Notícias de outras ilhas: Matheus Guménin Barreto – Revista Cult – 8.4.2020

(Fonte: https://revistacult.uol.com.br/home/matheus-gumenin-barreto-ilhas/ )

Matheus Guménin Barreto (1992, Cuiabá) é poeta, tradutor e doutorando na USP e na Universidade de Leipzig. Publicou A máquina de carregar nadas (7Letras, 2017), Poemas em torno do chão & Primeiros poemas (Carlini & Caniato, 2018) e lança livro novo em 2020.

Para a seção “Notícias de outras ilhas” – em que poetas, escritores e tradutores sugerem leituras para o período da quarentena -, indica a leitura de poemas de Marcelo Labes, da Lubi Prates e Diogo Cardoso. A curadoria da seção é de Tarso de Melo. Leia os poemas e o comentário do poeta abaixo.

Já não fosse a própria pandemia uma coisa terrível, ainda temos de assistir diariamente aos crimes via twitter e via pronunciamento oficial do saco de lixo que veste hoje a faixa presidencial.

Em meio a esse combo desastroso, algumas pessoas andaram me fazendo companhia – e acho que devo a elas minha sanidade mental nessas últimas semanas.

Eichendorff, Búnin, Marcelo Labes, Lubi Prates e Diogo Cardoso são os autores que me acompanham; Joan Tower e Sofia Gubaidulina são as compositoras.

Do Eichendorff eu li o divertidíssimo Aus dem Leben eines Taugenichts (saiu no Brasil como Da vida de um imprestável [Editora Oficina Raquel, tradução de Fernando Miranda]), que acompanha do jeito mais nonsense possível um “imprestável” ou “zero à esquerda” que cai na estrada levando só seu violino; do Búnin, que recebeu em 1933 o Nobel, estou lendo agora O processo do tenente Ieláguin (Editora 34, tradução de Boris Schnaiderman).

Além disso (ou junto com isso) me acompanham aqui na ilha os CDs Black Topaz da Joan Tower (com o quarteto de cordas “the muir”) e Offertorium da Sofia Gubaidulina (com Gidon Kremer e Dutoit), duas compositoras vivíssimas e muito potentes.

Os poemas do Marcelo Labes, da Lubi Prates e do Diogo Cardoso eu fico lendo e relendo eternamente. É incrível como eles – cada um a seu modo – dão à nossa língua uma voltagem assombrosa: ler esses autores é se assustar com a língua que se tem (ou que se pensava que se tinha).

Aqui um poema de cada um (e antes de terminar: viva o sus!):

***

mare nostrum – parte IV (Marcelo Labes)

primeira tentativa – autoexplicação:

quando floriano peixoto mandou tomar
a ilha mandou fuzilar inimigos mandou
batizar a ilha em sua homenagem

os federalistas degoladores morreram
de tiro qual ironia matar de tiro quem
sangrou centenas no golpe de faca

segunda tentativa – autoexpiação:

aprender a nadar para alcançar
sair da ilha e beber o mar

***

não foi um cruzeiro (Lubi Prates)

meu nome e
minha língua

meus documentos e
minha direção

meu turbante e
minhas rezas

minha memória de
comidas e tambores

esqueci no navio
que me cruzou
o Atlântico.

***

A língua nômade (Diogo Cardoso)

se eu falasse a língua dos atravessadores de desertos
se eu falasse toda a areia caída de seus ombros,
se eu falasse ainda a paisagem árida de seus dentes
a paisagem pura dos animais esfaimados
se eu falasse os animais assentados na saliva seca
se eu falasse de dentro da sede dos que morrem sob a lua
se eu falasse os dias habitados na pele da serpente
encerrados nas urnas que guardam as faltas todas
se eu falasse as estrelas pendidas nas pontas dos dedos
se eu falasse o sangue sustentado na costela ausente
se eu falasse a mulher o homem a criança e o centro da adaga
se eu falasse as falésias mudas pendidas na garganta
se eu falasse a voz das flores de sua saia
fazendo ventos em meu desejo
se eu falasse voz corpo o que quer que seja
se eu falasse a delicadeza deitada no mês de julho
se eu falasse as flores cobertas de fogo
se eu falasse os acentos inaugurais de um sorriso
se eu falasse o nome guardado em mim esta noite
se eu falasse
se eu falasse a verdadeira letra que iniciasse o verbo
se eu falasse os números quebrados em teus lábios rotos
se eu falasse o sim o não o nunca o agora
se eu falasse então isso assim lá onde
se eu falasse quando
se eu falasse quente o segredo da sopa
se eu falasse a mágoa acesa nos joelhos
se eu falasse as pedras que choram o chão
se eu falasse durma a grama de seu azul turbante
se eu falasse irilisili
se eu falasse anijiriraã
pisiriliá irujna keresê
khraô sirilitili keresaranaã
se eu falasse

se eu falasse.

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