Cem anos de Paul Celan: uma homenagem possível – Antologia com curadoria de Natália Agra e Thiago Ponce de Moraes – Revista Cult – 23.11.2020

(Fonte: https://revistacult.uol.com.br/home/cem-anos-de-paul-celan-uma-homenagem-possivel/ )

*Texto de apresentação e curadoria de Natália Agra e Thiago Ponce de Moraes

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Cem anos de Paul Celan: uma homenagem possível

O poeta tradutor e ensaísta romeno Paul Celan, 1967 (Foto: Heinz Köster/ullstein bild)

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Em 23 de novembro de 1920 nascia o poeta romeno de língua alemã Paul Celan, um dos poetas mais potentes do pós-guerra, que carrega uma das vozes mais radicalmente singulares da poesia de todos os tempos. Sua voz, aliás, plena de faltas, de silêncios, de suspensões, de reiterações, de retificações – de balbucios: “se viesse um homem ao mundo, hoje,/ (…) só/ poderia/ balbuciar balbuciar”– entrega ao mundo outras maneiras de abordar a palavra, a escrita, a poesia.

Nesse ano de 2020, o mundo todo passa por uma grave crise sanitária e de saúde decorrente da pandemia da Covid-19 (que acomete os nossos modos de respiração); e, no Brasil, somos regidos por um governo de fascistas e ineptos, que se utilizam do discurso de ódio (irmão e tributário, portanto, de discursos como aqueles de Hitler, que submeteram Celan e sua família – judeus – aos campos de concentração) para controlar e subjugar a população, em especial a em maior situação de vulnerabilidade, bem como os mais diversos grupos minoritários.

Nesse mesmo complexo e irreconciliável 2020, exatamente 50 anos depois de seu último salto (um salto para a morte, para a suspensão da vida e da respiração, definitivamente, um salto em direção ao irregressável Sena); hoje, dia 23 de novembro, comemoramos o centenário desse poeta definitivo e que continua a fazer silêncio – a ecoá-lo – em nossas palavras, em nossas escritas e leituras.

Assim como nos dias de Celan, atravessamos, aqui, em nossos tempos – como se algumas datas se reapresentassem, se erguessem outra vez – mais um período sombrio da história da humanidade. Tomamos de empréstimo suas palavras, em carta a Hans Bender, de maio de 1960: “Vivemos sob céus sombrios, e… são poucas as pessoas. É por isso que existem tão poucos poemas”.

E, no entanto, seguimos. E, no entanto, escrevemos poemas, vivemos, respiramos. De lá até aqui. Atravessamos e revisitamos essas datas, vivemo-las em seu presente também. Nosso. Cada um de nós seguindo “ao encontro da língua com sua [própria] existência, ferido de realidade e em busca de realidade”.

Por isso, apesar dos dias sombrios – recorrência histórica e humana por excelência; insistência histórica e humana, pois –, quisemos fazer convergir aqui poéticas, quisemos fazer convergir aqui vozes que, sendo completamente aquilo que são, apresentam em sua singularidade caminhos entre caminhos, passagens, travessias, viagens; e que também guardam silêncios, vazios, esperas, ruínas. Quisemos fazer convergir aqui essas vozes específicas: para que haja mais poemas, outros poemas, ainda que poucos; para que sejamos mais e mais humanos – diante das palavras que nos exigem, diante da vida.

São poetas que aprenderam com Celan a falar sem separar “o Não do Sim”; poetas cujas falas (trans)portam “sombra bastante”, “tanta/ quanto exista à tua volta repartida entre/ a meia-noite e o meio-dia e a meia-noite”. Suas obras revelam uma nova forma de respirar; portanto, exigem uma nova forma de ler, exigem uma nova forma de estar no mundo. Parece ser essa a demanda legada pela obra de Celan: mudar a respiração, suspendê-la, prendê-la ante o salto ou o poema, ante a vida, libertá-la; Atemwende (título de seu livro de 1967), imagem que também aparece no discurso O Meridiano (pelo recebimento do Prêmio Georg Büchner, em 22 de outubro de 1960).

Isso não quer dizer que haja uma homogeneidade entre as diversas poéticas reunidas aqui. Pelo contrário: são poetas com trajetórias muito distintas na poesia brasileira e que de alguma forma trazem em suas obras certa ressonância – certo sopro ou fôlego, certo fogo – da obra de Celan. Seus poemas entoam o silêncio de cada palavra a plenos pulmões; e sabem também a sua sombra; sabem que se encaminham a ninguém e a Ninguém, a todos; a si e a outrem.

É com grande alegria, enfim, que, a despeito dos tempos sombrios (de todos os tempos), apresentamos essa seleção de poemas em homenagem a – ou diálogo com, ou travessia por – a obra de Paul Celan. Muito nos orgulha poder trazer esses trabalhos conjuntamente – criando entre si, ainda, uma coesão muito particular, um vínculo – para os leitores da Revista Cult.

Participam desta seleção os poetas Carlos Orfeu, Daniel Arelli, Dirceu Villa, Edimilson de Almeida Pereira, Fabiano Calixto, Fernando Maroja, Francesca Cricelli, Leila Danziger, Maíra Mendes Galvão, Mar Becker, Matheus Guménin Barreto, Natália Agra, Paula Glenadel e Thiago Ponce de Moraes.

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A queda como outro nascer

o pássaro leva o rio
a palavra – outro abismo
em seu canto azul

nervo do horizonte
fluxo e neve
rumoreja o silêncio

aberto no poema
como a carta
a casa – o fogo

ter a queda como
outro nascer no
pulmão da asa

nunca esquecer
a mãe essa árvore
escrita na carne

nunca esquecer
o inverno dos lábios
de bachmann

a traição de heidegger
o filho – o último abraço

Poema de Carlos Orfeu

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Outra esfinge

fere-me a retina
com um estilete
solar

faz parte de seu modo de ser
aparecer
dar-se gratuita
como a própria paisagem
que dela se destaca
não se destaca

não vejo nada
que não possa decifrar
com uma só mirada

mas sei que me turva a visão
o antienigma que ela desfere
em mim:

– você é você, exatamente
quem pensa que é

Poema de Daniel Arelli

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Levado a casa em esquecimento

eu fui ninguém na terra sem olhos,
eu fui os ouvidos de uma multidão sem língua,
meus cabelos, a água, meu rosto,
a superfície transparente,
minhas palavras, a corrente inescapável
onde o mergulho é esquecimento.

Heimgeführt Ins Vergessen

ich war niemand auf der erde ohne augen,
ich war die ohren einer menschenmenge ohne zunge,
meine haare, das wasser, mein gesicht,
die transparente oberfläche,
meine worte, die unausweichliche strömung
in der das tauchen vergessen wird.

Poema de Dirceu Villa

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Esse rio depois

do Sena – morto. Ossos fizeram um dique
na história. O que lemos é o caniço
por onde respiravas. Noutra margem,
a casca resume a árvore, por mais que algo
pouse não há sopro. Ardeu a casa aliciada.
A rosa-de-ninguém nasceu com atraso,
nessa antiga e nova ausência sua nervura
é um canto: mudado em outra língua
o sobrevivente não se distingue da névoa.
Não quer renascer, sua fuga é a revolta,
vigia-se. Não há razão para escavar
(nem pás que removam o fio de sangue)
mas nos obrigamos ante o terreno execrável.
Outono entre os sapatos, em ti – escavaram
o que feroz nos redimia. O melro afogado.
Escavamos a ver se a terra abria em leito.
A mão pensou no feto antes de enlouquecer
– tarde. O terreno tinha sócios. O corpo
crispou além da urna, nada dirá da vida
submersa – cortou a cerca elétrica em si.

Poema de Edimilson de Almeida Pereira

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Pólvora contra comprimidos

…………nos cerca
a conturbada
………………………..materialidade da morte –
………………..suas duplicatas,
procelas, poros,
……………..seus repores de sol
……………………………de porcelana
podre, zumbis
…………..instáveis incapazes
de fazer futuro

…………….
vírus de gosma
e chumbo
cheiro rosa de pólvora
…………..sobre a cova rasa

vício e vida no mesmo
………….processo embrionário

o rosto congelado
…………..do planeta

……………………..postergação indefinida da sorte

(este é o momento em que
…………..lobisomens se
…………………….deliciam com tremoço… )

……………no rosto
rasgos de soturnos
……………coturnos
……………latejam
………………………….para sempre

nenhuma palavra
……………………………..dorme
……………….no pesadelo dessa flor

Poema de Fabiano Calixto

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Ponte Mirabeau

Senhor no fim do horizonte,
Estamos nos dois extremos da ponte
E vago na tua direção,
Mas jamais chegarei ao teu lado,
Se a diáspora é uma travessia sem fim,
Na eterna marcha do Rio Sena
Em busca da morada.

Apenas o curso do rio vai unir
Tudo que o vento dispersa e a guerra destrói
Nas trincheiras de areia e teias de aranha.
Apenas as legiões do rio marcham
No tempo da métrica
E na hora do sempre e do nunca mais,
Alcançando o eterno florescer.

Ó senhor,
O curso do rio é uma lagarta que rasteja
Dentro da métrica e fora do tempo,
Chegando mais longe que o soldado
A rastejar no front da guerra.

Ó senhor,
Olho para o curso do rio e vejo,
Além da minha imagem no espelho,
As botas do meu pai
E os cigarros da minha avó,
A garrafa de vinho que meu tio bebia
E levava debaixo do braço,
Como se fosse o gato de estimação.

Vejo a correnteza levar os restos do caderno
Que eu usava na escola.
Vejo a infância em Czernowitz
E o pente que arrumava o cabelo da minha mãe.

Senhor,
Vejo no curso do rio toda a minha família,
Vagando em busca da terra prometida.
Eu saltarei dessa ponte
E abraçarei e beijarei todos eles.

Poema de Fernando Maroja

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Paul Celan visita a galeria Dorothea Loehr, em Frankfurt, julho, 1964 (Foto: DR
Paul Celan na Galeria Dorothea Loehr, Frankfurt, julho 1968 (Foto:  Reprodução)
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……………..“Com tudo que aqui tem espaço,
……………..mesmo sem
……………..língua.”
……………..[Paul Celan, DE PÉ, na sombra]

MINHA LÍNGUA aqui
……………….é muda
……………….ou quase

só existe no silêncio
diálogo íntimo assoprado
desenlace da tradução.

Minha língua, flor inversa,
palavra que é corpo e é linguagem
e não posso transpor.

*

Adentar o figo
…………….sua polpa-essência
é adentrar um jardim de vespas mortas

a língua a saborear a planta
o bojo doce um dia à espera da fecundação.

*

Que gesto é esse que se repete há 34 milhões de anos?

*

Adentrar essa língua
……………….sua milenar essência
é adentar minha memória de pedra

a língua antes dos dentes
o bojo sem contornos da existência primordial.

*

Não só na queda se perdem as asas
(há de se deixá-las do lado de fora)
também ao percorrer o corredor afunilado
à procura de alimento e perpetuação.

Ao penetrar o figo, abandonamos o voo.

*

Para cavar uma saída da urna silente
servem mandíbulas fortes
dentes ferozes e olhos minúsculos
……………………………………….– saber se orientar na escuridão.

*

A muda de hortelã não morreu ao ser arrancada do solo
– sobrevive num vaso –
inventou raízes e uma nova folhagem.

*

Na minha cidade aguardamos o degelo do solo
como a língua espera pela dentição –
roçar as coroas que apontam das gengivas
preparar a mordida –
o que sobrevive sob o manto branco?

Nossos corpos estranhos se preparam
(como a vespa-mãe depõe seus ovos no figo)
raízes de hortelã
em busca do chão.

Poema de Francesca Cricelli

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Destroços

dessa vez
creio que o início de tudo
foi a persiana que esqueci aberta
deixando que o sol esquentasse
em minha ausência
furiosamente
dias e dias
os versos de Celan
acumulados sobre a mesa

as palavras
de madeira e borracha
os carimbos
começaram a derreter e a gaguejar
– lallen und lallen –
balbuciar e repetir
: destroços celestes
: cinza-e-cinza Ho-sana anéis-almas
de uma forma não prevista no início do projeto
que queria apenas escavar e manobrar
os versos
como se faz com a própria
terra-areia-ar-eu-você-Ossip-Marina
e tantos outros nomes
todos os nomes
impronunciáveis
derretidos
fundidos

aos jornais
que cresceram como erva daninha
em minha ausência
furiosamente
dias e dias
a linguagem informativa
acumulada em pilhas
que era preciso desfazer
esvaziar
apagar
erodir a matéria-jornal
turvá-la de poesia

mas percebi
– surpresa –
o desastre
o desvio
tudo fora feito
sem mim

Poema de Leila Danziger

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Coro fantasmaglótico para Celan

ante ele diz tu
diz tu!
— schnever!

en seno diz tu!
diz tu!
– schnever!

dizque diz tornassol
fala-fadeja
incandesce
sobeja

ante-náutilo
diz – tum!
emudece
tum!

como gota em seio ancora
torna vau sopro evapora
vau torna sopro evapora
seio em gota como ancora

tornassol dizque diz
diz tu!
– schnever!

en seno diz tu!
diz tu!
– schnever!

Poema de Maíra Mendes Galvão

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Com Petre Solomon, em 1947 (Foto: Reprodução)
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minhas coxas ainda úmidas de sêmen

meu nome ainda dentro
do teu nome

juntos, nós dois
respirando o véu que nos esconde
um do outro

enquanto o dia nasce
enquanto minha boca segue dentro da tua boca, ainda

cercada de um fogo frio
como uma estrela morrendo

Poema de Mar Becker

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Quase morte de uma avó: estudo de caso nº 1

Der halbe Tod,
großgesäugt mit unserm Leben,
lag aschenbildwahr um uns her –
Paul Celan – “In Prag”

A meia morte,
amamentada com a nossa vida,
jazia afim-à-cinza em torno a nós –
Paul Celan – “Em Praga”
(tradução própria)

a –
Rasgar em uma só madrugada
o que resta de uma infância: perdê-la sob o sol.

b –
Ter sobre os ombros seus mortos
– cinza inversa.
Pegar a xícara como quem tem seus mortos
lavar as mãos como quem tem seus mortos
abrir a janela como quem tem seus mortos
mijar como quem tem seus mortos
dormir como quem já não dorme só mais
depois do morto inaugural.

Perder posse do que se era
depois do morto inaugural.

Perder o gesto que era apenas gesto irrepetido
não saudação
não pedido
não suborno do tempo.

Manchar irremediavelmente as manhãs.

Poema de Matheus Guménin Barreto

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Heimkehr

estar de volta à casa,
após mergulho fecundo no rio –
refiar o vazio

leio o leito
frio do rio

volto à casa

)mergulh
ar
……………até
……………acab
……………ar
……………o
……………ar(

cômodos de água
onde morar

saber de cor o vazio
desfiar a casa
fio a fio
estar de volta

à casa

Poema de Natália Agra

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Tardígrado

O fim do mundo não parece tão distante.
Por isso, nos (trans)portamos,
e conosco
toda a gravidade e a graça.

Lentos.
Sós, não sós.

Tardígrado,
anelamos a mesma água,
mesmo sendo tu – e – eu.
Tão diversa e agudamente existir.

Rosa-de-ninguém,
mamão-nascido-no-lixo,
abóbora-de-todo-terreno.

Em toda parte, canto.

Poema de Paula Glenadel

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Pallaksch

com que a língua em ruína versa e atravessa a vertigem da tua fala
que farfalha entre as torres e rios de Hölderlin

Folhas de outro outono feito rastros recém-engolidos pelas sombras
da terra sem rosto do desterro

…….Outrora é hoje-e-agora com seus destroços

Rente às margens sentas, sonhas, experimentas os escombros como mobília
para a paisagem de que ora podes somente ouvir o ruir de seu deteriorar

………O pássaro da noite vibra frente aos teus olhos convertidos à cegueira,
canta o indecifrável, redime a tua memória, sibila junto ao teu coração

Afundas os pés na lama do rio que no fundo é tudo aquilo que cala:
estás em casa, estás
aqui
feito
fluxo de eloquência
da tua
própria presença
que
per-
trans-
ultra-
passa
e
fica


Pallaksch

Poema de Thiago Ponce de Moraes

Quatro poemas do livro “Mesmo que seja noite” de Matheus Guménin Barreto – Revista Primata – 12.11.2020

(Fonte: https://www.poesiaprimata.com/matheus-gumenin-barreto/matheus-gumenin-barretomesmo-que-seja-noite-2020/ )

Matheus Guménin Barreto (1992) é poeta e tradutor mato-grossense, um dos editores da revista Ruído Manifesto. É autor dos livros A máquina de carregar nadas (7Letras, 2017), Poemas em torno do chão & Primeiros poemas (Carlini & Caniato, 2018) e Mesmo que seja noite (Corsário-Satã, 2020). Doutorando da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade de Leipzig na área de Língua e Literatura Alemãs – subárea tradução -, estudou também na Universidade de Heidelberg. Teve poemas seus traduzidos para o inglês, o espanhol e o catalão; publicados em revistas no Brasil, na Espanha e em Portugal; e integrou o Printemps Littéraire Brésilien 2018 na França e na Bélgica a convite da Universidade Sorbonne. Publicou em periódicos ou em livros traduções de Bertolt Brecht, Ingeborg Bachmann, Johannes Bobrowski, Nelly Sachs, Paul Celan, Peter Waterhouse, Rainer Maria Rilke e outros. Entre os cursos que ministra esporadicamente está o “Verso vivo: introdução ao verso livre e ao verso fixo de Shakespeare a Criolo”.

Os poemas a seguir foram selecionados do seu livro Mesmo que seja noite (Corsário-Satã, 2020), disponível para compra neste link.

*

o mapa do corpo sob as mãos
desenhando itinerários bruscos
mornos
contornando bocas que não existem, mas que existirão
pés que não andaram, mas andarão
sexos que não se apontaram
mas que se apontam, agudos, sob o toque
devagar
como o encontro
de um trópico último com um último meridiano

os olhos nublados de algo que não se adivinha

o homem tem o homem nas mãos
e as mãos seguem seu cego itinerário provisório
apagado sempre pelo toque próximo e sombra e esquecimento –
apagado como a praia e o vento que a inaugura

*

toda linguagem é crime
maior ou menor

*

descobrir as palavras eu te amo

pesar na mão cada uma, medir
sua massa numa mão
n’outra
articular a língua os lábios dentes como
pela primeira vez
um homem o fez
um homem o fez a outro homem
testar o que abarca cada letra, o que deixa, o que fala
testar cada som e sombra que acaso fique
nas arestas do a, do e

descobrir as palavras eu te amo
e a violência que é usá-las

*

lavar da borda em café
da xícara
o lábio amigo e
do prato branco
a mão amiga:
cancelar a parcela de memória
depositada guardada escondida na dobra das horas
– que uma casa, ela é feita
de trapaças contra o tempo.

anular estas xícaras
no irmão predileto do tempo: esquecimento.

apagar os vestígios:
reconhecê-lo vencedor

Arcas de Babel: Matheus Guménin Barreto traduz Rilke – Patrícia Lavelle – Revista Cult – 9.11.2020

(Fonte: https://revistacult.uol.com.br/home/matheus-gumenin-traduz-rilke/ )

*Curadoria de Arcas de Babel por Patrícia Lavelle

A poesia leva ao que há de mais singular em cada língua e desafia a experiência da tradução. Entretanto, muitas e muitos poetas traduzem, e às vezes a escrita poética surge junto com um olhar estrangeiro para a própria língua, vem com a consciência de sua singularidade, entre tantas outras. Esse estranhamento intensifica as forças de transformação no interior das línguas, estendendo seus limites, ampliando seus horizontes. E nunca precisamos tanto dos horizontes que a poesia projeta, agora que uma nuvem pesada encobre perspectivas de futuro… Talvez traduzir poesia seja um modo de contribuir para a construção, não de uma torre, mas de uma ponte ou de uma arca utópica que nos ajude a atravessar o dilúvio. Que nela, aos pares, as línguas se encontrem, fecundas.

A série Arcas de Babel acolhe semanalmente traduções de poesia e está aberta também a testemunhos sobre a experiência de traduzir.

Na edição de hoje, o poeta e tradutor mato-grossense Matheus Guménin Barreto transcria e apresenta poemas de Rainer Maria Rilke.

Barreto (1992) é autor dos livros de poemas A máquina de carregar nadas (7Letras, 2017), Poemas em torno do chão & Primeiros poemas (Carlini & Caniato, 2018) e Mesmo que seja noite (Corsário-Satã, 2020). Doutorando da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade de Leipzig na área de Língua e Literatura Alemãs – subárea tradução -, estudou também na Universidade de Heidelberg. Teve poemas traduzidos para o inglês, espanhol e catalão; publicados em revistas no Brasil, na Espanha e em Portugal. Integrou o Printemps Littéraire Brésilien 2018 na França e na Bélgica a convite da Universidade Sorbonne. Publicou em periódicos ou em livros traduções de Brecht, Bachmann, Bobrowski, Nelly Sachs, Celan, Peter Waterhouse, Rilke e outros. Entre os cursos que ministra esporadicamente está o “Verso vivo: introdução ao verso livre e ao verso fixo de Shakespeare a Criolo”.

Em seu doutorado, traduz textos de Hans Sachs (1494-1576), Angelus Silesius (1624-1677), Sibylla Schwarz (1621-1638), Johann Wolfgang von Goethe (1749-1832), Rainer Maria Rilke (1875-1926), Nelly Sachs (1891-1970), Ingeborg Bachmann (1926-1973), Herta Müller (1953), Peter Waterhouse (1956) e Ann Cotten (1982).

 

***

 

Rainer Maria Rilke (1875-1926) foi alçado, ainda em vida, à condição de poeta exemplar, e a contínua reatualização de sua figura no cânone literário ocidental faz dele um dos artistas mais influentes dos séculos 19 e 20. Sua obra – retomada por figuras tão díspares quanto Martin Heidegger (1889-1976) e Lady Gaga (1986) ou Dmitri Shostakovitch (1906-1975) e Patti Smith (1946) – se espalha por poemas em alemão e em francês, textos em prosa, cartas, ensaios, peças teatrais, traduções e discursos; de modo que, ao fim e ao cabo, dificilmente se consegue falar hoje em modernidade literária contornando seu nome.

Já foram escritas centenas e centenas de páginas sobre a conturbada recepção de Rilke no Brasil – e, para apontar os mundos inteiros (e quase antagônicos) que coexistem na obra rilkeana, basta nos lembrarmos que Rilke foi evocado entre nós tanto pelos poetas classicizantes da chamada Geração de 45 quanto pelos poetas concretistas e neoconcretistas algumas décadas depois. A estilização de um Rilke quase místico, brumoso, coexiste ainda hoje com a recepção deste como um artista experimental, vanguardista. Sugiro aos que se interessarem por esse tema o ótimo artigo de Vagner Camilo (USP), “Nota sobre a recepção de Rilke na lírica brasileira do segundo pós-guerra”.

Escolhi trazer para a coluna Arcas de Babel (com curadoria da poeta e professora Patrícia Lavelle, a quem agradeço mais uma vez o convite) três traduções minhas de poemas bastante díspares e, por isso mesmo, representativos da obra de Rilke: “[O que farás, Deus, se eu morrer?]” de O livro das horas (livro publicado em 1905, poema escrito em 1899), que dá a ver algo da atmosfera nebulosa comumente associada à obra rilkeana, porém através de uma voz lírica radicalíssima, absolutamente moderna ante um Deus frágil e dependente; “O alquimista” de A segunda parte dos Novos Poemas (livro publicado em 1908), que traz o insólito ao campo do poema e que poderia, sem grandes ajustes, ter sido assinado por Jorge Luis Borges (1899-1986); e, finalmente, “A oitava elegia” de Elegias de Duíno (livro publicado em 1923, poema escrito em 1922), poema longo que radicaliza a antiga tensão entre poesia e filosofia e lhe traz uma voltagem toda nova, levando o poema a encontrar eco em alguns dos mais influentes filósofos de língua alemã do século 20.

Procurei criar em minhas traduções poemas estruturalmente análogos aos poemas de Rilke, ou seja, poemas que estivessem em uma relação “paramórfica” (pensando aqui no conceito de Haroldo de Campos) com os textos em alemão, mas sem ignorar a clareza sintática destes – a exceção estaria nos versos um pouco mais cifrados de Rilke em “A oitava elegia”. Em outras palavras, busquei recriar as assonâncias, aliterações, rimas internas e externas, tensões frasais e espelhamentos sintáticos dos poemas rilkeanos (aquilo que Campos chama de fisicalidade ou materialidade dos signos).

No primeiro poema, por exemplo, no qual a estrutura de estrofes e rimas não é consagrada, achei mais importante criar uma profusão de rimas e assonâncias no decorrer do poema do que criar rimas externas nos exatos versos em que Rilke as cria.

Em relação ao metro dos três poemas, busquei me limitar aos mesmos metros jâmbicos que Rilke emprega (sendo o jambo um par de sílabas no qual a primeira tende a ser fraca e a segunda tende a ser forte): no primeiro poema, versos tetrâmetros jâmbicos (sequência de quatro jambos); no segundo, variação entre tetrâmetros e pentâmetros jâmbicos (sequências de quatro e de cinco jambos); no terceiro, pentâmetros jâmbicos não rimados (sequência de cinco jambos).

Que aprendamos, aos poucos, a (re)ler essas outras – vertiginosas – modernidades. – Matheus Guménin Barreto

***

 

[O que farás, Deus, se eu morrer?]

O que farás, Deus, se eu morrer?
Sou eu teu cântaro (e se quebro?)
Sou o que bebes (se apodreço?)
Sou tuas vestes, teu dever,
perdendo-me, perdes sentido.

Sem mim perdes um lar só teu
onde te acolham com carinho.
Cai dos teus pés já combalidos
tua sandália, que sou eu.

Teu amplo manto te abandona.
O teu olhar – que no meu rosto,
recosto morno, vê repouso –
vai procurar-me muito tempo –
e vai deitar-se, quase noite,
entre rochedos estrangeiros.

Deus, que farás? Tremo de medo.

O alquimista

Sorri amargo o alquimista e afasta
o frasco, que fumega um pouco ainda.
Já sabe do que carecia
pra que essa tal substância renomada

surgisse ali. Carecia de tempo,
de séculos pra si, pro frasco ardente;
de toda uma constelação na mente;
na consciência, do mar todo ao menos.

A enormidade que ele desejara,
ele a soltou na madrugada. E ela
voltou a Deus, sua medida antiga;

mas ele, como um bêbado, mal fala,
deitado sobre a arca, e desespera
pra ter o ouro que já tinha.

22.8.1907, Paris

A oitava elegia

Dedicada a Rudolf Kassner

A criatura vê, dos olhos todos,
o Aberto. Só os nossos olhos são
como invertidos e, como armadilhas,
armados ao redor do seu fugir.
O que lá fora existe só o sabemos
do rosto do animal; mesmo a criança
pomos de costas – pra que veja apenas
contornos, não o Aberto, tão profundo
na face do animal. Livre de morte.
Só nós a conhecemos; livre, o bicho
traz sempre atrás de si o seu ruir
e, à frente, Deus; e se se vai se esvai
na eternidade, qual se esvaem fontes.
—————Nós nunca temos, nem por um só dia,
o espaço puro à nossa frente, aquele
no qual as flores florem sem parar.
Só mundo – nunca há o Lugar Nenhum
sem Não: a liberdade ou a pureza
que se respire e saiba e não se anseie.
Crianças há que perdem-se em tal calma –
chacoalham-nas. Os que morrem, a são.
Pois perto de morrer ninguém vê morte
e olha além, talvez tal qual os bichos.
Amantes – se não fosse o outro, o outro
que embaça a vista – chegam perto, pasmam…
Atrás do outro, quase por descuido,
lhes surge… Mas não vem nada de lá
e logo o mundo volta a ser só mundo.
Virados sempre à Criação, nós vemos
somente, ali, reflexo do que é livre,
reflexo que encobrimos. Ou que o bicho
mudo nos olha e perfura de calma.
Isso é o destino: só se chegar quase
e sempre quase e nunca mais que quase.

Se o bicho audaz tivesse a consciência
que é nossa – ele que vem ao nosso encontro
de outra direção – nos mudaria
com sua mutação. Mas o seu ser
lhe é sem fim, sem tino, sem visão
daquilo que ele é; puro o que vê.
E onde vemos Futuro ele vê Tudo
e a si em Tudo e salvo para sempre.

Mas há, mesmo no bicho alerta e morno,
pesar e apreensão – melancolia.
Pois também ele é presa ainda disso
que às vezes nos domina – uma lembrança
de que aquilo que se anseia já foi
outrora quase nosso e seu unir-se
dulcíssimo. Aqui tudo é distância;
lá, ar. Após sua primeira pátria
lhe é esta segunda bruma e dúvida.
—————Ah, bendita a pequena criatura,
que se mantém no colo que a gestou;
alegria do inseto que, lá dentro,
saltita até o fim: pois colo é tudo.
Vê, pois, da ave a meia segurança:
por ser quem é, conhece ambas pátrias,
como se fosse a alma de um etrusco,
liberta, que habitasse ainda espaços,
porém só como estátua sobre a tumba.
E como abisma ter de ir pra longe
tendo vindo de um colo. Eis, assustado
de si, cortando o ar (qual fosse trincos
em uma xícara), eis o morcego
rachando a porcelana do crepúsculo.

E nós: espectadores só e sempre,
voltados para tudo e nunca lá!
Inunda-nos. Botamos ordem. Rui.
Ordem mais uma vez – ruímos nós.

E quem nos inverteu, malgrado nós,
pra que tenhamos sempre este aspecto
de quem se vai?, de quem para no topo
de um monte – o último de onde se vê
seu lar – e vira e olha e permanece.
Assim vivemos – sempre em despedida.

***

[Was wirst du tun, Gott, wenn ich sterbe?]

Was wirst du tun, Gott, wenn ich sterbe?
Ich bin dein Krug (wenn ich zerscherbe?)
Ich bin dein Trank (wenn ich verderbe?)
Bin dein Gewand und dein Gewerbe,
mit mir verlierst du deinen Sinn.

Nach mir hast du kein Haus, darin
dich Worte, nah und warm, begrüßen.
Es fällt von deinen müden Füßen
die Samtsandale, die ich bin.

Dein großer Mantel lässt dich los.
Dein Blick, den ich mit meiner Wange
warm, wie mit einem Pfühl, empfange,
wird kommen, wird mich suchen, lange –
und legt beim Sonnenuntergange
sich fremden Steinen in den Schoß.

Was wirst du tun, Gott? Ich bin bange.

Der Alchimist

Seltsam verlächelnd schob der Laborant
den Kolben fort, der halbberuhigt rauchte.
Er wusste jetzt, was er noch brauchte,
damit der sehr erlauchte Gegenstand

da drin entstände. Zeiten brauchte er,
Jahrtausende für sich und diese Birne
in der es brodelte; im Hirn Gestirne
und im Bewusstsein mindestens das Meer.

Das Ungeheuere, das er gewollt,
er ließ es los in dieser Nacht. Es kehrte
zurück zu Gott und in sein altes Maß;

er aber, lallend wie ein Trunkenbold,
lag über dem Geheimfach und begehrte
den Brocken Gold, den er besaß.

22.8.1907, Paris

Die achte Elegie

Rudolf Kassner zugeeignet

Mit allen Augen sieht die Kreatur
das Offene. Nur unsre Augen sind
wie umgekehrt und ganz um sie gestellt
als Fallen, rings um ihren freien Ausgang.
Was draußen ist, wir wissens aus des Tiers
Antlitz allein; denn schon das frühe Kind
wenden wir um und zwinistgens, daß es rückwärts
Gestaltung sehe, nicht das Offne, das
im Tiergesicht so tief ist. Frei von Tod.
Ihn sehen wir allein; das freie Tier
hat seinen Untergang stets hinter sich
und vor sich Gott, und wenn es geht, so gehts
in Ewigkeit, so wie die Brunnen gehen.
—————Wir haben nie, nicht einen einzigen Tag,
den reinen Raum vor uns, in den die Blumen
unendlich aufgehn. Immer ist es Welt
und niemals Nirgends ohne Nicht: das Reine,
Unüberwachte, das man atmet und
unendlich weiß und nicht begehrt. Als Kind
verliert sich eins im Stilln an dies und wird
gerüttelt. Oder jener stirbt und ists.
Denn nah am Tod sieht man den Tod nicht mehr
und starrt hinaus, vielleicht mit großem Tierblick.
Liebende, wäre nicht der andre, der
die Sicht verstellt, sind nah daran und staunen …
Wie aus Versehn ist ihnen aufgetan
hinter dem andern … Aber über ihn
kommt keiner fort, und wieder wird ihm Welt.
Der Schöpfung immer zugewendet, sehn
wir nur auf ihr die Spiegelung des Frein,
von uns verdunkelt. Oder daß ein Tier,
ein stummes, aufschaut, ruhig durch uns durch.
Dieses heißt Schicksal: gegenüber sein
und nichts als das und immer gegenüber.

Wäre Bewußtheit unsrer Art in dem
sicheren Tier, das uns entgegenzieht
in anderer Richtung , riß es uns herum
mit seinem Wandel. Doch sein Sein ist ihm
unendlich, ungefaßt und ohne Blick
auf seinen Zustand, rein, so wie sein Ausblick.
Und wo wir Zukunft sehn, dort sieht es Alles
und sich in Allem und geheilt für immer.

Und doch ist in dem wachsam warmen Tier
Gewicht und Sorge einer großen Schwermut.
Denn ihm auch haftet immer an, was uns
oft überwältigt, die Erinnerung,
als sei schon einmal das, wonach man drängt,
näher gewesen, treuer und sein Anschluß
unendlich zärtlich. Hier ist alles Abstand,
und dort wars Atem. Nach der ersten Heimat
ist ihm die zweite zwitterig und windig.
—————O Seligkeit der kleinen Kreatur,
die immer bleibt im Schooße, der sie austrug;
o Glück der Mücke, die noch innen hüpft,
selbst wenn sie Hochzeit hat: denn Schooß ist Alles.
Und sieh die halbe Sicherheit des Vogels,
der beinah beides weiß aus seinem Ursprung,
als wär er eine Seele der Etrusker,
aus einem Toten, den ein Raum empfing,
doch mit der ruhenden Figur als Deckel.
Und wie bestürzt ist eins, das fliegen muß
und stammt aus einem Schooß. Wie vor sich selbst
erschreckt, durchzuckts die Luft, wie wenn ein Sprung
durch eine Tasse geht. So reißt die Spur
der Fledermaus durchs Porzellan des Abends.

Und wir: Zuschauer, immer, überall,
dem allen zugewandt und nie hinaus!
Uns überfüllts. Wir ordnens. Es zerfällt.
Wir ordnens wieder und zerfallen selbst.

Wer hat uns also umgedreht, daß wir,
was wir auch tun, in jener Haltung sind
von einem, welcher fortgeht? Wie er auf
dem letzten Hügel, der ihm ganz sein Tal
noch einmal zeigt, sich wendet, anhält, weilt,
so leben wir und nehmen immer Abschied.