Os alquimistas estão chegando – Eduardo Mahon – 17.9.2017

*por Eduardo Mahon

17 de setembro de 2017

O poeta Matheus Barreto lançou o segundo livro de poemas. Para mim, uma promessa que se realiza. Sentado à minha frente, 1 ano atrás, ele me explicava as três fases que iria se propor a experimentar no livro. Me confidenciou: haverá páginas em branco, sem ter o que dizer e, depois, uma retomada forte. Fiquei esperando a massa fermentar e, na fila do pão, fui precedido apenas por uma poeta mais ligeira, Lucinda Persona. Vim para casa, li o livro à noite para relê-lo, na manhã seguinte. É que a poesia, como os lobisomens, têm duas formas: uma diurna, racional, cognoscível, organizada, apolínia e outra, noturna, risonha, trôpega, dionisíaca a agradar leitores bêbados de novidades.

Matheus escreve sobre a dissolução e a perenidade, assunto para alquimista. Na primeira parte de “A Máquina de Carregar Nadas”, pela editora 7 Letras, trata de separar os elementos mais preciosas das coisas que ficam entranhadas e com elas se misturam. Talvez por essa razão alquímica, o poema inaugural seja mesmo o “canto de dissolução”, onde o tempo atual no cadinho mágico: “sepultados, enfim,/ no tempo, todos nós.//Onde não há nem feito,/ nem pessoa, /nem voz”. O autor prossegue no ofício da separação: o nome da voz, a voz do homem, o lápis da ideia, o sentimento do peito, o sal do mar, o ser da carne e, por fim, a própria consciência: “Já sabe ele ser? Não sabe/ Se soube, desaprendeu./ Será que um dia o homem/ é só seu?”. A fim de evitar tanto sofrimento nesse processo de decantação, o poeta decreta o esquecimento “e, com o tempo, esquecer-se do tempo”.

A poesia é existencial em Matheus Barreto. Não tem aquela simplicidade do pão amanhecido, do chinelo virado, da salada com nozes. A narrativa, a temática, a estrutura do livro quer pensar o ser por ele mesmo, ir a fundo, mergulhar na essência. Dentro de um “tempo sem tempo” como o escritor faz menção à segunda parte “cartografia provisória”, investiga onde encontrará a própria poesia: na boca, debaixo da pedra, no copo d’água. Para mim, trata-se das etapas da conjunção e da fermentação. É ali que os objetos emanam o que têm de inato. O Matheus sartreano dá espaço ao Matheus platônico, debatendo-se entre a forma e a essência. No poema “Missa de 7º Dia”, por exemplo, ainda há visível o trabalho de depuração. A cama que carregava o morto precisa de limpeza, ar, sol, para que a sombra da morte – e do morto – desgrude-se do objeto.

Nesse paradoxo existencialista e platônico, naturalmente viria a pergunta: e se as coisas não completarem a missão para a qual são feitas? É claro que o poeta vai falar de si: “E o que fazer quando o homem/ de nome emprego identidade/ não sabe se o que olha no espelho/ existe – e, se existe, em que parte?” No ceticismo, Matheus Barreto encerra a segunda parte e começa a terceira, uma literal “retomada”, sem a tradicional estrutura poética, abundando espaços vazios, com perguntas sem respostas, inversões de sentido – “você está com a boca cheia de silêncios”. Páginas e páginas em branco, pautas musicais sem notas, um vazio melancólico de quem foi ao fundo do poço. É a destilação poética. Finalmente, o nosso alquimista volta ao poema e se torna maduro. Aprende que o mar é a gota, a cor é o olho, a poesia é instante. Toma uma resolução “quem tem/ coragem/ de/ falar// quando a fala/ sabe/ que sua única voz/ verdadeira/ é quando cala”.

No fim, Matheus Barreto percebe que eloquência demais violenta a palavra. É preciso dizer pouco e, ainda assim, correr o risco de tudo ser inútil. Aí está a coagulação da palavra! Esse é um livro de um poeta culto (que também quer parecer culto com tantas referências intra e intertextuais), fortemente influenciado pela contemporaneidade de Bertold Brecht, para o qual o desenlace é menos importante do que a ação e o ciclo contínuo é o ator principal da vida. Para onde ir não interessa, o importante é caminhar. Do meu ponto de vista, este segundo livro, muito mais curto, objetivo, refletido do que o primeiro, marca uma maturidade antecipada de um rapaz que ainda não tem a barba cerrada, mas que já se iniciou com os alquimistas das palavras.

 

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