Sete poemas de Matheus Guménin Barreto – Enfermaria 6 / Portugal – 29.5.2017

(Fonte: https://enfermaria6.squarespace.com/blog/2017/5/29/b8aml0efedkr29ew7buu7891sybr03 )

Matheus Guménin Barreto (1992) nasceu em Cuiabá, Brasil. Formou-se em Letras Português-Alemão na Universidade de São Paulo (USP), onde agora é mestrando da área de Língua e Literatura Alemãs na subárea de tradução. Suas traduções de Ingeborg Bachmann foram publicadas em Dito ao anoitecer (2017) e na antologia Lira argenta (2017), e suas traduções de Bertolt Brecht no livro Cântico de Orge (2017). Publica seu livro de poemas no segundo semestre de 2017 pela editora 7Letras.

*

POEMA DO AMADO PARA SEU AMADO

“Penteei-me para o rei
Mas foi ao escravo que dei as tranças do meu cabelo”

– Ana Paula Tavares, Manual para amantes desesperados, 2007.

a)
os dentes
teus amanhecem quando me veem
e compreendo
o inerte ofício das pedras
– plenas completas alegres.

b)
a voz amanhece na tua boca
ilumina: da garganta
ruminando o que não fora dito,
inaudito, e o que se ficou por dizer

pois

a voz amanhece na tua boca
e o contorno do sol posto
fica pregado
fica pregado
nas pálpebras

fechadas de pôr do sol

c)
e tua boca anoitece
quando o silêncio pousa e faz ninho nos teus lábios

até que
então nasce outra vez
o sol
da tua garganta áspera
raia outra vez, já à espera paciente
da hora de se pôr

flor
que anoitece

– e o eclipse do corpo meu
é violento

 


 

CANTO DE DISSOLUÇÃO
Sepultadas no tempo
deitam-se as coisas todas,
que já nem coisas são,
mas memória de coisas.

Sepultados no tempo
afundam-se os rostos
todos, ou quase todos,
e as datas, risos, gostos.

Sepultadas no tempo
jazem as nossas vidas,
num tempo em que não são
nem gozo nem ferida.

Sepultados, enfim,
no tempo, todos nós.

Onde não há nem feito,
nem pessoa, nem voz.

 


 

SE QUESTO È UN UOMO
Como é possível
um homem?
Pra quê? Pra que
lhe deram nome?
Que faz o homem?
Se, mal existe,
já some?

Como é possível
haver um homem?
Melhor seria
tivessem gasto
a Criação
em rios, em pedra,
em bicho, em prado,

em homem não.

O homem nasce,
vê, come e morre
já sem perdão.

 


 

O ÚLTIMO POEMA OU RIO LETE
A cabeça no limbo do tempo.
Descansar já sem rosto e sem nome
e, deitado no córrego insone,
esquecer-se do bicho, do homem
e, com o tempo, esquecer-se do tempo.

 


 

é lícito um poema onde ecoem passos
de um único homem ou de sua sombra os passos?
é lícito o poema de uns pés descalços, limpos, sobre um
pátio ainda mais? lícito
é que água ainda não convexa de toques nem
de rostos outros espelhados que um só rosto, que essa água
reste?
ecos, passos, sombras, pés descalços, toques?
é lícito que haja? é lícito que haja tão rara palavra:
lícito?

é lícito que haja o que haver em versos
como estes
se os tiroteios furam a pele de uma mãe, de um pai, de um filho e de um que não nasceu e não nascerá num canto escuro qualquer desse país que nem me digno a saber enquanto escrevo um poema sobre escrever um poema sobre um revólver calibre 38 que resolve anular o tempo?

 


 

as partículas todas
agrupadas ou prestes a
na dança comum do ir sendo
e a
multiplicação
pródiga de tudo o que foi,
é, será ou pode vir a ser
e o cair de tudo isso do colo abarrotado do tempo

fulminam alguém num apartamento de classe média alta no dividido Brasil de PECs 55

 


 

INÚTIL
Inútil
inútil o gesto o plexo o beijo
inútil o desejo e o não-desejo
[igualmente
Inútil inútil o salto e a pausa
Inútil a mão no ombro alheio
[e próprio
Inútil soberanamente inútil
o gesto o plexo o beijo
nas campinas afiadas de verde
nas geometrias escuras da mente

e essa vontade de amar.

Um comentário sobre “Sete poemas de Matheus Guménin Barreto – Enfermaria 6 / Portugal – 29.5.2017

  1. Engraçado, essas poesias tem algo parecido com o que sai também de minhas mãos, além disso também nasci em 92, moro em Cuiabá, chamam-me de Paulo Siqueira de Souza, coincidências a toa, também escrevemos sobre o sentimento único numa boa. Simplesmente algo que na cabeça soa, na hora que a mão ecoa o som do teclado, as vezes perdura a noite toda. Outro dia a mesma leoa que tenta me engolir adestro, ela cria outros leões que me apetecerão, quando uso refrões para destoar e formar canções, internas funções de corações que vibram em um verbo só: Ação. Ou amor, que vem da vigia-oração-atenção, retina interna fascina quando sai régua para os olhos que só vêm métrica, sentem leve, não entendem muitas vezes a metáfora dessa greve-interna-neve.

    Grato pela manifestação da sua arte, Paulo Siqueira!

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