baixinho aquele sangue
derramado
além-mar)

*

4. Algeciras (26-3-2017, “Poemas espanhóis”)
encontro de tempos mais que de
pesso
as esquinas calçadas muros sombra.
como todo encontro este também:
de ausências
e de vento.

*

6. Oleaje (27-3-2017, “Poemas espanhóis”)
muro branco
onde os adeuses do mar se recolhem junto à sombra,
salgados e frescos.

***

Matheus Guménin Barreto (1992- ) é poeta e tradutor mato-grossense. É autor dos livros de poemas A máquina de carregar nadas (7Letras, 2017) e Poemas em torno do chão & Primeiros poemas (Carlini & Caniato, 2018). Doutorando da Universidade de São Paulo (USP) na área de Língua e Literatura Alemãs – subárea tradução -, estudou também na Universidade de Heidelberg e na Universidade de Leipzig. Encontram-se poemas seus no Brasil, na Espanha e em Portugal (Revista Cult, Escamandro, plaquete “Vozes, Versos”, Gueto, Palavra Comum e Diário de Cuiabá; entre outros), e integrou o Printemps Littéraire Brésilien 2018 na França e na Bélgica a convite da Universidade Sorbonne. Publica livro novo em 2020.

Um poema de Matheus Guménin Barreto – Antologia “notícias do intervalo” – 17.4.2020

(Fonte: http://ruidomanifesto.org/noticias-do-intervalo-antologia-poetica/ )

notícias do intervalo é uma antologia organizada pelo poeta Felipe André Silva com poemas sobre/a partir da pandemia mundial.

“falar para não estar tão só, quando estar só parece ser o pior. falar da maneira que conseguimos, que conhecemos. talvez uma equação simples. e ainda assim topamos com o velho questionamento: poesia, numa hora dessas? sim, poesia, falar, em todas as horas. falar sobre o além da janela, sobre a secura das ruas, sobre traumas que não respeitam isolamento, sobre dívidas a pagar assim que o toque de recolher for suspenso, sobre estar dentro de uma caixa azul. mesmo durante o intervalo as notícias continuam correndo.”

Autores participantes: Antônio LaCarne, Caetano Sousa Romão, Caio Augusto Leite, Divanize Carbonieri, Enoo Miranda, Felipe André Silva, Felipe Ribeiro, Frederico Klumb, Germano Rabello, Jorge Miranda, João Pedro Faro, Larissa Veloso, Leonardo A. Amorim, Leonardo Marona, Luana Claro, Lucas Litrento, Matheus Guménin Barreto, Pedro Mohallem, Pedro Queiroz, Raian Oliveira, Sofia Ferrés, Stefano Calgaro, Tarso De Melo, Telma Scherer e Thiago Ponce De Moraes.

 
*

Elegia pequeno-burguesa (Matheus Guménin Barreto)

Há a hora em que se sussurra –

(sussurra o vento na sombra
de uns galhos cheirando a urina,
a urina e jasmim) e alguém
sussurra do desfazer-se,
sussurra do desmontar-se
no estático entardecer.
Entre contas, dentifrícios,
livros, restos de uns amores,
restos de um tempo macio
que teima em se desmontar,
sussurra alguém entre posses,
sem posse mais de seu rosto,
um burguês atordoado
em sombras :: no entardecer.

Notícias de outras ilhas: Matheus Guménin Barreto – Revista Cult – 8.4.2020

(Fonte: https://revistacult.uol.com.br/home/matheus-gumenin-barreto-ilhas/ )

Matheus Guménin Barreto (1992, Cuiabá) é poeta, tradutor e doutorando na USP e na Universidade de Leipzig. Publicou A máquina de carregar nadas (7Letras, 2017), Poemas em torno do chão & Primeiros poemas (Carlini & Caniato, 2018) e lança livro novo em 2020.

Para a seção “Notícias de outras ilhas” – em que poetas, escritores e tradutores sugerem leituras para o período da quarentena -, indica a leitura de poemas de Marcelo Labes, da Lubi Prates e Diogo Cardoso. A curadoria da seção é de Tarso de Melo. Leia os poemas e o comentário do poeta abaixo.

Já não fosse a própria pandemia uma coisa terrível, ainda temos de assistir diariamente aos crimes via twitter e via pronunciamento oficial do saco de lixo que veste hoje a faixa presidencial.

Em meio a esse combo desastroso, algumas pessoas andaram me fazendo companhia – e acho que devo a elas minha sanidade mental nessas últimas semanas.

Eichendorff, Búnin, Marcelo Labes, Lubi Prates e Diogo Cardoso são os autores que me acompanham; Joan Tower e Sofia Gubaidulina são as compositoras.

Do Eichendorff eu li o divertidíssimo Aus dem Leben eines Taugenichts (saiu no Brasil como Da vida de um imprestável [Editora Oficina Raquel, tradução de Fernando Miranda]), que acompanha do jeito mais nonsense possível um “imprestável” ou “zero à esquerda” que cai na estrada levando só seu violino; do Búnin, que recebeu em 1933 o Nobel, estou lendo agora O processo do tenente Ieláguin (Editora 34, tradução de Boris Schnaiderman).

Além disso (ou junto com isso) me acompanham aqui na ilha os CDs Black Topaz da Joan Tower (com o quarteto de cordas “the muir”) e Offertorium da Sofia Gubaidulina (com Gidon Kremer e Dutoit), duas compositoras vivíssimas e muito potentes.

Os poemas do Marcelo Labes, da Lubi Prates e do Diogo Cardoso eu fico lendo e relendo eternamente. É incrível como eles – cada um a seu modo – dão à nossa língua uma voltagem assombrosa: ler esses autores é se assustar com a língua que se tem (ou que se pensava que se tinha).

Aqui um poema de cada um (e antes de terminar: viva o sus!):

***

mare nostrum – parte IV (Marcelo Labes)

primeira tentativa – autoexplicação:

quando floriano peixoto mandou tomar
a ilha mandou fuzilar inimigos mandou
batizar a ilha em sua homenagem

os federalistas degoladores morreram
de tiro qual ironia matar de tiro quem
sangrou centenas no golpe de faca

segunda tentativa – autoexpiação:

aprender a nadar para alcançar
sair da ilha e beber o mar

***

não foi um cruzeiro (Lubi Prates)

meu nome e
minha língua

meus documentos e
minha direção

meu turbante e
minhas rezas

minha memória de
comidas e tambores

esqueci no navio
que me cruzou
o Atlântico.

***

A língua nômade (Diogo Cardoso)

se eu falasse a língua dos atravessadores de desertos
se eu falasse toda a areia caída de seus ombros,
se eu falasse ainda a paisagem árida de seus dentes
a paisagem pura dos animais esfaimados
se eu falasse os animais assentados na saliva seca
se eu falasse de dentro da sede dos que morrem sob a lua
se eu falasse os dias habitados na pele da serpente
encerrados nas urnas que guardam as faltas todas
se eu falasse as estrelas pendidas nas pontas dos dedos
se eu falasse o sangue sustentado na costela ausente
se eu falasse a mulher o homem a criança e o centro da adaga
se eu falasse as falésias mudas pendidas na garganta
se eu falasse a voz das flores de sua saia
fazendo ventos em meu desejo
se eu falasse voz corpo o que quer que seja
se eu falasse a delicadeza deitada no mês de julho
se eu falasse as flores cobertas de fogo
se eu falasse os acentos inaugurais de um sorriso
se eu falasse o nome guardado em mim esta noite
se eu falasse
se eu falasse a verdadeira letra que iniciasse o verbo
se eu falasse os números quebrados em teus lábios rotos
se eu falasse o sim o não o nunca o agora
se eu falasse então isso assim lá onde
se eu falasse quando
se eu falasse quente o segredo da sopa
se eu falasse a mágoa acesa nos joelhos
se eu falasse as pedras que choram o chão
se eu falasse durma a grama de seu azul turbante
se eu falasse irilisili
se eu falasse anijiriraã
pisiriliá irujna keresê
khraô sirilitili keresaranaã
se eu falasse

se eu falasse.

Três poemas de Matheus Guménin Barreto – Revista Posfácio – 31.3.2020

(Fonte: https://www.posfacio.com.br/2020/03/31/poesia-tres-poemas-de-matheus-gumenin-barreto/ )

Hoje publicamos três poemas inéditos de Matheus Guménin Barreto (1992, Cuiabá), poeta, tradutor e doutorando na Universidade de São Paulo e na Universidade de Leipzig. É autor de A máquina de carregar nadas (7Letras, 2017) e Poemas em torno do chão & Primeiros poemas (Carlini & Caniato, 2018). Lança livro novo neste ano.

***

Patina patina em círculos no gelo
patina no gelo
e caem Tomahawk sobre o sono morno da Síria
sobre o solo frio da Ucrânia cai
o general iraniano cai
patina patina no gelo
caem na carne morna dos arariboia as balas as as
patina
patina patina no gelo patina em círculos em círculos
os pés como os do enforcado os pés
patina enquanto caem as pedras sobre a adúltera

Patina patina em círculos no gelo
veste os sapatos, paga 6,30 euros, dorme tranquilo.

***

A mão que arde no arbusto
é a mesma
que arde no sexo do amado é a mesma
que arde na areia e na espuma
a mão que arde no sexo do amado
é a mesma que faz a cama com vagar
entre paredes altas
mais alto o ardor branco da cama feita, apaziguada.
A mão que arde no branco da cama
é a mesma que limpa fezes e a mesma posta contra a luz de relâmpagos
à noite
a mesma que abre o pão é a mão a mesma.

Em cada coisa o vagar, em cada coisa o furor mudo.

***

Descasca das mãos o tempo
(cai mudo azul-escuro),
esfarelado o tempo do que foi e já nem mais
tenta. Descascam dos olhos umas tardes vermelhas
de maio. Descasca da boca um quase beijo
adiado e já não dado
mais. Descasca do corpo o corpo,
rastro sujo do que era, promessa
só feita.

O moderno e a vanguarda: uma leitura de Matheus Barreto e de Caio Ribeiro – Eduardo Mahon – 23.3.2020

*por Eduardo Mahon

23 de março de 2020

Faz um tempo que entrevistei um trio de jovens escritores: Caio Ribeiro, Stéfanie Medeiros e Matheus Barreto. Fiquei intrigado com as respostas às minhas provocações. Caio respondeu um sem número de “sei lá”. Matheus e Stéfanie insistiam na necessidade de “escrever bem”. Pouco tempo depois da entrevista à “imprensa marrom”, uma coluna que fiz no Diário de Cuiabá, cada um deles lançou seu livro. De Caio veio o “Manifesto da Manifesta”, de Stéfanie temos “O Último Verso” e de Matheus, “A Maquina de Carregar Nadas”. Dois livros de poesia e um romance. É uma impressionante mostra de fôlego autoral.
Estou pensando, desde então, sobre a diferença entre eles. Minha inquietação recai sobretudo sobre os dois livros de poesia. Por quê? Meus amigos têm praticamente a mesma idade e nenhum deles chegou aos 30 anos. Era de se esperar filiarem-se às mesmas tendências, compondo uma “nova geração” de escritores brasileiros. Como podem ser tão diferentes? – essa é a pergunta que me fiz até aqui. Antes de responder, é preciso verificar se, de fato, são tão diferentes assim. Parece-me que as propostas literárias já se apresentam diversas desde a capa.
Tanto o título de Barreto “A Máquina de Carregar Nadas” quanto a composição imagética da capa remetem ao modernismo. A referência explícita à “máquina” me deixou surpreso desde o primeiro contato. Há, no modernismo de Baudelaire ao futurismo de Marinetti, uma obsessão com a máquina. Esse é o grande tema. Nosso relacionamento com a tecnologia oscila do niilismo amedrontado (um novo ludismo?) à eufórica exaltação. De um lado, o medo de sermos arrostados, dominados, anulados pela máquina; de outro, a euforia por um futuro de sublimação do trabalho, do sacrifício, do conflito. O que discrepa são as visões sobre o resultado da tecnologia porque, de um jeito ou de outro, todos acabam por tratar dela.
Mas carregar nadas? Que máquina é essa? Temos aí uma inutilidade contemporânea (evito usar a expressão “pós-moderna”). A máquina realmente produz, mas o que produz não nos serve e, portando, faz “nadas”. Continua e produzindo inutilidades porque a poesia, do alto de sua autonomia estética, é considerada uma abstração nula de utilidade. A poesia é inútil porque não está engajada na representação da realidade. Essa é uma visão essencialmente moderna como moderno é Matheus Barreto. Moderno em tudo. De capa à contracapa, sobretudo na pretensão de construir uma obra consistente, solidez autoral que é a tônica dos escritores da virada do século XIX e de todo o século XX.
Há muitas máquinas na literatura contemporânea. Talvez Frankenstein de Shelley tenha sido o paradigma. Os temores quanto à manipulação tecnológica com a humanidade estão todas no “novo homem” criado pela mente atormentada do cientista. Desde então, a literatura pariu trambolhos assustadores. Máquinas do tempo, máquina de livros, máquinas de fazer gente, máquinas de fazer máquinas. Wells, Huxley, McEwan, Lobato, Haroldo de Campos, Dias-Pino, Hugo Mãe, dentre muitos outros autores inventaram suas máquinas terríveis e maravilhosas quase todas devoradoras de homens e, sobretudo, de utopias. Anthony Burgess escreveu “Laranja Mecânica” e inventou a pior distopia de todas, onde a máquina disciplinadora é ainda mais eficiente do que jamais sonharam Jeremy Bentham e Michel Foucault porque castra o ser humano de dentro para fora, manipulando a vontade e a identidade.
A máquina, enfim, é a principal obsessão da modernidade. Na maioria das obras, a máquina é rejeitada, muito ao contrário das utopias de Baudelaire e Marinetti que viam no futuro mecanicista a solução para as misérias humanas. Nesse contexto, filia-se “A Máquina de Carregar Nadas” de Barreto. A poesia, livre do utilitarismo, será refundada como refundados são todos os temas pelo modernismo. O autor pretende alcançar a própria concepção poética, uma nova sintaxe para um velho tema. As palavras se dissolvem para serem remontadas pela intervenção do autor-demiurgo. O esforço de Barreto é criar uma assinatura própria, uma literatura de grife, cuja personalidade seja inconfundível. Para a refundação, utiliza-se da racionalidade que demarca sua produção e, como não poderia deixar de ser, remete-se ao cânone que respeita e admira. Por isso, é impossível esquecer da “A Máquina do Poema e a Pedagogia da Flor”, de João Cabral de Mello Neto.
E Caio Ribeiro? O autor dos inúmeros “sei lá”? Depois de lançar “O Colecionador de Tempestades”, publica um livro que me parece dos mais interessantes. “Manifesto da Manifesta” reinterpreta a recorrência modernista dos manifestos e claramente flerta com a vanguarda. Não só a paródia moderna está presente em Ribeiro, mas sobretudo a ironia iconoclasta típica das vanguardas. O “experimento” do pastiche contínuo de outros manifestos, faz do livro um manifesto de manifestos e, ao mesmo tempo, não manifesta nenhum programa específico. Resume-se a ironizar e parodiar. É a expressão da vanguarda, muito embora não seja tão deletéria (em termos de projeto) quanto as vanguardas europeias do princípio do século XX.
A diferença entre os dois autores apresenta-se desde a capa. Se em Barreto, um círculo bordô eleva-se como um sol diante da página lisa, em Ribeiro há capturada uma cena, isto é, explícita está a composição performática que não se resume na convenção do livro e da escritura, mas rompe para extravasar em ação fotografada. Se Barreto quer propor a assinatura na refundação de uma sintaxe poética, Ribeiro não tem a preocupação de estatuir uma obra autoral, mas se abre para intervenções coletivas, compartilhando uma obra aberta. Essa diferença se espraia nas contínuas performances que Caio Ribeiro promove com o grupo “Coma Fronteira”, prescindindo das convenções escriturais. O objetivo é a composição coletiva, multidisciplinar, sem método definido ou coleta sistematizada de resultados.
Em resumo, Matheus Barreto inclina a obra para o “pensar” enquanto Caio Ribeiro, para o “sentir”. O protagonismo autoral moderno é marcado no primeiro, enquanto a irônica desconstrução vanguardista é o paradigma do segundo. O trabalho de Caio Ribeiro é a somatória de teatro, cinema, fotografia e, também, literatura. A escrita não se propõe a definir, redefinir ou propor programas. Muito embora todo o livro parodie os manifestos modernistas, não há um “manifesto dos manifestos”, mas a continuidade de fragmentações infinitas, isto é, o autor não almeja a totalidade de sua própria identidade e nem propõem uma cartilha. É claro que a angústia manifesta-se de formas diferentes no trabalho dos dois autores: o primeiro constrói e o segundo, desconstrói. Ambos estão à procura.
Se Barreto propõe uma reconstrução do poema, Ribeiro não se compromete com proposta alguma. Essa é a razão pela qual a vanguarda é obsessiva na autofagia do passado e do presente. O objetivo último da vanguarda é reduzir a arte à realidade, destruindo a própria noção moderna de arte. Arte, para o vanguardista, é a própria vida. Não há as tradicionais delimitações de forma e de tema, o estranhamento tão característico que os formalistas russos pontuaram. Não por outra razão é que a repulsa à vanguarda é mais intensa do que qualquer outro experimento moderno que dê continuidade às sutis reformas estéticas do passado. Todavia, se a contradição do moderno é buscar a referência no passado, o paradoxo da vanguarda é destruir a si própria.
Tanto Barreto quanto Ribeiro são cônscios do que pretendem, atendendo ao paradigma moderno, mas Ribeiro avança na imagem e na cênica, enquanto Barreto consolida-se na construção autoral. Ler os dois livros e, sobretudo, observar os dois autores (sim, porque é preciso esse duplo olhar da crítica contemporânea – ver o fazer) invariavelmente nos faz perceber que há, numa mesma geração, dois tempos, duas marchas, dois programas literários diferentes.
Melhor que isso. Torna-se evidente que o programa de “literatura mato-grossense”, proposto/imposto em 1921 não só é desconhecido pela nova geração como também solenemente ignorado pelos que o conhecem. Gerações anteriores já haviam atualizado a estética da literatura, abandonando o verso metrificado e a abordagem moralista. Contudo, se ainda sobrevivia a fixação do século XX de “cantar a terra”, é provável que estejamos diante de uma segunda ruptura sem que haja enfrentamentos abertos. Ignorar é, muito provavelmente, mais problemático do que afrontar.
O que me parece muito claro é que a nova geração entende não ser mais indispensável desconstruir a geração anterior (como de costume), mas simplesmente fazer diferente. Antagonizar o passado é, de muitas formas, fazer dele a referência obrigatória. É isso que a “nova geração” definitivamente não quer – estabelecer uma tradição com o que desgosta. De forma inteligente, apagam o referencial local. Em tempos liquefeitos de fronteiras dissolvidas, vai arrefecendo a obsessão romântica de definir o território nacional e a respectiva reprodução regionalista do projeto de uma “literatura geográfica”. Não é mais preciso falar sobre si mesmo para encontrar uma identidade. A identidade está no humano que carregamos em nós.

2 poemas de Matheus Guménin Barreto – Revista Pixé (especial Ruído Manifesto) – 28.2.2020

(Fonte: https://www.revistapixe.com.br )

Neste tempo
Neste tempo de horror
neste tempo
neste tempo sem tempo
de mãos crispadas e inverno nos dentes
de risos que não são
– só o amor que há é o dos bichos
e o das memórias frescas,
recém-cortadas.

*

Para o poema desta página
“Dedicado a Matilde Campilho, que sem saber me ensinou”

para o poema desta página:
a – abrir a janela mais próxima
b – faltando a janela, criar uma
c – ver: flor. ou muro. ou golfo. ou merda. ou um casal descobrindo o mapa-múndi no corpo um d’outro.
d – repetir os passos anteriores.

***

Matheus Guménin Barreto (1992- ) é poeta e tradutor mato-grossense. É autor dos livros de poemas A máquina de carregar nadas (7Letras, 2017) e Poemas em torno do chão & Primeiros poemas (Carlini & Caniato, 2018). Doutorando da Universidade de São Paulo (USP) na área de Língua e Literatura Alemãs – subárea tradução -, estudou também na Universidade de Heidelberg e na Universidade de Leipzig. Encontram-se textos seus no Brasil, na Espanha e em Portugal (Revista Cult, Escamandro, plaquete “Vozes, Versos”, Revista Gueto, Palavra Comum, Revista Escriva [PUC-RS], Revista Opiniães [USP], A Bacana, Diário de Cuiabá; entre outros), e integrou o Printemps Littéraire Brésilien 2018 na França e na Bélgica a convite da Universidade Sorbonne. Publicou em periódicos ou em livros traduções de Bertolt Brecht, Ingeborg Bachmann, Johannes Bobrowski, Nelly Sachs, Paul Celan, Peter Waterhouse e outros.
Os dois poemas selecionados estão no livro A máquina de carregar nadas.

Cinco poemas de Matheus Guménin Barreto – Revista InComunidade – 1.2020

(Fonte: http://www.incomunidade.com/v88/art.php?art=40
 

Matheus Guménin Barreto (1992- ) é poeta e tradutor mato-grossense. É autor dos livros de poemas A máquina de carregar nadas (7Letras, 2017) e Poemas em torno do chão & Primeiros poemas (Carlini & Caniato, 2018). Doutorando da Universidade de São Paulo (USP) na área de Língua e Literatura Alemãs – subárea tradução -, estudou também na Universidade de Heidelberg e na Universidade de Leipzig. Encontram-se textos seus no Brasil, na Espanha e em Portugal (Revista Cult, Escamandro, plaquete “Vozes, Versos”, Revista Gueto, Palavra Comum, Revista Escriva [PUC-RS], Revista Opiniães [USP], A Bacana, Diário de Cuiabá; entre outros), e integrou o Printemps Littéraire Brésilien 2018 na França e na Bélgica a convite da Universidade Sorbonne. Publicou em periódicos ou em livros traduções de Bertolt Brecht, Ingeborg Bachmann, Johannes Bobrowski, Nelly Sachs, Paul Celan, Peter Waterhouse e outros.

***

O que vale um poema

O que vale um poema
menos que uma greve menos
que o operário menos
do que um grito menos
do que a fala menos

do que um braço menos
que um poema vale um poema bem menos
mais vale um cão vivo
e (quem sabe?) uma república.

*

O jovem recebia tudo o que quisesse levar

Este era o prazo para o tratamento de beleza: seis meses à base de óleo de mirra e outros seis meses com vários bálsamos e cremes. Quando chegava o tempo de apresentar-se ao rei, a jovem recebia tudo o que quisesse levar do harém para o palácio real.” – Ester 2:12-13

A mirra que passa da mão do amado à m
ão de seu amado passa
limpa a mirra limpa e limpo o amor
limpos os amados de carne apont
ada apontada carne dos amados
limpo o morno breu
limpo o morno breu
onde cartografam o corpo um do outro.

*

O amado, morno, à meia-luz

O amado, morno, à meia-luz
febril, que toca o amado ereto;
aflito, esquiva-se da luz
o amado, morno, à meia-luz,
febris os dois, febris e nus.
Aflitos – se são descobertos
o amado, morno, à meia-luz
febril e o seu amado ereto!

*

[sem título]

descobrir as palavras eu te amo

pesar na mão cada uma, medir
sua massa numa mão
n’outra
articular a língua os lábios dentes como
pela primeira vez
um homem o fez
um homem o fez a outro homem
testar o que abarca cada letra, o que deixa, o que fala
testar cada som e sombra que acaso fique
nas arestas do a, do e

descobrir as palavras eu te amo
e a violência que é usá-las.

*

Casa

O silêncio que contêm
os objetos da casa
– mesa cadeira tapete
panela livros,

o silêncio que têm
            no interior
colhido nas longas horas em
que olho algum
lhes pousa na superfície,

o silêncio colhido
na atribulada solidão
que as coisas de uma casa têm e são

e que, assim, fazem-na
casa.

Antologia Poética #2 da Revista Cult

Casa (Matheus Guménin Barreto – [A máquina de carregar nadas. Editora 7Letras, 2017])

O silêncio que contêm
os objetos da casa
– mesa cadeira tapete
panela livros,

o silêncio que têm
.              no interior
colhido nas longas horas em
que olho algum
lhes pousa na superfície,

o silêncio colhido
na atribulada solidão
que as coisas de uma casa têm e são

e que, assim, fazem-na
casa.

*

“Poemas que, das maneiras mais variadas, demonstram que nossa fragilidade pode ser sempre uma forma de acusação – que toda delicadeza é uma afronta à brutalidade circundante, um respiro corajoso contra tudo que é asfixiante. Cada página desta antologia é um convite para que o leitor vá até os livros dos autores que dela participam.

Com curadoria de Tarso de Melo e direção de arte de Fernando Saraiva.

Participam desta edição: Adelaide Ivánova, Alberto Pucheu, Amanda Copstein, Ana Estaregui, Ana Martins Marques, Andreev Veiga, Bianca, Gonçalves, Carlos Augusto Lima, Casé Lontra Marques, Chantal Castelli, Dalila Teles Veras, Diana Junkes, Edimilson de Almeida Pereira, Eduardo Sterzi, Elisa Carareto, Fabiano Calixto, Fabrício Marques, Fernanda Marra, Izabela Leal, Jade Marra, Jeanne Callegari, Julia Copa, Júlia Studart, Karen Hofstetter, Leandersson, Leonardo Fróes, Leonardo Gandolfi, Luci Collin, Luna Vitrolira, Manoel Ricardo de Lima, Marcela Cantuária, Marcelo Ariel, Marcelo Montenegro, Matheus Guménin Barreto, Micheliny Verunschk, Renan Nuernberger, Reynaldo Damazio, Sara Síntique, Simone Brantes”

Link para compra da Antologia Poética #2 da Revista Cult:
https://www.cultloja.com.br/produto/cult-antologia-poetica-2/

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3 poemas de Matheus Guménin Barreto – Revista Pixé nº10 – 31.12.2019

(Fonte: https://www.revistapixe.com.br )

 

O que vale um poema

O que vale um poema
menos que uma greve menos
que o operário menos
do que um grito menos
do que a fala menos
do que um braço menos
que um poema vale um poema bem menos
mais vale um cão vivo
e (quem sabe?) uma república.

*

O jovem recebia tudo o que quisesse levar
“Este era o prazo para o tratamento de beleza: seis meses à base de óleo de mirra e outros seis meses com vários bálsamos e cremes. Quando chegava o tempo de apresentar-se ao rei, a jovem recebia tudo o que quisesse levar do harém para o palácio real.” – Ester 2:12-13

A mirra que passa da mão do amado à m
ão de seu amado passa
limpa a mirra limpa e limpo o amor
limpos os amados de carne apont
ada apontada carne dos amados
limpo o morno breu
limpo o morno breu
onde cartografam o corpo um do outro.

*

Manhã
a –
Notícias da manhã
informam que o tempo, de
fato, passou,
e que a noite foi só uma
de fato.

b –
O dorso arrebentado do sol,
surge o dia.

c –
A manhã ruge
nos dentes das árvores.

***

Matheus Guménin Barreto (1992- ) é poeta e tradutor mato-grossense. É autor dos livros de poemas A máquina de carregar nadas (7Letras, 2017) e Poemas em torno do chão & Primeiros poemas (Carlini & Caniato, 2018). Doutorando da Universidade de São Paulo (USP) na área de Língua e Literatura Alemãs – subárea tradução -, estudou também na Universidade de Heidelberg e na Universidade de Leipzig. Encontram-se poemas seus no Brasil, na Espanha e em Portugal (Revista Cult, Escamandro, plaquete “Vozes, Versos”, Gueto, Palavra Comum e Diário de Cuiabá; entre outros), e integrou o Printemps Littéraire Brésilien 2018 na França e na Bélgica a convite da Universidade Sorbonne.

Três poemas de Matheus Guménin Barreto – Revista Escrita Droide – 19.9.2019

(Fonte: https://escritadroide.blogspot.com/2019/09/tres-poemas-de-matheus-gumenin-barreto.html )

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corpo: que coisa será essa
a que servirá ou a quem, computará quem
os beijos que deu e dará e quem os tons
de carmim que já viu aos domingos e quem
os cachorros que lhe lamberam os dedos e quando
e quem computará as madrugadas e o branco que fazem
e quem
os sons que gestou na garganta e não disse e quem
o amor miúdo e bom que reina entre as paredes de um apartamento e quem
dirá a esse corpo que tudo
cedo ou tarde
não vai ter existido
na garganta faminta do tempo?

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é lícito um poema onde ecoem passos
de um único homem ou de sua sombra os passos?
é lícito o poema de uns pés descalços, limpos, sobre um
pátio ainda mais? lícito
que água ainda não convexa de toques nem
de rostos outros espelhados que um só rosto, que essa água
reste?
ecos, passos, sombras, pés descalços, toques?
é lícito que haja? é lícito que haja tão rara palavra:
lícito?

é lícito que haja o que haver em versos
como estes
se os tiroteios furam a pele de uma mãe de um pai de um filho e de um que não nasceu e não nascerá num canto escuro qualquer deste país que nem me digno a saber enquanto escrevo um poema sobre escrever um poema sobre um revólver calibre 38 que resolve anular o tempo?

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O AMADO, MORNO, À MEIA-LUZ

O amado, morno, à meia-luz
febril, que toca o amado ereto;
aflito, esquiva-se da luz
o amado, morno, à meia-luz,
febris os dois, febris e nus.
Aflitos – se são descobertos
o amado, morno, à meia-luz
febril e o seu amado ereto!

*

Matheus Guménin Barreto (1992- ) é poeta e tradutor mato-grossense. É autor dos livros de poemas A máquina de carregar nadas (7Letras, 2017) e Poemas em torno do chão & Primeiros poemas (Carlini & Caniato, 2018). Doutorando da Universidade de São Paulo (USP) na área de Língua e Literatura Alemãs – subárea tradução -, estudou também na Universidade de Heidelberg (Alemanha). Encontram-se textos seus no Brasil, na Espanha e em Portugal (Revista Cult, Escamandro, plaquete “Vozes, Versos”, Revista Escriva [PUC-RS], Opiniães [USP], Diário de Cuiabá; entre outros), e integrou o Printemps Littéraire Brésilien 2018 na França e na Bélgica a convite da Universidade Sorbonne.

Imagens: Kazimir Malevich

Quatro poemas de Matheus Guménin Barreto – Revista Escamandro – 18.9.2019

(Fonte: https://escamandro.wordpress.com/2019/09/18/3-poemas-ineditos-de-matheus-gumenin-barreto-1992/ )

Por que ainda?

Porque um roxo azulado já ardeu
sobre um cemitério
Porque a libido dum gramado alto já se esfregou
entre umas pernas
Porque um cão já rendeu aquosa servidão
entre os dedos
Porque já se entrou numa sala em breu
acordada a sala aos sentidos acordada
Porque um homem já afiou um outro homem
– brasa os corpos.

§

Tremem maduras espigas
afiadas de sangue e de sonho
que é sangue e é sonho o corpo
sob outro.

§

O jovem recebia tudo o que quisesse levar
“Este era o prazo para o tratamento de beleza: seis meses à base de óleo de mirra e outros seis meses com vários bálsamos e cremes. Quando chegava o tempo de apresentar-se ao rei, a jovem recebia tudo o que quisesse levar do harém para o palácio real.” – Ester 2:12-13

A mirra que passa da mão do amado à m
ão de seu amado passa
limpa a mirra limpa e limpo o amor
limpos os amados de carne apont
ada apontada carne dos amados
limpo o morno breu
limpo o morno breu
onde catalogam o corpo um do outro.

§

corpo: que coisa será essa
a que servirá ou a quem, computará quem
os beijos que deu e dará e quem os tons
de carmim que já viu aos domingos e quem
os cachorros que lhe lamberam os dedos e quando
e quem computará as madrugadas e o branco que fazem
e quem
os sons que gestou na garganta e não disse e quem
o amor miúdo e bom que reina entre as paredes de um apartamento e quem
dirá a esse corpo que tudo
cedo ou tarde
não vai ter existido
na garganta faminta do tempo?

*

Matheus Guménin Barreto (1992- ) é poeta e tradutor mato-grossense. É autor dos livros de poemas A máquina de carregar nadas (7Letras, 2017) e Poemas em torno do chão & Primeiros poemas (Carlini & Caniato, 2018). Doutorando da Universidade de São Paulo (USP) na área de Língua e Literatura Alemãs – subárea tradução -, estudou também na Universidade de Heidelberg (Alemanha). Encontram-se textos seus no Brasil, na Espanha e em Portugal (Revista Cult, Escamandro, plaquete “Vozes, Versos”, Revista Escriva [PUC-RS], Revista Magma [USP], Revista Opiniães [USP], A Bacana, Diário de Cuiabá; entre outros), e integrou o Printemps Littéraire Brésilien 2018 na França e na Bélgica a convite da Universidade Sorbonne.

3 poemas de Matheus Guménin Barreto – Revista Pixé nº6 – 31.8.2019

(Fonte: https://www.revistapixe.com.br )

Primeiro
O toque mesmo nas coisas
para lembrar as mãos da
arquitetura limpa daquilo
que o mundo gestou.

A mão limpa, cartesiana, reta
pelas coisas
para tirar o pó sobre os nomes

sol, xícara, casca, ladrilho, pêssego, miséria

e tocar outra vez
como no Dia Primeiro
algo dos nomes
que vibre.

*

Canto de dissolução
Sepultadas no tempo
deitam-se as coisas todas,
que já nem coisas são,
mas memória de coisas.

Sepultados no tempo
afundam-se os rostos
todos, ou quase todos,
e as datas, risos, gostos.

Sepultadas no tempo
jazem as nossas vidas,
num tempo em que não são
nem gozo nem ferida.

Sepultados, enfim,
no tempo, todos nós.

Onde não há nem feito,
nem pessoa, nem voz.

*

O nulo poeta/ema
quando hutus exterminaram tutsis
quando hutus exterminaram tutsis
quando hutus exterminaram tutsis
quando tutsis exterminaram tutsis

.

e quando o poeta escreve

[quando tutsis exterminaram tutsis

pecado
pecado
pelo pecado pelo pec-
ado
peca/do
pecado de não saber o que são tutsis
tutsis o que são
o que são tutsis
quem são
hutus
o que
exterminaram
tutsis
e procura onde fica Ruanda
Ruanda¿
e chora de não saber onde fica
onde fica
exterminaram tutsis
Ruanda

– a maioria a golpes de facão.

***

Matheus Guménin Barreto (1992- ) é poeta e tradutor mato-grossense. É autor dos livros de poemas A máquina de carregar nadas (7Letras, 2017) e Poemas em torno do chão & Primeiros poemas (Carlini & Caniato, 2018). Doutorando da Universidade de São Paulo (USP) na área de Língua e Literatura Alemãs – subárea tradução -, estudou também na Universidade de Heidelberg (Alemanha). Encontram-se poemas seus no Brasil, na Espanha e em Portugal (Revista Cult, Escamandro, plaquete “Vozes, Versos”, Mallarmargens, Palavra Comum e Diário de Cuiabá; entre outros), e integrou o Printemps Littéraire Brésilien 2018 na França e na Bélgica a convite da Universidade Sorbonne.

Um poema de Matheus Guménin Barreto – Site Oficial Divanize Carbonieri – 15.8.2019

(Fonte: https://www.divanizecarbonieri.com.br/equacoes-matematicas-poema-de-matheus-gumenin-barreto/?fbclid=IwAR082Hy_Vn9E11zUSxvRDFg0sR9K2VZthkUX5ALGK2snlQerecP4D7ePQGQ )

Equações matemáticas

1)
na curva, na nuance encontrei Deus
no limpo da linha reta o perdi

2)
quando se escuta o marulho da noite
e as coisas ganham contorno insuspeito
a geometria do silêncio aflora
e a vida vale

3)
o silêncio anterior
ao construto da fala no lábio

4)
não diz
se sabe que o dito não condiz
com o que se queria dito
e,

dito,

é outro dito no ouvido que o apascenta.

*

Matheus Guménin Barreto (1992- ) é poeta e tradutor mato-grossense. É autor dos livros de poemas A máquina de carregar nadas (7Letras, 2017) e Poemas em torno do chão & Primeiros poemas (Carlini&Caniato, 2018). Doutorando da Universidade de São Paulo (USP) na área de Língua e Literatura Alemãs – subárea tradução -, estudou também na Universidade de Heidelberg (Alemanha). Encontram-se poemas seus no Brasil, na Espanha e em Portugal (Revista Cult, Escamandro, plaquete “Vozes, Versos”, Mallarmargens, Palavra Comum e Diário de Cuiabá; entre outros), e integrou o Printemps Littéraire Brésilien 2018 na França e na Bélgica a convite da Universidade Sorbonne.

“Não pode o amor ser dissidente: sobre a poesia homoerótica de Matheus Guménin Barreto” – Revista Itinerários (UNESP) – 1-6.2019

(Fonte: https://periodicos.fclar.unesp.br/itinerarios/issue/view/727 )

* por Diana Junkes (poeta e professora de Teoria Literária e Literatura Brasileira da Universidade Federal de São Carlos [UFSCar])

RESUMO: Neste artigo, proponho a leitura, uma entre as várias possíveis, de um conjunto de sete poemas homoeróticos do poeta Matheus Guménin Barreto, que tem despontado como uma das mais interessantes vozes da poesia brasileira contemporânea. Nos poemas, que podem ser lidos como um só, um homem declara seu amor a outro homem, seu desejo. Reside aí a força poética do conjunto: na cena enunciativa e em seu desdobramento. A partir de um diálogo entre diferentes referências teóricas, empreende-se a análise do poema discutindo os (des)limites éticos, políticos e sociais do amor para repropor o uso do termo dissidente, uma vez que ele só cabe em um contexto social e cultural em que o homoerotismo é considerado fora da norma. Ultrapassando as razões políticas do uso do termo dissidente, proponho que a liberdade e a garantia dos direitos individuais só estarão estabelecidas quando nenhum amor for considerado dissidente, já que o amor desconhece outra lei que não a sua própria, articulada ao desejo e ao ser de cada um.
PALAVRAS-CHAVE: Amor homoerótico. Dissidência. Fronteira. Limiar. Matheus Guménin Barreto.

Link para download gratuito do artigo: https://periodicos.fclar.unesp.br/itinerarios/article/view/12284

Um poema de Matheus Guménin Barreto em espanhol (tradução de Sergio Ernesto Ríos) – 25.6.2019

INÚTIL

Inútil
inútil el gesto el plexo el beso
inútil el deseo y el no deseo
[igualmente
Inútil inútil el salto y la pausa
Inútil la mano en el hombro ajeno
[y propio

Inútil soberanamente inútil
el gesto el plexo el beso
en los prados afilados de verde
en las geometrías oscuras de la mente

y esas ganas de amar.

*

INÚTIL

Inútil
inútil o gesto o plexo o beijo
inútil o desejo e o não-desejo
[igualmente
Inútil inútil o salto e a pausa
Inútil a mão no ombro alheio
[e próprio

Inútil soberanamente inútil
o gesto o plexo o beijo
nas campinas afiadas de verde
nas geometrias escuras da mente

e essa vontade de amar.

Cinco poemas de Matheus Guménin Barreto – Revista Média Santista – 19.6.2019

(Fonte: https://felipenasc50.wixsite.com/revistamediasantista/post/cinco-poemas-de-matheus-gum%C3%A9nin-barreto?fbclid=IwAR1WLezS0BMYw7Ft9vzl2YP_o6FBLYKd7JO5_Z1tSfIQm4pTSrPxEv-9y2U )

 

Matheus Guménin Barreto (1992- ) é poeta e tradutor mato-grossense. É autor dos livros de poemas A máquina de carregar nadas (7Letras, 2017) e Poemas em torno do chão & Primeiros poemas (Carlini & Caniato, 2018). Doutorando da Universidade de São Paulo (USP) na área de Língua e Literatura Alemãs – subárea tradução -, estudou também na Universidade de Heidelberg (Alemanha). Encontram-se textos seus no Brasil, na Espanha e em Portugal (Revista Cult, Escamandro, plaquete “Vozes, Versos”, Palavra Comum, Enfermaria 6, Revista Escriva [PUC-RS], Revista Magma [USP], Revista Opiniães [USP], A Bacana, Diário de Cuiabá; entre outros), e integrou o Printemps Littéraire Brésilien 2018 na França e na Bélgica a convite da Universidade Sorbonne. Publicou em periódicos ou em livros traduções de Bertolt Brecht, Erich Kästner, Ingeborg Bachmann, Johannes Bobrowski, Nelly Sachs, Paul Celan, Peter Waterhouse e outros.

Os 5 poemas abaixo são do livro A máquina de carregar nadas.

***

O ÚLTIMO POEMA OU RIO LETE
Para a amiga Juliana Pasquarelli Perez
“Um dia em que se possa não saber.” (Sophia de Mello Breyner Andresen, “Intervalo II”, 1950)

A cabeça no limbo do tempo.
Descansar já sem rosto e sem nome
e, deitado no córrego insone,
esquecer-se do bicho, do homem
e, com o tempo, esquecer-se do tempo.

*

O NULO POETA/EMA

quando hutus exterminaram tutsis
quando hutus exterminaram tutsis
quando hutus exterminaram tutsis
quando tutsis exterminaram tutsis

.

e quando o poeta escreve
[quando tutsis exterminaram tutsis
pecado
pecado
pelo pecado pelo pec-
ado
peca/do
pecado de não saber o que são tutsis
tutsis o que são
o que são tutsis
quem são
hutus
o que
exterminaram
tutsis
e procura onde fica Ruanda
Ruanda¿
e chora de não saber onde fica
onde fica
exterminaram tutsis
Ruanda

– a maioria a golpes de facão.

*

POEMA DO AMADO PARA SEU AMADO

“Penteei-me para o rei
Mas foi ao escravo que dei as tranças do meu cabelo” (Ana Paula Tavares, Manual para amantes desesperados, 2007)

a)
os dentes
teus amanhecem quando me veem
e compreendo
o inerte ofício das pedras
– plenas completas alegres.

b)
a voz amanhece na tua boca
ilumina: da garganta
ruminando o que não fora dito,
inaudito, e o que se ficou por dizer

pois

a voz amanhece na tua boca
e o contorno do sol posto
fica pregado
fica pregado
nas pálpebras

fechadas de pôr do sol

c)
e tua boca anoitece
quando o silêncio pousa e faz ninho nos teus lábios

até que
então nasce outra vez
o sol
da tua garganta áspera
raia outra vez, já à espera paciente
da hora de se pôr

flor
que anoitece

– e o eclipse do corpo meu
é violento

*

PRIMEIRO

O toque mesmo nas coisas
para lembrar as mãos da
arquitetura limpa daquilo
que o mundo gestou.

A mão limpa, cartesiana, reta
pelas coisas
para tirar o pó sobre os nomes

sol, xícara, casca, ladrilho, pêssego, miséria

e tocar outra vez
como no Dia Primeiro
algo dos nomes
que vibre.

*

CANTO DE DISSOLUÇÃO

Sepultadas no tempo
deitam-se as coisas todas,
que já nem coisas são,
mas memória de coisas.

Sepultados no tempo
afundam-se os rostos
todos, ou quase todos,
e as datas, risos, gostos.

Sepultadas no tempo
jazem as nossas vidas,
num tempo em que não são
nem gozo nem ferida.

Sepultados, enfim,
no tempo, todos nós.

Onde não há nem feito,
nem pessoa, nem voz.

Um poema de Matheus Guménin Barreto em catalão (tradução de Josep Domènech Ponsatí) – 30.5.2019

PRIMER
El propi toc en les coses
per recordar les mans de
l’arquitectura neta d’allò
que el món va crear.

La mà neta, cartesiana, recta
per les coses
per treure la pols dels noms

sol, tassa, clova, rajols, préssecs, misèria

i tocar un altre cop
com el Dia Primer
alguna cosa dels noms
que vibri.

*

PRIMEIRO
O toque mesmo nas coisas
para lembrar as mãos da
arquitetura limpa daquilo
que o mundo gestou.

A mão limpa, cartesiana, reta
pelas coisas
para tirar o pó sobre os nomes

sol, xícara, casca, ladrilho, pêssego, miséria

e tocar outra vez
como no Dia Primeiro
algo dos nomes
que vibre.

Dois poemas de Matheus Guménin Barreto – Revista Arribação – 5.6.2019

(Fonte: https://arribacao.wordpress.com/2019/06/05/dois-poemas-de-matheus-gumenin-barreto/ )

 

PRIMEIRO

O toque mesmo nas coisas
para lembrar as mãos da
arquitetura limpa daquilo
que o mundo gestou.

A mão limpa, cartesiana, reta
pelas coisas
para tirar o pó sobre os nomes

sol, xícara, casca, ladrilho, pêssego, miséria

e tocar outra vez
como no Dia Primeiro
algo dos nomes
que vibre.

*

Aquilo que me sou não me é nunca.
Pensando o que serei no escasso espaço
de mim, não sei se penso e sou aquilo
ou se, pensando, passa o tempo e passo

– se passo e já não sou o que pensara,
nem o que penso agora e que já passa.
Não sei se algum momento embosco aquele
que vejo ou se descubro-me sua caça.

 

***

 

Matheus Guménin Barreto (1992- ) é poeta e tradutor mato-grossense. É autor dos livros de poemas “A máquina de carregar nadas” (7Letras, 2017) e “Poemas em torno do chão & Primeiros poemas” (Carlini & Caniato, 2018). Doutorando da Universidade de São Paulo (USP) na área de Língua e Literatura Alemãs – subárea tradução -, estudou também na Universidade de Heidelberg (Alemanha). Encontram-se textos seus no Brasil, na Espanha e em Portugal (Revista Cult, Escamandro, plaquete “Vozes, Versos”, Palavra Comum, Enfermaria 6, Revista Escriva [PUC-RS], Revista Magma [USP], Revista Opiniães [USP], A Bacana, Diário de Cuiabá; entre outros), e integrou o Printemps Littéraire Brésilien 2018 na França e na Bélgica a convite da Universidade Sorbonne. Publicou em periódicos ou em livros traduções de Bertolt Brecht, Erich Kästner, Ingeborg Bachmann, Johannes Bobrowski, Nelly Sachs, Paul Celan, Peter Waterhouse e outros.
http://www.matheusgumenin.com
matheusgumenin@hotmail.com

Quinta Maldita #49 – Literatura & Crise – 23.5.2019

Literatura & Crise | Quinta Maldita #49
Idealização: Demétrio Panarotto
Montagem: Marcio Fontoura
Produção: Desterro Cultural com parceria da Ruído Manifesto. Música de Joan Tower.

Com as vozes de:

1 – Adelaide Ivánova (PE) – Piriguetismo de guerrilha (Pra Maria Filipa)
2 – Tarso de Melo (SP) – Variações sobre o medo
3 – Hirondina Joshua (Moçambique) – [sem título]
4 – Fabiano Calixto (PE) – Cadáver esquisito
5 – Natasha Felix (SP) – Feliz como Lázaro
6 – Ronald Augusto (RS) – Em resposta a uma outra solicitação que lhe fizeram
7 – Cinthia Kriemler (RJ/DF) – Lixo
8 – Ismar Tirelli Neto (RJ) – [sem título]
9 – Divanize Carbonieri (SP/MT) – Bagaço
10 – Matheus Guménin Barreto (MT) – [sem título]
11 – Lívia Bertges (MG/MT) – Lama
12 – Óscar Fanheiro (Moçambique) – [sem título]
13 – Marceli Andresa Becker (RS) – [sem título]
14 – Natália Agra (AL) – Canção para W. B. Yeats
15 – Sofia Ferrés (Uruguai/SP) – [sem título]
16 – Marcelo Labes (SC) – Mare nostrum
17 – Adriane Garcia (MG) – Adoro os grandes capitalistas
18 – Duan Kissonde (RS) – [sem título]
19 – Ângela Coradini (MT) – Poema treze
20 – Gustavo Matte (SC/RS) – [sem título]
21 – Tita F. Martinuci (PR/MT) – [sem título]
22 – Bruna Mitrano (RJ) – [sem título]

Quinta Maldita #22 – Afeto & Erotismo – 15.3.2018

Afeto & Erotismo | Quinta Maldita #22
Idealização: Demétrio Panarotto
Montagem: Marcio Fontoura
Produção: Desterro Cultural com parceria da Ruído Manifesto. Música de Sofia Gubaidulina. Pintura de Mark Rothko.

Com as vozes de:

01 Micheliny Verunschk – [sem título]
02 Natalia Borges Polesso – Saliva
03 Casé Lontra Marques – Encaixar o rosto nos ossos
04 Aline Bei – Penetração
05 Matheus Guménin Barreto – Um corpo incendiado: este
06 Caio Augusto Leite – [sem título]
07 Natasha Felix – [sem título]
08 Ave Terrena Alves – [sem título]
09 Gustavo Cardoso – Copacabana
10 Joe Sales – Amor de ainda
11 Marilia Beatriz de Figueiredo Leite – [sem título]
12 Leonardo Chioda – Escreveu certa vez o fotógrafo Duane Michals
13 Luana Claro – [sem título]
14 Marcelo Labes – Inverno
15 Lilian Sais – Manual pornodidático para homens
16 Rafael Tahan – Pathos
17 Santiago Santos – Raiane
18 Rodivaldo Ribeiro – Uma dúvida
19 Tita F. Martinuci – [sem título]
20 Wuldson Marcelo – Da estrada e sobre ela
21 Simone Brantes – Pote

 

3 poemas de Matheus Guménin Barreto – Revista Pixé nº3 – 31.5.2019

(Fonte: https://www.revistapixe.com.br/ )

 

Aquilo que me sou não me é nunca.
Pensando o que serei no escasso espaço
de mim, não sei se penso e sou aquilo
ou se, pensando, passa o tempo e passo

– se passo e já não sou o que pensara,
nem o que penso agora e que já passa.
Não sei se algum momento embosco aquele
que vejo ou se descubro-me sua caça.

*

corpo: que coisa será essa
a que servirá ou a quem, computará quem
os beijos que deu e dará e quem os tons
de carmim que já viu aos domingos e quem
os cachorros que lhe lamberam os dedos e quando
e quem computará as madrugadas e o branco que fazem
e quem
os sons que gestou na garganta e não disse e quem
o amor miúdo e bom que reina entre as paredes de um apartamento e quem
dirá a esse corpo que tudo
cedo ou tarde
não vai ter existido
na garganta faminta do tempo?

*

Como escrever um poema
enquanto a fome carcome um corpo a-
inda que um só corpo ainda que como escrever um poema como escrever um poema como escrever um poema como escrever um poema como escrever um poema como escrever um poema como escrever um poema como escrever um poema como escrever um poema como escrever um poema como escrever um poema como escrever um poema como escrever um poema como escrever um poema como escrever um

 

***

 

*Matheus Guménin Barreto (1992- ) é poeta e tradutor mato-grossense. É autor dos livros de poemas A máquina de carregar nadas (7Letras, 2017) e Poemas em torno do chão & Primeiros poemas (Carlini & Caniato, 2018). Doutorando da Universidade de São Paulo (USP) na área de Língua e Literatura Alemãs – subárea tradução -, estudou também na Universidade de Heidelberg (Alemanha). Encontram-se poemas seus no Brasil, na Espanha e em Portugal (Revista Cult, Escamandro, plaquete “Vozes, Versos”, Mallarmargens, Palavra Comum e Diário de Cuiabá; entre outros), e integrou o Printemps Littéraire Brésilien 2018 na França e na Bélgica a convite da Universidade Sorbonne.

Onde adquirir os livros

O livro MESMO QUE SEJA NOITE (Editora Corsário-Satã, 2020) pode ser adquirido:

no site da editora Corsário-Satã com envio para todo o Brasil: corsariosata@gmail.com / (11) 95797-5414 ( https://corsario-sata.minestore.com.br/produtos/mesmo-que-seja-noite-de-matheus-gumenin-barreto  )

Print - Capa - Mesmo que seja noite - Matheus

 

*

 

O livro POEMAS EM TORNO DO CHÃO & PRIMEIROS POEMAS (Editora Carlini & Caniato, 2018) pode ser adquirido:

no site da Editora Carlini & Caniato com envio para todo o Brasil e exterior: (65) 3023-5714 ( https://www.carliniecaniato.com.br/livro/poemasemtornodochaoeprimeirospoemas )

na livraria Rua Antiga (dentro do espaço cultural Metade Cheio) – Cuiabá: (65) 3027-3896 ( https://pt-br.facebook.com/pages/category/Bookstore/Rua-Antiga-Sebo-Itinerante-386504485038009/ )

Capa - Poemas em torno do chão & Primeiros poemas - Matheus Guménin Barreto

 

*

.
O livro A MÁQUINA DE CARREGAR NADAS (Editora 7Letras, 2017) pode ser adquirido:

no site da Editora 7Letras com envio para todo o Brasil e exterior: (21) 2540-0076 ( http://www.7letras.com.br/a-maquina-de-carregar-nadas.html )

na Livraria Flâneur – Porto [Portugal]: ( https://www.flaneur.pt/produto/a-maquina-de-carregar-nadas/ )

na Livraria da Travessa – Rio de Janeiro: (21) 2508-6872 ( https://www.travessa.com.br/a-maquina-de-carregar-nadas/artigo/8de83fb0-543c-4240-97c2-93e8750a3e88 )

na Livraria Baleia (Aldeia) – Porto Alegre: (51) 3084-9044 ( https://www.facebook.com/livrariabaleia/ )

na livraria Rua Antiga (dentro do espaço cultural Metade Cheio) – Cuiabá: (65) 3027-3896 ( https://pt-br.facebook.com/pages/category/Bookstore/Rua-Antiga-Sebo-Itinerante-386504485038009/ )

na Livraria Blooks – São Paulo: (11) 3259-2291 ( http://blooks.com.br/ )

na Livraria Tapera Taperá – São Paulo: (11) 3151-3797 ( http://taperatapera.com.br/ )

na Livraria Martins Fontes – São Paulo: (11) 3292-2660  ( http://www.martinsfontespaulista.com.br/maquina-de-carregar-nadas-a-560619.aspx/p )

na Patuscada – Livraria, bar & café – São Paulo: (11) 98158-3270 ( https://www.facebook.com/livrariapatuscada/ )

maquina_de_carregar_nadas_capa.jpg

3 poemas inéditos de Matheus Guménin Barreto – Revista Pixé nº1 – 31.3.2019

(Fonte: https://www.revistapixe.com.br/ )

Três poemas da série “Deus in machina”

 

intuir sua inexistência
nos gestos do irmão e do inimigo
igualmente
sua inexistência intuir na sombra entre a fruteira e a parede
branca, intuir no silêncio respondido
e não
que é já tarde para haver

que é já tarde para haver,
que mãos demais bateram já no chão
que palavras demais travaram já na língua
e travarão

intuir tanto e de tantas formas
que não haver já não tem importância,
como o resto,
e a laranjeira segue ardendo, dourada.

*

‘eu sou aquele que sou’

e o chiar dos galhos, crepitar da chuva
é o que é, talvez,
se for. e o centro sempre movente
o centro em todo lugar
também o será,
se for. e o morno de mãos amorosas,
se houver, será também,
se for.

não sou aquele que sou
nem posso ser, e contemplo
extático de brasas
aquele que talvez seja,
se for.

*

vazios o túmulo de clara pedra
os trapos claros
sob o testemunho da manhã.

ruge na rocha do sepulcro
a brisa
e anuncia que nada virá
nem ninguém.

***

Matheus Guménin Barreto (1992- ) é poeta e tradutor mato-grossense. Doutorando da Universidade de São Paulo (USP) na área de Língua e Literatura Alemãs – subárea tradução -, estudou também na Universidade de Heidelberg (Alemanha). Publicou em periódicos e livros traduções de Bertolt Brecht, Paul Celan, Peter Waterhouse e Ingeborg Bachmann. Encontram-se poemas seus no Brasil, em Portugal e na Espanha, e integrou o Printemps Littéraire Brésilien 2018 na França e na Bélgica a convite da Universidade Sorbonne. É autor dos livros de poemas A máquina de carregar nadas (7Letras, 2017) e Poemas em torno do chão & Primeiros poemas (Carlini & Caniato, 2018 – coleção Olho d’água).

Microantologia – 10 poemas de Matheus Guménin Barreto – Revista Palavra Comum / Espanha – 20.3.2019

(Fonte: http://palavracomum.com/10-poemas-de-matheus-gumenin-barreto/ )

Como escrever um poema
enquanto a fome carcome um corpo a-
inda que um só corpo ainda que como escrever um poema como escrever um poema como escrever um poema como escrever um poema como escrever um poema como escrever um poema como escrever um poema como escrever um poema como escrever um poema como escrever um poema como escrever um poema como escrever um poema como escrever um poema como escrever um poema como

***

é lícito um poema onde ecoem passos
de um único homem ou de sua sombra os passos?
é lícito o poema de uns pés descalços, limpos, sobre um
pátio ainda mais? lícito
que água ainda não convexa de toques nem
de rostos outros espelhados que um só rosto, que essa água
reste?
ecos, passos, sombras, pés descalços, toques?
é lícito que haja? é lícito que haja tão rara palavra:
lícito?

é lícito que haja o que haver em versos
como estes
se os tiroteios furam a pele de uma mãe de um pai de um filho e de um que não nasceu e não nascerá num canto escuro qualquer deste país que nem me digno a saber enquanto escrevo um poema sobre escrever um poema sobre um revólver calibre 38 que resolve anular o tempo?

***

o amado que toca os pulsos mornos
de seu amado
e o braço e as mãos
tremulargênteas
e o rosto toca e o sexo
quente e afiado
o amado que toca os pulsos mornos
de seu amado
e sabe de repente o que é um ensolarado riso e
a noite antiquíssima que o olha
de volta.

***

corpo: que coisa será essa
a que servirá ou a quem, computará quem
os beijos que deu e dará e quem os tons
de carmim que já viu aos domingos e quem
os cachorros que lhe lamberam os dedos e quando
e quem computará as madrugadas e o branco que fazem
e quem
os sons que gestou na garganta e não disse e quem
o amor miúdo e bom que reina entre as paredes de um apartamento e quem
dirá a esse corpo que tudo
cedo ou tarde
não vai ter existido
na garganta faminta do tempo?

***

arder a vida em palavras

medidas sombra por
sombra
duma mão noutra arder a vida
na geografia incerta da boca

que arde um instante e desce à terra.

arder a vida nos ecos

e nos corpos ora nacarados ora suados do
discurso que o lábio promete
nem sempre cumpre
e quando cumpre é sempre quase.

equidistante do fim e do início arder a vida

enquanto o corpo se desfaz devagar
com carinho quase
mas resoluto.

arder do verbo absoluto à procura

o verbo na sarça que se queima magnífico
e não existe.

arder a vida pruma bosta qualquer

que mal nasce já não existe ::

– arder a vida à procura dum sol pousado na mesa
dum dia de justiça entre irmãos
e descer à terra ciente – mas contente, resoluto –
de nada ter nas mãos.

***

Aquilo que me sou não me é nunca.
Pensando o que serei no escasso espaço
de mim, não sei se penso e sou aquilo
ou se, pensando, passa o tempo e passo

– se passo e já não sou o que pensara,
nem o que penso agora e que já passa.
Não sei se algum momento embosco aquele
que vejo ou se descubro-me sua caça.

***

OLEAJE
muro branco
onde os adeuses do mar se recolhem junto à sombra,
salgados e frescos.

(27-3-2017)

***

PRIMEIRO

O toque mesmo nas coisas
para lembrar as mãos da
arquitetura limpa daquilo
que o mundo gestou.

A mão limpa, cartesiana, reta
pelas coisas
para tirar o pó sobre os nomes

sol, xícara, casca, ladrilho, pêssego, miséria

e tocar outra vez
como no Dia Primeiro
algo dos nomes
que vibre.

***

CANTO DE DISSOLUÇÃO
Sepultadas no tempo
deitam-se as coisas todas,
que já nem coisas são,
mas memória de coisas.

Sepultados no tempo
afundam-se os rostos
todos, ou quase todos,
e as datas, risos, gostos.

Sepultadas no tempo
jazem as nossas vidas,
num tempo em que não são
nem gozo nem ferida.

Sepultados, enfim,
no tempo, todos nós.

Onde não há nem feito,
nem pessoa, nem voz.

***

MANHÃ
a –
Notícias da manhã
informam que o tempo, de
_____________fato, passou,
e que a noite foi só uma
de fato.

b –
O dorso arrebentado do sol,
surge o dia.

c –
A manhã ruge
nos dentes das árvores.

*

Matheus Guménin Barreto (1992- ) é poeta e tradutor de Cuiabá (Brasil). Doutorando da Universidade de São Paulo (USP) na área de Língua e Literatura Alemãs – subárea tradução -, estudou também na Universidade de Heidelberg. Publicou traduções de Bertolt Brecht e Ingeborg Bachmann. Encontram-se poemas seus no Brasil e em Portugal (plaquete “Vozes, Versos”, Escamandro, Mallarmargens, Revista Germina, Enfermaria 6, Revista Escriva [PUC-RS], A Bacana e Diário de Cuiabá; entre outros), e integrou o Printemps Littéraire Brésilien 2018 na França e na Bélgica a convite da Universidade Sorbonne.
É autor dos livros de poemas A máquina de carregar nadas (7Letras, 2017), Poemas em torno do chão & Primeiros poemas (Carlini & Caniato, 2018) e Mesmo que seja noite (Corsário-Satã, 2020).

3 poemas inéditos de Matheus Guménin Barreto – Revista Pixé nº0 – 9.3.2019

(Fonte: https://www.revistapixe.com.br/ )

Quando morre o morto
isto é:
quando o que já é morte nas linhas futuras
morre no agora
e completa seu porquê

quando morre o morto
a relva de tudo engole seu baque
mudo
e de repente de repente o haver e
[o não haver
do morto
tornam-se matéria hipotética ::
alheios já à violência limpa que é existir.

*

é lícito um poema onde ecoem passos
de um único homem ou de sua sombra os passos?
é lícito o poema de uns pés descalços, limpos, sobre um
pátio ainda mais? lícito
que água ainda não convexa de toques nem
de rostos outros espelhados que um só rosto, que essa água
reste?
ecos, passos, sombras, pés descalços, toques?
é lícito que haja? é lícito que haja tão rara palavra:
lícito?

é lícito que haja o que haver em versos
como estes
se os tiroteios furam a pele de uma mãe de um pai de um filho e de um que não nasceu e não nascerá num canto escuro qualquer deste país que nem me digno a saber enquanto escrevo um poema sobre escrever um poema sobre um revólver calibre 38 que resolve anular o tempo?

*

O AMADO, MORNO, À MEIA-LUZ
O amado, morno, à meia-luz
febril, que toca o amado ereto;
aflito, esquiva-se da luz
o amado, morno, à meia-luz,
febris os dois, febris e nus.
Aflitos – se são descobertos
o amado, morno, à meia-luz
febril e o seu amado ereto!

***

Matheus Guménin Barreto (1992) é um poeta e tradutor brasileiro. Nascido em Cuiabá, é doutorando da USP. Estudou também na Universität Heidelberg. Traduziu Bertolt Brecht e Ingeborg Bachmann, e é autor dos livros de poemas A máquina de carregar nadas (2017, 7Letras) e Poemas em torno do chão & Primeiros poemas (2018, Carlini & Caniato – Coleção Olho d’Água). Foi publicado no Brasil e em Portugal (Escamandro, A Bacana, plaquete do “Vozes, Versos”, Enfermaria 6, Revista Escriva e Diário de Cuiabá; entre outros). É um dos editores do site cultural mato-grossense Ruído Manifesto e integrou o Printemps Littéraire Brésilien 2018 na França e na Bélgica a convite da Universidade Sorbonne.

“Rondó pederasta” – Revista Magma (DLCV-USP) – 28.12.2018

(Fonte: http://www.revistas.usp.br/magma/article/view/154421 )

Rondó pederasta
Virilha: morna e cheirando a vin-
ho e bocas:
ângulos duros, escuros
à espreita nas moitas, mais
ângulos duros entre as qu-
inas
da carne rubra,
o apontar-se do arpão da seta da espada da cr-
uz
do pênis
e as promessas pastoris no terreno de sua carne

os veios sem barco que os navegue
a espada sem braço que a empunhe
as moitas sem lobos que as espreitem —
eu barco eu braço eu lobo, enf-
im
sagro
o corpo do hom-
em
que submete-se ao homem outro e é
por ele sub-
metido.

Cinco poemas do livro “Poemas em torno do chão & Primeiros poemas” e um inédito de Matheus Guménin Barreto – Revista Oficina Irritada – 22.12.2018

(Fonte: https://oficinairritadarevista.blogspot.com/2018/12/poemas-em-torno-do-chao-um-poema.html )

O primeiro poema abaixo é inédito em livro, os demais estão no volume recém-lançado Poemas em torno do chão & Primeiros poemas (Carlini & Caniato, 2018).

***

 

[SEM TÍTULO]
arder a vida em palavras

medidas sombra por
sombra
duma mão noutra arder a vida
na geografia incerta da boca

que arde um instante e desce à terra.

arder a vida nos ecos

e nos corpos ora nacarados ora suados do
discurso que o lábio promete
nem sempre cumpre
e quando cumpre é sempre quase.

equidistante do fim e do início arder a vida

enquanto o corpo se desfaz devagar
com carinho quase
mas resoluto.

arder do verbo absoluto à procura

o verbo na sarça que se queima magnífico
e não existe.

arder a vida pruma bosta qualquer

que mal nasce já não existe ::

– arder a vida à procura dum sol pousado na mesa
dum dia de justiça entre irmãos
e descer à terra ciente – mas contente, resoluto –
de nada ter nas mãos.

*

5. PALMONES, 18XX
a)
cansados talvez os seus olhos
destas palmeiras
cansados
destas paredes brancas nuas gastas
de igreja cansados talvez os seus olhos
de ruminarem sobre os
lampejos de mar e
do labor seu de olhar a Ceuta no horizonte
próxima e distante
cansados talvez tenham se cansado os olhos seus
dos adeuses do mar sobre a areia
– que volta sempre, arrependido.

27-3-2017

*

6. OLEAJE
muro branco
onde os adeuses do mar se recolhem junto à sombra,
salgados e frescos.

27-3-2017

*

CUIABÁ/CHAPADA DOS GUIMARÃES
O vento professa à rocha
suas aulas do desfazer-se
de tudo no tempo. O vento
arranca, da rocha, a areia:

de grão em grão faz escola:
a rocha, no ensinamento,
é aluna: na lição dura
de nada durar no tempo.

Os rubros montes de areia
– Chapada dos Guimarães
em torno de Cuiabá –
aprendem suas lições.

Os montes de forma fraca
desfazem-se ante um ditado
do vento: de que o que o homem
ergueu, o que ele escancara,

esconde e derruba o tempo:
que aquilo que o braço monta
o sopro derrubará:
que aquilo que o sonho encontra

e o homem faz realidade
o tempo outra vez o acha
e torna outra vez em sonho
que ninguém mais sonhará.

Paciente labor do vento,
irmão mais novo do tempo,
que esculpe Chapada grão
por grão: apesar de lento,

certeiro é no seu trabalho:
que é muito apesar de pouco,
que é grande mesmo pequeno,
que é muitos trabalhos poucos.

Os montes têm nessa escola
lição de se desfazer:
que o pouco que faz o homem,
que o muito que o homem vê

apaga-se sobre a pedra
do tempo em geometrias
secretas ao despencar:
desfaz qual desfeito é um dia

na barra vermelho-roxa
da tarde, em seu é-não-é.
Aquilo que o homem faz,
aquilo que o homem vê,

aquilo que o homem cala,
aquilo que o homem diz,
aquilo que o homem prende
aquilo que o homem quis

aprende a lição que aprende
o monte, ao se desfazer.
O monte rubro-laranja:
quando ele iria dizer

do tempo o grande segredo,
a resposta que se espera —
despenca em areia branda
pra lá do que já não é.

O vento professa à rocha
suas aulas do desfazer-se
de tudo no tempo. O vento,
de régua em mãos, instrui: tempo.

27/06/2017

*

B – O SEXO DOS DOIS HOMENS
Na fresco-gruta
(refúgio)
concha do não mar fechada à luz despudorada
dois homens maquinam o presente
no corpo um do
outro
agudo o tempo presente
agudo e branco e musgoso e

então calma e nada –

ah — ir e vir da onda do mar
onda dum mar inexistente
por isso mais mar.

dois homens maquinaram o presente
(na baía um d’outro o maquinaram)
e não sabem agora onde pô-lo,
ariscos.

lá fora no céu rumina o boi um presente outro
comum e outro
alheio à maquinação do amor.

*

[SEM TÍTULO]
Aquilo que me sou não me é nunca.
Pensando o que serei no escasso espaço
de mim, não sei se penso e sou aquilo
ou se, pensando, passa o tempo e passo

– se passo e já não sou o que pensara,
nem o que penso agora e que já passa.
Não sei se algum momento embosco aquele
que vejo ou se descubro-me sua caça.

***

Matheus Guménin Barreto (1992, Cuiabá) é poeta e tradutor mato-grossense. Doutorando da Universidade de São Paulo (USP) na área de Língua e Literatura Alemãs, estudou também na Universidade de Heidelberg. Publicou traduções de Bertolt Brecht e Ingeborg Bachmann. Encontram-se poemas seus no Brasil e em Portugal, e integrou o Printemps Littéraire Brésilien 2018 na França e na Bélgica a convite da Universidade Sorbonne. É autor dos livros de poemas A máquina de carregar nadas (7Letras, 2017) e Poemas em torno do chão & Primeiros poemas (Carlini & Caniato, 2018).

“Um corpo incendiado: este” – Libertinagem: Revista de Literatura e Arte eróticas – 20.12.2018

(Fonte: http://revistalibertinagem.com.br/?fbclid=IwAR2uk81vJfgWpYM3Ak1Pwi6683uj8f7Jivy_gFOUdHuComKPtT-W1pZi0qs )

Excerto f – Um corpo incendiado: este
o amado que toca os pulsos mornos
de seu amado
e o braço e as mãos
tremulargênteas
e o rosto toca e o sexo
quente e afiado
o amado que toca os pulsos mornos
de seu amado
e sabe de repente o que é um ensolarado riso e
a noite antiquíssima que o olha
de volta.

*

o sexo
devir perpétuo: tempo enclausurado
o amado e seu amado inventam tempo,
corpo, febre
e o que medi-los

*

o mapa do corpo sob as mãos
desenhando itinerários bruscos
mornos
contornando bocas que não existem, mas que existirão
pés que não andaram, mas andarão
sexos que não se apontaram
mas que se apontam, agudos, sob o toque
devagar
como o encontro
de um trópico último com um último meridiano

os olhos nublados de algo que não se adivinha

o homem tem o homem nas mãos
e as mãos seguem seu cego itinerário provisório
apagado sempre pelo toque próximo e sombra e esquecimento –
apagado como a praia e o vento que a inaugura.

*

pulsos frescos de amor
alegres do arrear o amor e serem
por ele arreados.

*

a cegueira do homem que de seu corpo morno
soletra o corpo morno d’outro homem
os sinais as vírgulas
discursa entre duas bocas
e recita, extático e nu, a abrasada
violenta
poesia
que o corpo maquina na carne.

*

no beijo
o que há de elástico o que há de contrito
de adivinhado
o que há de inaudito talvez ou
quase ou sempre
entre o dizer de bocas mudas?
talvez tremeluza nos céus seus
mornos
a estrela da manhã
branda e inconstante
e nela se solucione um homem
como uma noite se soluciona em dia.

*

descobrir as palavras eu te amo

pesar na mão cada uma, medir
sua massa numa mão
n’outra
articular a língua os lábios dentes como
pela primeira vez
um homem o fez
um homem o fez a outro homem
testar o que abarca cada letra, o que deixa, o que fala
testar cada som e sombra que acaso fique
nas arestas do a, do e

descobrir as palavras eu te amo
e a violência que é usá-las.

***

Matheus Guménin Barreto (1992, Cuiabá) é poeta, tradutor e doutorando em teoria da tradução (FFLCH-USP). Publicou traduções de Bertolt Brecht e Ingeborg Bachmann. Em 2018 integrou o Printemps Littéraire Brésilien na França e na Bélgica a convite da Universidade Sorbonne. Publicou os livros A máquina de carregar nadas (7Letras, 2017) e Poemas em torno do chão & Primeiros poemas (Carlini & Caniato, 2018).

 

Cinco poemas do livro “Poemas em torno do chão & Primeiros poemas” de Matheus Guménin Barreto – Ruído Manifesto – 7.12.2018

(Fonte: http://ruidomanifesto.org/cinco-poemas-de-matheus-gumenin-barreto/ )

Os cinco poemas abaixo fazem parte do livro Poemas em torno do chão & Primeiros poemas (Carlini & Caniato, 2018), que será lançado em box da editora com outros 9 livros do modernismo e do período contemporâneo mato-grossenses. O lançamento acontece no dia 10/12/2018 na Casa Barão de Melgaço (Cuiabá) às 19h30.

A carta ao final da postagem foi escrita pelo poeta catarinense Marcelo Labes em 26 de abril de 2018 e o artigo sobre o poema “Cuiabá/Chapada dos Guimarães” foi escrito pela poeta Lucinda Nogueira Persona (e originalmente publicado no Diário de Cuiabá no dia 8 de julho de 2017).

***

3. El rumorear
(e entre os muros entre os ramos entre as fontes
por detrás do espelho
-d’água
rumoreja baixinho aquele sangue
derramado
além-mar)

26-3-2017

[da seção “Poemas espanhóis”]

*

6. Oleaje
muro branco
onde os adeuses do mar se recolhem junto à sombra,
salgados e frescos.

27-3-2017

[da seção “Poemas espanhóis”]

*

Cuiabá/Chapada dos Guimarães
O vento professa à rocha
suas aulas do desfazer-se
de tudo no tempo. O vento
arranca, da rocha, a areia:

de grão em grão faz escola:
a rocha, no ensinamento,
é aluna: na lição dura
de nada durar no tempo.

Os rubros montes de areia
– Chapada dos Guimarães
em torno de Cuiabá –
aprendem suas lições.

Os montes de forma fraca
desfazem-se ante um ditado
do vento: de que o que o homem
ergueu, o que ele escancara,

esconde e derruba o tempo:
que aquilo que o braço monta
o sopro derrubará:
que aquilo que o sonho encontra

e o homem faz realidade
o tempo outra vez o acha
e torna outra vez em sonho
que ninguém mais sonhará.

Paciente labor do vento,
irmão mais novo do tempo,
que esculpe Chapada grão
por grão: apesar de lento,

certeiro é no seu trabalho:
que é muito apesar de pouco,
que é grande mesmo pequeno,
que é muitos trabalhos poucos.

Os montes têm nessa escola
lição de se desfazer:
que o pouco que faz o homem,
que o muito que o homem vê

apaga-se sobre a pedra
do tempo em geometrias
secretas ao despencar:
desfaz qual desfeito é um dia

na barra vermelho-roxa
da tarde, em seu é-não-é.
Aquilo que o homem faz,
aquilo que o homem vê,

aquilo que o homem cala,
aquilo que o homem diz,
aquilo que o homem prende
aquilo que o homem quis

aprende a lição que aprende
o monte, ao se desfazer.
O monte rubro-laranja:
quando ele iria dizer

do tempo o grande segredo,
a resposta que se espera —
despenca em areia branda
pra lá do que já não é.

O vento professa à rocha
suas aulas do desfazer-se
de tudo no tempo. O vento,
de régua em mãos, instrui: tempo.

27/06/2017

[da seção de mesmo nome]

*

d – Fora da casa: as ruas de Cuiabá  
Os cacos da luz mastigados
pelo sol
as arestas e as linhas retas e os ângulos
claros
claros como a clara do ovo claros
como a espuma dos mares claros
como a quina do último quarto onde o amor se fará, no último dia do tempo:

cuia-
bá suas forjas visíveis
onde o ferreiro o ferreiro faz suas lâminas de
luz
e as refaz, todos os dias

onde cada aresta é a não-aresta,
a pino,
e o sol come folhas das nossas mãos.

[do poema narrativo homoerótico “Cuiabá”]

*

Desassossego
b)
Dedos que aquecem-se à chama
morna da sarça dos dias,
confusos de si e da chama.
Confusos do que os chama
– que deus ‘inda os chamaria?
Nenhum. E arde o tempo em frente
e ardendo forma-se sempre
da parte de si que ardia.

[da seção “O não chão”]

*

Uma carta

Texto escrito e enviado de Florianópolis pelo poeta Marcelo Labes no dia 26 de abril de 2018.

Neno querido,

tu me colocas numa situação confortável e estranha quando me envias teus poemas. Pedi para que me contextualizasses a fim de eu saber quando e como. E a minha surpresa ao saber que esses poemas do “O não chão” são de agora. Então me explico para te falar de conforto e estranheza.

O conforto surge ao ler um poeta maior. Digo isso porque nós, poetas menores, não só não nos acostumamos à forma como nos limitamos aos conteúdos menores, de poetas menores. Por quê? Ora, certamente porque há um cuidado – e já falei disso antes – no que escrever. Um cuidado cirúrgico, quase. Um olhar minucioso sobre o poema. Uma lapidação que não nos mostra a pedra como veríamos numa vitrine, não. É um formato novo, ainda que antigo: é um formato todo teu, Matheus.

Sobre a estranheza, acho que me alongo.

Vejo isso em “O não chão” como vejo em teus primeiros. Há um conflito latente ali. Não sei se identifico o que me aparece, mas talvez seja um duelo entre uma forma antiga – ou uma recordação de formato – , e uma linguagem que comunica e não esconde nada. Se no chiaroscuro temos as sombras, onde nem tudo é visível e, o que é, muitas vezes é disforme, teus poemas não deixam um lado vazio: eles mostram, pelo contrário, luz e sombra do humano, do sujeito este, de carne e osso, com a alma confusa, como geralmente somos.

A propósito, retorno ao tema do poeta maior. Porque para além da lapidação, há outro olhar (com lupa?, com telescópio?, microscópio?, com o quê?) que nos desnuda a todos pela tua palavra. Ora, que isso se deve ao ofício de poeta. Mas assim, Matheus, assim o ofício se cumpre tão inteiramente que não chega a haver um outro lado do poema. Se nessa intenção barroca, se naquela intenção juvenil de “Primeiros poemas”, tanto faz: há ali um todo espantoso, uma completude alcançada com as palavras e, nelas, com a tua humanidade – que não é a nossa humanidade, é outra coisa, é além – que me faz parar e me diminuir diante de teus poemas.

Sinto-me contemplado. Sinto-me enxergado. Sinto-me desafiado a tratar a língua com mais respeito e destreza.

Se não dissesse ali serem essa a tua juvenília, pensaria ser os poemas de antes de ontem. E são, de certa forma, porque imagino que aí, como aqui, o tempo é um brinquedo com o qual nos divertimos.

Teus poemas são bálsamo. E se já disse isso, repito agora com mais força: teus poemas são bálsamo.

E eu, e nós, humanos sem cura, nós te precisamos.

Beijo grande.

Saudade.

Marcelo

Marcelo Labes: poeta catarinense, autor de Enclave (Editora Patuá, 2018), Trapaça (Oito e Meio, 2016), O filho da empregada (Antítese, Hemisfério Sul, 2016), Porque sim não é resposta (Antítese, Hemisfério Sul, 2015) e Falações (EdiFurb, 2008).

 

 *

 

Lições através do vento

Texto de Lucinda Nogueira Persona publicado no Diário de Cuiabá no dia 8 de julho de 2017 junto ao poema “Cuiabá/Chapada dos Guimarães”.

A paisagem nasce na luz do olhar e representa um desafio à sensibilidade. Algumas vezes (senão todas) causa tamanho fascínio ou inquietação, ao ponto de levar o espírito às mais variadas expressões, principalmente na arte, dentre as quais a poesia responde com absoluta presteza.

É o que se observa no poema “Cuiabá/Chapada dos Guimarães”, de Matheus Guménin Barreto, sendo posto a serviço do leitor. No referido poema, o jovem autor trabalha com comarcas imanentes da existência: a passagem do tempo, os sonhos, as transformações, a morte. Sua visão particular recai sobre um patrimônio natural, um clássico comovente da geomorfologia mato-grossense, aquele que emoldurando o horizonte quando se olha de Cuiabá, traz a ideia de um lugar que não se pode deixar de conhecer.

Trata-se da extensa área de planalto, o relevo da Chapada dos Guimarães, com grandes encostas e escarpas de arenito vermelho, soerguidas a 600 ou 800 metros de altitude. Entretanto, isso ecoa como informação de uma aula um tanto comedida, padronizada. E esta não é a perspectiva do poeta, já nos versos iniciais: “O vento professa à rocha / suas aulas do desfazer-se / de tudo no tempo. O vento / arranca, da rocha, a areia”.

Matheus Guménin nos fala em termos de uma lição mais extensa, prática e fabulosa, na qual o professor é alguém que não para nunca, em milhares de anos de aulas diárias; a aluna é empedernida, conformada em seu torpor mineral e a sala de aula, nada convencional, está a céu aberto, sobre um chão cujo evento geológico mais recente (e que lhe deu a face atual) remonta a 15 milhões de anos. Desse chão emergem rochas varridas pelo vento. E o vento, de onde quer que venha, intenso ou não, dia a dia faz seu trabalho na pedra, que se perde como areia. Assim, a paisagem surge com força impositiva na argamassa do poema, onde as partes de um cenário colossal são evocadas para a tradução de uma experiência vinculada aos efeitos do tempo sobre as coisas e os seres.

Vários elementos podem ser apontados nas considerações de um dado poema, mas aqui, na sólida construção de 15 estrofes de Matheus Guménin, o grato parâmetro é a fração da natureza absorvida pelo olhar. Construindo o poema a partir da desconstrução das rochas pelo vento, o poeta revela um pouco daquilo que pensa, sente e acredita ser o mundo, a vida e a linguagem. Emoção e razão se contrabalançam em suas mãos e a forma adotada faz vislumbrar certa filiação ao universo cabralino. Ao longo do poema, o autor elege e agrega alguns signos (escola, lição, pedra) que nos remetem de algum modo ao “A educação pela pedra” de João Cabral de Melo Neto.

Na elaboração de Matheus Guménin, o sujeito poético se posiciona fora dos eventos que descreve, mas não deixa de estar diante do mundo, diante da vida e de si mesmo, como vítima da experiência. Uma experiência repassada para todos aqueles cujo apetite pelas transcendências seja inesgotável.

Lucinda Nogueira Persona: poeta, ficcionista, cronista, ocupa a cadeira nº 4 da Academia Mato-grossense de Letras. Graduada em Biologia (UFMT), Mestre em Histologia e Embriologia (UFRJ), com estágios profissionais na Universidade do Chile. Professora aposentada (UFMT / UNIC). Livros publicados (Poesia): Por imenso gosto (Massao Ohno, 1995), Ser cotidiano (7Letras, 1998), Sopa Escaldante (7Letras, 2001), Leito de Acaso (7Letras, 2004), Tempo comum (7Letras, 2009), Entre uma noite e outra (Entrelinhas, 2014).

Quatro poemas do livro “A máquina de carregar nadas” de Matheus Guménin Barreto – Revista Primata – 22.11.2018

(Fonte: http://www.poesiaprimata.com/matheus-gumenin-barreto/matheus-gumenin-barreto-a-maquina-de-carregar-nadas-2017/ )

 

Matheus Guménin Barreto (1992, Cuiabá) é poeta, tradutor e doutorando em teoria da tradução (FFLCH-USP). Publicou traduções de Bertolt Brecht e Ingeborg Bachmann. Em 2018 integrou o Printemps Littéraire Brésilien na França e na Bélgica a convite da Universidade Sorbonne. Publicou os livros A máquina de carregar nadas (7Letras, 2017) e Poemas em torno do chão & Primeiros poemas (Carlini & Caniato, 2018).

Os poemas a seguir foram selecionados do livro A máquina de carregar nadas (7Letras, 2017).

 

*

 

PRIMEIRO

O toque mesmo nas coisas
para lembrar as mãos da
arquitetura limpa daquilo
que o mundo gestou.

A mão limpa, cartesiana, reta
pelas coisas
para tirar o pó sobre os nomes

sol, xícara, casca, ladrilho, pêssego, miséria

e tocar outra vez
como no Dia Primeiro
algo dos nomes
que vibre.

 

 

CANTO DE DISSOLUÇÃO

Sepultadas no tempo
deitam-se as coisas todas,
que já nem coisas são,
mas memória de coisas.

Sepultados no tempo
afundam-se os rostos
todos, ou quase todos,
e as datas, risos, gostos.

Sepultadas no tempo
jazem as nossas vidas,
num tempo em que não são
nem gozo nem ferida.

Sepultados, enfim,
no tempo, todos nós.

Onde não há nem feito,
nem pessoa, nem voz.

 

 

POEMA DO AMADO PARA SEU AMADO

“Penteei-me para o rei
Mas foi ao escravo que dei as tranças do meu cabelo”
– Ana Paula Tavares, Manual para amantes desesperados, 2007.

 

a)
os dentes
teus amanhecem quando me veem
e compreendo
o inerte ofício das pedras
– plenas completas alegres.

 

b)
a voz amanhece na tua boca
ilumina: da garganta
ruminando o que não fora dito,
inaudito, e o que se ficou por dizer

pois

a voz amanhece na tua boca
e o contorno do sol posto
fica pregado
fica pregado
nas pálpebras

fechadas de pôr do sol

 

c)
e tua boca anoitece
quando o silêncio pousa e faz ninho nos teus lábios

até que
então nasce outra vez
o sol
da tua garganta áspera
raia outra vez, já à espera paciente
da hora de se pôr

flor
que anoitece

– e o eclipse do corpo meu
é violento

 

 

INÚTIL

Inútil
inútil o gesto o plexo o beijo
inútil o desejo e o não-desejo
[igualmente
Inútil inútil o salto e a pausa
Inútil a mão no ombro alheio
[e próprio

Inútil soberanamente inútil
o gesto o plexo o beijo
nas campinas afiadas de verde
nas geometrias escuras da mente

e essa vontade de amar.

“Dez poemas de Matheus Guménin Barreto” – Revista Germina – 22.9.2018

(Fonte: http://www.germinaliteratura.com.br/2018/matheus_gumenin_barreto.htm )

 

PRIMEIRO

O toque mesmo nas coisas
para lembrar as mãos da
arquitetura limpa daquilo
que o mundo gestou.

A mão limpa, cartesiana, reta
pelas coisas
para tirar o pó sobre os nomes

sol, xícara, casca, ladrilho, pêssego, miséria

e tocar outra vez
como no Dia Primeiro
algo dos nomes
que vibre.

*

CANTO DE DISSOLUÇÃO

Sepultadas no tempo
deitam-se as coisas todas,
que já nem coisas são,
mas memória de coisas.

Sepultados no tempo
afundam-se os rostos
todos, ou quase todos,
e as datas, risos, gostos.

Sepultadas no tempo
jazem as nossas vidas,
num tempo em que não são
nem gozo nem ferida.

Sepultados, enfim,
no tempo, todos nós.

Onde não há nem feito,
nem pessoa, nem voz.

*

MANHÃ

a –

Notícias da manhã
informam que o tempo, de
fato, passou,
e que a noite foi só uma
de fato.

b –

O dorso arrebentado do sol,
surge o dia.

c –

A manhã ruge
nos dentes das árvores.

*

POEMA DO AMADO PARA SEU AMADO

“Penteei-me para o rei
Mas foi ao escravo que dei as tranças do meu cabelo”
– Ana Paula Tavares, Manual para amantes desesperados, 2007.

a)

os dentes
teus amanhecem quando me veem
e compreendo
o inerte ofício das pedras
– plenas completas alegres.

b)

a voz amanhece na tua boca
ilumina: da garganta
ruminando o que não fora dito,
inaudito, e o que se ficou por dizer

pois

a voz amanhece na tua boca
e o contorno do sol posto
fica pregado
fica pregado
nas pálpebras

fechadas de pôr do sol

c)

e tua boca anoitece
quando o silêncio pousa e faz ninho nos teus lábios

até que
então nasce outra vez
o sol
da tua garganta áspera
raia outra vez, já à espera paciente
da hora de se pôr

flor
que anoitece

– e o eclipse do corpo meu
é violento

*

POEMA AMARELO

a faca tem de ser eloquente
e falar sabendo o porquê

e falar o discurso de chaga
ferida
na carne que a faca lê

*

POEMA EXTREMO

Pega na mão a pedra
pega na mão a cadeira
pega na mão o pão
mesa escada copo d’água
pega
puxa pro lado
e descobre ali

a poesia.

*

O NULO POETA/EMA

quando hutus exterminaram tutsis
quando hutus exterminaram tutsis
quando hutus exterminaram tutsis
quando tutsis exterminaram tutsis

.

e quando o poeta escreve
[quando tutsis exterminaram tutsis
pecado
pecado
pelo pecado pelo pec-
ado
peca/do
pecado de não saber o que são tutsis
tutsis o que são
o que são tutsis
quem são
hutus
o que
exterminaram
tutsis
e procura onde fica Ruanda
Ruanda¿
e chora de não saber onde fica
onde fica
exterminaram tutsis
Ruanda

– a maioria a golpes de facão.

*

INÚTIL

Inútil
inútil o gesto o plexo o beijo
inútil o desejo e o não-desejo
[igualmente
Inútil inútil o salto e a pausa
Inútil a mão no ombro alheio
[e próprio

Inútil soberanamente inútil
o gesto o plexo o beijo
nas campinas afiadas de verde
nas geometrias escuras da mente

e essa vontade de amar.

*

O LÁPIS DESCANSADO

O lápis a descansar
no colo da mesa branca.
Que arquiteturas, que riscos,
que abismos, que céu se tranca

ao longo do lápis longo
parado, imóvel, preto?
O anúncio de qualquer coisa
entre a mente e o peito.

Que coisas já guarda o lápis?
Guarda o que vem-lhe através?
Só guarda o suave das mãos,
ou o áspero dos pés?

O pé guarda acaso as linhas
das geografias e mapas?
Guarda. E, em as guardando todas:
o que és, de ti não escapa.

Sabe o que o lápis encerra
em si, na madeira morta?
Sabe, e mais sabe o lápis
aquilo que o homem ignora.

O que é que o lápis contém
do que ainda nem foi feito?
O anúncio de qualquer coisa
entre a mente e o peito.

*

UMA ARQUITETURA DA CONCHA
“Para aquele que deu a concha”

1.
Que esta concha entre os dedos recolha
e decante em silêncios a voz
agitada em trovões – mar o crânio –,
que a decante e que a anule depois.

2.
Que recolha entre os vórtices secos
todo o eco dos mares confusos,
que o recolha e decante em silêncios
e apascente o traçado dos fusos.

3.
Que esta concha entre os dedos anule
o que dentro de alguém é loucura.
Que ela guarde, meu Deus, da loucura,
que é o que acha quem muito procura.

4.
Que estas conchas recolham do fundo
já sem fundo das curvas do mar
o olhar tão cansado do homem

– e o devolvam depois, pra guiar.

“Sete poemas de Matheus Guménin Barreto” – Revista A Bacana / Portugal – 17.9.2018

(Fonte: http://www.abacana.com/oficial/sete-poemas-de-matheus-gumenin-barreto )

 

Primeiro

O toque mesmo nas coisas
para lembrar as mãos da
arquitetura limpa daquilo
que o mundo gestou.

A mão limpa, cartesiana, reta
pelas coisas
para tirar o pó sobre os nomes

sol, xícara, casca, ladrilho, pêssego, miséria

e tocar outra vez
como no Dia Primeiro
algo dos nomes
que vibre.

*

Aquilo que me sou não me é nunca.
Pensando o que serei no escasso espaço
de mim, não sei se penso e sou aquilo
ou se, pensando, passa o tempo e passo

– se passo e já não sou o que pensara,
nem o que penso agora e que já passa.
Não sei se algum momento embosco aquele
que vejo ou se descubro-me sua caça.

*

o amado que toca os pulsos mornos
de seu amado
e o braço e as mãos
tremulargênteas
e o rosto toca e o sexo
quente e afiado
o amado que toca os pulsos mornos
de seu amado
e sabe de repente o que é um ensolarado riso e
a noite antiquíssima que o olha
de volta.

*

descobrir as palavras eu te amo

pesar na mão cada uma, medir
sua massa numa mão
n’outra
articular a língua os lábios dentes como
pela primeira vez
um homem o fez
um homem o fez a outro homem
testar o que abarca cada letra, o que deixa, o que fala
testar cada som e sombra que acaso fique
nas arestas do a, do e

descobrir as palavras eu te amo
e a violência que é usá-las.

*

é lícito um poema onde ecoem passos
de um único homem ou de sua sombra os passos?
é lícito o poema de uns pés descalços, limpos, sobre um
pátio ainda mais? lícito
que água ainda não convexa de toques nem
de rostos outros espelhados que um só rosto, que essa água
reste?
ecos, passos, sombras, pés descalços, toques?
é lícito que haja? é lícito que haja tão rara palavra:
lícito?

é lícito que haja o que haver em versos
como estes
se os tiroteios furam a pele de uma mãe de um pai de um filho e de um que não nasceu e não nascerá num canto escuro qualquer desse país que nem me digno a saber enquanto escrevo um poema sobre escrever um poema sobre um revólver calibre 38 que resolve anular o tempo?

*

mãos que levantaram-se e caíram
no fluir inadiável do tempo
e dia por dia ano por ano escavaram o tempo
até aqui chegarem
a estas minhas mãos morenas sob este céu transparente
sobre este teclado

mãos que levantaram-se e caíram
nos afazeres
e no fazer do tempo
que ele é por elas feito e elas por ele
engolidas

o trabalho comum que é o tempo
esta conta de vidro
mão por mão gesto por gesto
feito e abandonado como as ondas consecutivas na praia
como o fio que se tece só em parte
tempo

– minhas mãos aquelas também
sob estas.

*

Canto de dissolução

Sepultadas no tempo
deitam-se as coisas todas,
que já nem coisas são,
mas memória de coisas.

Sepultados no tempo
afundam-se os rostos
todos, ou quase todos,
e as datas, risos, gostos.

Sepultadas no tempo
jazem as nossas vidas,
num tempo em que não são
nem gozo nem ferida.

Sepultados, enfim,
no tempo, todos nós.

Onde não há nem feito,
nem pessoa, nem voz.

“Dez poemas de Matheus Guménin Barreto – Revista InComunidade / Portugal – 5.2018

(Fonte: http://www.incomunidade.com/v68/art_bl.php?art=192 )

 

POESIA

Ou fruto apenas entre os dentes
prestes prestes prestes a romper-se.

*

POEMA AMARELO

a faca tem de ser eloquente
e falar sabendo o porquê

e falar o discurso de chaga
ferida
na carne que a faca lê

*

EQUAÇÕES MATEMÁTICAS

1)
na curva, na nuance encontrei Deus
no limpo da linha reta o perdi

2)
quando se escuta o marulho da noite
e as coisas ganham contorno insuspeito
a geometria do silêncio aflora
e a vida vale

3)
o silêncio anterior
ao construto da fala no lábio

4)
não diz
se sabe que o dito não condiz
com o que se queria dito
e,
dito,
é outro dito no ouvido que o apascenta.

*

POEMA DO AMADO PARA SEU AMADO

“Penteei-me para o rei
Mas foi ao escravo que dei as tranças do meu
cabelo”
– Ana Paula Tavares, Manual para amantes
desesperados, 2007.

a)
os dentes
teus amanhecem quando me veem
e compreendo
o inerte ofício das pedras
– plenas completas alegres.

b)
a voz amanhece na tua boca
ilumina: da garganta
ruminando o que não fora dito,
inaudito, e o que se ficou por dizer

pois

a voz amanhece na tua boca
e o contorno do sol posto
fica pregado
fica pregado
nas pálpebras

fechadas de pôr do sol

c)
e tua boca anoitece
quando o silêncio pousa e faz ninho nos teus lábios

até que
então nasce outra vez
o sol
da tua garganta áspera
raia outra vez, já à espera paciente
da hora de se pôr

flor
que anoitece

– e o eclipse do corpo meu
é violento

*

O NULO POETA/EMA

quando hutus exterminaram tutsis
quando hutus exterminaram tutsis
quando hutus exterminaram tutsis
quando tutsis exterminaram tutsis

.

e quando o poeta escreve
[quando tutsis exterminaram tutsis
pecado
pecado
pelo pecado pelo pec-
ado
peca/do
pecado de não saber o que são tutsis
tutsis o que são
o que são tutsis
quem são
hutus
o que
exterminaram
tutsis
e procura onde fica Ruanda
Ruanda¿
e chora de não saber onde fica
onde fica
exterminaram tutsis
Ruanda

– a maioria a golpes de facão.

*

MANHÃ

a –
Notícias da manhã
informam que o tempo, de
fato, passou,
e que a noite foi só uma
de fato.

b –
O dorso arrebentado do sol,
surge o dia.

c –
A manhã ruge
nos dentes das árvores.

*

NESTE TEMPO

Neste tempo de horror
neste tempo
neste tempo sem tempo
de mãos crispadas e inverno nos dentes
de risos que não são
– só o amor que há é o dos bichos
e o das memórias frescas,
recém-cortadas.

*

MISSA DE 7º DIA

A cama que criam absoluta
porque carregou ali quem morria
e, morto, tomou posse
[do que
[a cama é

– essa cama foi batida
[ao sol,
[refrescada, posta
[ao craquelado
[da luz
[de algum quintal

e perdeu seu morto
como quem perde um tostão.

*

PARA O POEMA DESTA PÁGINA
“Dedicado a Matilde Campilho, que sem saber me ensinou.”

para o poema desta página:
a – abrir a janela mais próxima
b – faltando a janela, criar uma
c – ver: flor. ou muro. ou golfo. ou merda. ou um casal descobrindo o mapa-múndi no corpo um d’outro.
d – repetir os passos anteriores.

*

PENSAR QUE DORMEM TODOS

pensar pensar
pensar que todos deitam por baixo
da sombra do sono,
que dormem todos pensar que
o assassino o belo o tímido o
sagaz o corrupto o
miserável o tranquilo
dormem dormem deitam por baixo da
rede do sono
e dormem

pensar
nos seus rostos à meia-luz
entre os panos e o tear de silêncios
da noite
pensar
nessa estranha escura sem-querer
irmandade
entre os ——————–

pensar nos seus rostos
por baixo da sombra do sono
o peito respirando
a boca meio aberta
à meia-luz

pensar que dormem todos
irmãos